O burburinho pelo sistema de assinatura para eBooks na DBW 2014


Co-fundador da 24symbols analisa os serviços de assinatura de livros

É fascinante como podemos ser relativamente novatos na indústria editorial, onde relacionamentos estão no centro dos negócios, e ao mesmo tempo sermos um “vovô” no negócio de assinaturas de e-books, comoMike Shatzkin falou sobre minha startup 24symbols há algumas semanas. Apesar de me sentir bastante jovem ainda, já vi consideráveis mudanças em relação à aceitação de modelos de negócios alternativos que podem impactar na rentabilidade e, mais importante, no crescimento da leitura em aparelhos digitais contra outras alternativas de diversão e culturais.

Junto com outros 1.500 amigos, participei da Digital Book World 2014 para falar em um painel com outros fornecedores de assinatura de ebooks como ScribdOyster e Entitle. Estes serviços não existiam há um ano, o que fala muito sobre como a tendência está se tornando uma oportunidade.

Quando eu e meus sócios montamos a 24symbols, que pensamos como o “Spotify para Livros” [traduzida apropriadamente como “Netflix para Livros” quando viajamos para os EUA], estávamos tentando não só criar um impacto, mas também fazer uma declaração: As pessoas estão começando a procurar formas de consumir bens digitais de novas maneiras, e essa exigência está chegando à indústria editorial de e-books. O fato de que três anos depois a mais importante conferência nos EUA foi toda voltada para esse novo modelo, mesmo que evitando falar a palavra assinatura em voz alta [como se fosse um palavrão que participantes e conferencistas preferiam evitar] significa duas coisas para mim.

Primeiro é que todas as mudanças significativas na vida levam tempo; há muitas forças opositoras e esta é a razão pela qual existem as startups, pois em muitos casos lutar contra estas forças internamente é como tentar correr enquanto se está amarrando os cadarços. Nada acontece, exceto que você termina cansado.

Em segundo lugar, tudo se resume aos detalhes. As perguntas feitas durante o painel #DBW14 não eram nada diferentes das perguntadas para mim nos últimos três anos: relação com editoras, divisão do comportamento de leitura com eles, crescimento da base de usuários, estratégias de internacionalização, recursos das apps e dos aparelhos, potencial canibalização, etc. A diferença é o contexto. Um contexto no qual algumas grandes editoras, junto com muitas outras pequenas e médias, já estão trabalhando com startups em diferentes modelos de negócio. Um contexto em que alguns investidores capitalistas e sócios industriais estão investindo o dinheiro deles em serviços como os nossos. Claro, um contexto onde nem todo mundo acredita no que estes serviços estão oferecendo, mas onde o raciocínio que acontece entre estas discussões é mais maduro, com mais dados e focado em encontrar soluções. Baseado no resultado de diferentes painéis sobre o modelo de assinatura durante a conferência e alguns encontros pessoais, analistas da indústria não estão mais pensando se estes serviços são viáveis ou não, mas se eles podem ajudar a resolver alguns dos problemas da indústria do livro.

Tive a honra de observar e atuar em um papel central nesse cenário e ver como os modelos de negócios baseados em assinatura se desenvolveram durante os últimos quatro anos, como serviços bem-sucedidos estão operando em lugares como Alemanha, Brasil, Espanha ou Rússia. Ainda há muitas variáveis desconhecidas, e certamente novos players e evoluções dos modelos de negócios vão aparecer e desaparecer. Mas eu não podia evitar sorrir sempre que “assinatura” era pronunciada em quase todo painel, workshop e apresentação na maioria das conferências de negócios que consegui participar.

Sobre Justo Hidalgo

Justo Hidalgo é co-fundador da 24symbols, um serviço de assinaturas de e-books. Ele é professor de pós-graduação em Estratégia e Inovação de Produto e executivo em Madri, Espanha, além de mentor de start-ups. Antes da 24symbols, Justo era VP de Gerenciamento e Consultoria de Produto na Denodo Technologies, líder mundial em pré-vendas e gerenciamento de produtos. Possui Doutorado e Mestrado em Ciência da Computação e recebeu treinamento em Gerenciamento de Produto, Marketing, Inovação e Criatividade de Produto. Ele pode ser contatado via twitter em @justohidalgo.

