Impressos versus eBooks


POR LUCIANA GALASTRI | Publicado originalmente em GALILEU

Por que essa discussão não faz sentido

Eu recentemente recebi um Kindle Paperwhite para testes [vai rolar o review em breve!]. Levei o bonitinho na minha mochila durante o recesso de fim de ano e, chegando em Curitiba, minha cidade natal, o que encontrei foram os olhares chocados de amigos e família. “