Por Justo Hidalgo | PublishNews | 11/02/2014 | Este texto foi originalmente publicado na Digital Book World | Tradução Marcelo Barbão

Bibliotecas digitais: um novo mercado a vista


Iniciativas no âmbito digital prometem dar fôlego extra à venda de e-books no Brasil

O Censo Nacional das Bibliotecas Públicas Municipais do Brasil, realizado em 2010 pela Fundação Getúlio Vargas [FGV] mostrou que 79% dos municípios brasileiros têm, pelo menos, uma biblioteca municipal. Em média, elas fazem modestos 296 empréstimos por mês. O reflexo disso na indústria editorial, até agora, era muito pequeno: a mesma pesquisa mostra que apenas 17% dos acervos das bibliotecas municipais são resultado de compras, contra 83% de doações. Mas algumas iniciativas no âmbito digital prometem mudar esse cenário. Na manhã de hoje, os editores cariocas conheceram a novíssima Biblioteca Xeriph, criada pela distribuidora de livros digitais de mesmo nome. O foco é exatamente as bibliotecas municipais e corporativas. A favor do projeto, está a cartela de clientes da Xeriph que hoje conta com 280 editoras, com catálogos bastante diversificados.

Carlos Eduardo Ernanny, diretor da Xeriph, aponta que o grande diferencial da nova biblioteca digital é que ela não é focada ou especializada em educação. “Somos a primeira biblioteca de e-books no Brasil não pensada exclusivamente nos estudantes”, explica. Outras iniciativas como Minha BibliotecaPasta do Professor e Árvore de Livros [que deve entrar em operação em março] têm como foco principal escolas ou universidades. Neste aspecto, o negócio daXeriph é mesmo diferente. O Censo da FGV mostrou que apenas 8% das pessoas que frequentam bibliotecas vão para lazer e é essa fatia que a Xeriph quer fazer crescer e, depois abocanhar. “Não é que o brasileiro não lê. Ele quer ler, mas não tem acesso ao livro”, defende Carlos Eduardo. O executivo lembra ainda que a quantidade de bibliotecas que abrem fora do horário comercial é irrisória. O censo da FGV fala de apenas 12% das bibliotecas funcionam aos sábados, por exemplo. “A população economicamente ativa não tem acesso à biblioteca e é isso que queremos mudar.O nosso modelo tem capacidade real de transformar o perfil das bibliotecas no Brasil”, promete o diretor. E já que as bibliotecas digitais nunca fecham, funcionam sete dias por semana, 24 horas por dia, o executivo defende que uma biblioteca que tinha 300 acessos por mês poderá ter 5 mil usuários ativos.

A plataforma da Xeriph foi viabilizada depois da compra da empresa pelo Abril Mídia, em maio passado. No projeto, foram empregados R$ 1,5 milhão e a plataforma já está pronta, de acordo com Carlos Eduardo. “Já estamos em negociação com uma grande empresa que tem operações dentro e fora do Brasil e ainda com o sistema de bibliotecas de uma grande cidade brasileira. Assim que fechar o contrato, colocamos a plataforma em operação”, conta. Por questões contratuais, a Xeriph não pode ainda revelar os nomes dos seus clientes em potencial.

Modelo de negócios

“A nossa grande missão era encontrar uma prática rentável para as editoras”, conta Carlos Eduardo. Para chegar a um modelo de negócio que atendesse esse demanda, foi criado um pool de dez editoras já clientes da Xeriph. Durante oito meses, diversos modelos de negócios foram submetidos a esses parceiros, que escolheram duas formas de vendas. Na primeira delas, a biblioteca compra a plataforma e o acervo, a partir do catálogo das editoras. Cada livro, comprado a preço de capa, poderá ser emprestado para apenas um usuário por vez, por 14 dias. Findado o prazo, o livro é compulsória e automaticamente devolvido. A segunda opção é comprar a plataforma e ter os livros por subscrição, ou seja, a biblioteca paga pelo acesso que seus usuários fazem ao livro. No modelo de subscrição, a editora será remunerada pela audiência. Cada vez que um livro for emprestado, a biblioteca paga uma taxa à Xeriph, 60% desse valor é repassado às editoras. Nos dois casos, o usuário não pode fazer mais de dez downloads ao mês e nem emprestar mais de 5 livros de uma só vez. De acordo com Carlos Eduardo, essa é uma maneira de não atrapalhar o negócio de livreiros.

A plataforma permite que quando o usuário clique no livro que tem interesse, ele não vê apenas a capa, a sinopse e outros metadados, mas também a fila de espera do livro. Se há mais de 25 pessoas na fila e apenas um exemplar adquirido, isso implica que o 26º usuário vai ter que esperar mais de um ano para ter acesso ao título desejado. Assim, o bibliotecário pode tomar a decisão de comprar outros exemplares, isso tudo de forma muito simples, a um clique. “A fila é um termômetro: uma fila cada vez maiorpossibilita que as bibliotecas se tornem grandes clientes para as editoras”, defende o diretor. Para utilização da plataforma, foram criados aplicativos para iOS, Android, PC e Mac.

Árvore de Livros

O PublishNews adiantou, no final de janeiro, a criação da Árvore de Livros, capitaneada por Galeno Amorim [ex Fundação Biblioteca Nacional]. Ao contrário da Biblioteca Xeriph, a Árvore é focada nas escolas das redes públicas e privadas, mais especificamente nos alunos de ensino fundamental 2 e médio. A plataforma, que deve entrar em operação em março, vai cobrar uma assinatura anual de governos, prefeituras, escolas e empresas para que seus usuários acessem de forma ilimitada por meio de computadores, smartphones e tablets.

De acordo com material enviado às editoras e ao qual o PublishNews teve acesso, a expectativa é adquirir acervo inicial de 200 mil e-books para atender mais de 170 mil alunos.O modelo de negócios da Árvore de Livros foi desenvolvido com base em estudos, pesquisas e comparações feitas com modelos existentes no mundo. Foram feitas adaptações à realidade e às peculiaridades do mercado nacional, e levou em conta o perfil e as práticas leitoras vigentes nas bibliotecas e escolas do País. Em resumo, a Árvore adquire pelo preço de mercado pelo menos um e-book escolhido para compor o acervo da biblioteca digital de seus clientes. O livro digital pode ser emprestado de forma simultânea e sua licença de uso expira após 100 empréstimos. Cada vez que um usuário tentar ler um e-book que está emprestado é gerada uma nova compra do produto. Por exemplo, um livro adotado por uma rede de ensino que exija a leitura simultânea de 5 mil alunos. Isso resultará na compra de 5 mil e-book desse título.

Relatórios mensais vão servir de guia para acerto com as editoras participantes do projeto. Além disso, a editora pode monitorar online e em tempo real a quantidade de acesso e a leitura de seus títulos, além de ter acesso a dados estatísticos sobre o desempenho e a preferência dos usuários, formando um perfil de seus consumidores. Na apresentação enviada aos editores, há um e-mail pelo qual editoras podem enviar propostas: editoras@arvoredelivros.com.br.

Contraponto

Para José Castilho Marques Neto, secretário executivo do Plano Nacional do Livro e Leitura [PNLL], essas iniciativas que começam a aparecer no ambiente digital são muito bem-vindas, mas precisam ser vistas com ressalvas. “Não podemos construir um fetiche em torno dessas questões, nem dizer que são absolutamente importantes e nem dizer que não são importantes”, comenta. Ele defende que, no que tangencia o PNLL, sejam construídos, além de plataformas de acesso a e-books, programas pedagógicos de incentivo à leitura. “Nenhuma biblioteca – seja digital ou física – vai resolver o problema da leitura no Brasil”, comentou.

Castilho comenta ainda que não dá para “fazer marketing em cima dessas iniciativas” e conclui: “No fim, pode ser um bom negócio para quem produz, mas não vai ter o efeito desejado se não estiver dentro de um planejamento mais amplo”.

Evento em SP

Hoje pela manhã, a Xeriph apresentou a plataforma e seu plano de negócios para editores cariocas. No dia 13/02 será a vez de São Paulo. São esperados mais de 100 representantes de editoras paulistas. O encontro será no São Paulo Center [Av. Lineu de Paula Machado, 1088/1100 – Cidade Jardim], a partir das 16h.

Por Leonardo Neto | Publicado originalmente em PublishNews | 11/02/2014

LCD ou e-Ink: qual é melhor para leitura?


Sem dúvida nenhuma os tablets com tela de LCD vendem muito mais do que um aparelho para leitura de livros digitais como o Kindle, da Amazon, e o Kobo, da Livraria Cultura. Nos Estados Unidos, por exemplo, com o preço de um iPad Air básico com WiFi e 16 GB, é possível adquirir quase cinco dispositivos Kindle PaperWhite com conexão sem fio.

Afinal, por qual motivo as pessoas deixam de adquirir um eReader? Ele é muito mais barato do que um tablet com tela de LCD e proporciona uma experiência de leitura melhor. Para conseguir compreender as principais diferenças entre esses dois gadgets, vamos mostrar alguns detalhes que podem fazer a diferença na hora de escolher um ou outro.

Saiba a diferença entre a tecnologia LCD e e-Ink

Apesar da semelhança visual entre eReaders e Tablets – acredite, muitas pessoas não familiarizadas com tecnologia confundem o Kindle Paperwhite de 6 polegadas com o iPad mini de 7,9 polegadas –, uma das principais diferenças é o tipo de tela presente em cada um.

A tecnologia LCD está presente na tela do seu computador, smartphone, tablet e até mesmo da televisão que você utiliza. Esse display proporciona uma grande variedade de cores com uma taxa de atualização ideal para assistir vídeos e jogar alguns games. A tela LCD ainda conta com uma forma de iluminação chamada de backlight – ou retroiluminação –, que representa uma luz por trás ou pelo lado para melhorar a legibilidade.

Com relação às telas e-Ink, elas são ideais para a leitura de textos em preto e branco – as telas e-Ink coloridas existem, mas ainda não estão disponíveis em aparelhos comerciais do tipo. Além disso, elas possuem uma taxa de atualização muito baixa, o que inviabiliza a execução de jogos e vídeos e interfere na velocidade de um navegador de internet. A maior qualidade de uma tela e-Ink é, definitivamente, a forma que ela apresenta um texto, sendo considerada por muitos especialistas como o “papel eletrônico”.

Colocando as características no papel… Quer dizer, na tela

Por ser um dispositivo muito mais simples, o eReader consome muito menos bateria. Enquanto é preciso correr diariamente para carregar a bateria de um tablet ou smartphone – aquele desespero inexplicável quando a bateria alcança menos de 10% e você está longe de casa e de uma tomada –, você pode ficar dias e até semanas sem precisar recarregar o seu aparelho para leitura de livros digitais.

Enquanto algumas companhias anunciam seus tablets com “10 horas de bateria”, o anúncio do recente lançamento da Amazon – Kindle Paperwhite – aponta “mais de 8 semanas de bateria”. Nesse quesito, o aparelho de leitura digital é a opção recomendada para longas viagens.

Se você deseja ler livros ao ar livre ou em contato direto com o sol [se você já tentou usar o smartphone em um dia ensolarado na praia sabe do que estou falando], o gadget com tela e-Ink é o ideal, já que ele proporciona uma leitura nítida como se estivesse lendo em uma revista ou jornal.

Com relação à leitura em ambientes noturnos, é claro que é possível usar os dois dispositivos. No entanto, o display LCD proporciona uma luz muito mais forte – mesmo diminuindo a luminosidade nas configurações do aparelho – do que um eReader como o Kindle Paperwhite, que também possui uma luz integrada, mas não é backlight. Caso você tenha que dormir com mais alguém no mesmo ambiente, a luz da tela LCD pode realmente incomodar, portanto o aparelho com tela e-Ink pode ser mais confortável.

Na verdade, um dos maiores fatores responsáveis – se não o maior – por influenciar na escolha do dispositivo é o preço. Sim, o valor do aparelho sempre faz algumas escolhas por nós, não é mesmo?

No caso de um gadget com tela e-Ink e LCD, o display de aparelhos para leitura digital é significantemente menor. Tablets e smartphones com telas de LCD precisam ter hardwares muito mais potentes, já que executam outras funções além da leitura, como jogos, aplicativos, vídeos etc. Em um eReader, as suas únicas tarefas são armazenar livros digitais e virar páginas em uma velocidade razoável.

Cuidado com os olhos!

Por todas as características apresentadas acima, é possível concluir que um gadget com tela e-Ink pode ser mais saudável para os olhos durante um longo período de leitura, correto? Errado! De acordo com uma pesquisa publicada em 2012 no site norte-americano PubMed, não faz diferença – em termos de cansaço visual – ler em um dispositivo com tela e-Ink ou LCD.

No entanto, se houver cansaço visual durante a leitura em dispositivos LCD antigos e com resolução baixa, isso não deve ocorrer nos aparelhos modernos e com alta resolução. Tudo depende da definição da imagem.

É claro que os testes não foram realizados com os dispositivos expostos ao sol. Se isso tivesse acontecido, o cansaço visual em dispositivos com tela LCD seria muito maior.

Tudo depende da sua necessidade

Escolher entre um tablet ou um eReader depende, é claro, da sua necessidade e do quanto você está disposto a gastar. Um não é melhor do que o outro. Se você procura uma experiência melhor para ler livros digitais – de dia, de noite e em qualquer lugar – e pretende levar o gadget para longas viagens sem a necessidade de recarregar a bateria com frequência, o eReader é a sua opção.

Caso o seu interesse seja em navegar na internet, ouvir músicas, baixar jogos, vídeos e outros diversos aplicativos, sem dúvida um tablet ou smartphone com tela de LCD é o mais recomendado para você.

Tecmundo | 11/02/14

Dicionário tenta manter relevância na era digital


Compilar um dicionário de quase todas as palavras que fazem parte da língua inglesa foi um empreendimento típico dos tempos vitorianos e, como estes, caracterizado por cavalheiros de barbas brancas, confiança absoluta e um ritmo agradavelmente tranquilo. A primeira parte do dicionário foi lançada em 1884, após 25 anos. Seu conteúdo: “A até ‘Ant'”.

Nestes nossos tempos impacientes, contudo, o “Oxford English Dictionary” [OED] está avançando em direção a uma terceira edição, com 619 mil palavras definidas até agora, atualizações on-line a cada três meses e uma enxurrada de dados digitais a serem vasculhados.

Pela primeira vez em 20 anos, o dicionário respeitadíssimo tem um novo editor-chefe, Michael Proffitt, 48, que assume a responsabilidade de conservar as tradições e, ao mesmo tempo, garantir a relevância do dicionário em uma era de definições tiradas do Google e do jargão das mensagens de texto. Proffitt demonstra respeito pelas tradições, mas igual disposição em rever o dicionário. “O que eu penso sobre dicionários é que, de certo modo, seu tempo se esgotou” , disse. “As pessoas precisam de filtros muito mais do que precisavam no passado. Por mais que eu adira à reputação pública do OED, quero a comprovação de seu valor em termos de utilização prática.

Proffitt defende a inclusão, em literatura digitalizada, de links com verbetes do OED; quer que o dicionário seja mais utilizado por estudantes, para os quais a distinção entre “dicionário” e “busca na web” é cada vez menos clara.

O OED sempre se destacou, não apenas por suas definições abalizadas, mas sobretudo por suas citações históricas, que rastreiam o uso dos termos ao longo do tempo. A primeira edição, proposta em 1858 com a previsão de ser concluída em dez anos, ficou pronta 70 anos depois, em 1928. A segunda edição saiu em 1989, com 21.730 páginas. A terceira edição começou a ser produzida em 1994, com a expectativa de ser concluída em 2005. A previsão foi ligeiramente imprecisa -segundo a estimativa atual, a edição deve ficar pronta em 2037.

Mas, não obstante o admirável rigor do OED., é provável que hoje em dia o dicionário seja mais reverenciado que utilizado. Parte do problema está em seu preço. Uma cópia da segunda edição, que tem 20 volumes, custa US$ 995, e a assinatura digital sai por US$ 295 por um ano.

Embora o OED tenha sobrevivido às reviravoltas da internet que devastaram outras obras de referência, o dicionário ainda não se capitalizou plenamente nesse meio. Proffitt está ansioso por fazê-lo, talvez com preços mais baixos.

Muitos dos princípios iniciais do OED continuam firmes, mas o modo como o dicionário se manifesta e o modo como chega até as pessoas precisam mudar“, disse Proffitt, que foge bastante da imagem do acadêmico do passado, tendo aludido com satisfação ao fato de ter redigido o verbete de “phat” [“a. Relativo a uma pessoa, esp. uma mulher: sexy, atraente. b. Esp. relativo a música: excelente, admirável; na moda, ‘cool'”].

No século 19, o principal obstáculo à criação do dicionário que abrangeria “todas as palavras que ocorrem na literatura da língua que ele afirma ilustrar” seria localizar citações apropriadas. Hoje, a equipe editorial, composta por cerca de 70 pessoas, lida com informação em demasia. “Ouvimos tudo o que vem acontecendo no mundo da língua inglesa nos últimos 500 anos, e é ensurdecedor“, disse o editor associado, Peter Gilliver, que certa vez passou nove meses revendo definições da palavra “run”, atualmente o maior verbete isolado presente no OED.

A maior parte das citações usadas nos primórdios do dicionário veio de textos literários. Mas o texto atual é muito mais inclusivo, abrangendo posts de blogs e do Twitter, frases tiradas de lápides de túmulos e uma inscrição em um anuário escolar. O objetivo é encontrar as primeiras e mais ilustrativas utilizações de uma palavra, não ungir alguma coisa como sendo parte do “inglês castiço”. Cada vez que comentaristas repreendem o OED. por incluir gírias de adolescentes ou jargão de marketing, se equivocam em relação aos objetivos do dicionário, que não visa definir como a linguagem deve ser usada, mas como é usada na realidade.

A visão do contexto histórico muitas vezes convence o leitor de que algo que parecia ser uma regra inabalável não o é. E, do mesmo modo em que a linguagem se modifica, suas utilizações também mudam. Quanto mais um povo é flexível em relação à linguagem que usa, maior é a probabilidade de ele prosperar.

POR TOM RACHMAN | NEW YORK TIMES | 11/02/2014, às 03h00 | Publicado originalmente e clipado à partir de Folha de S. Paulo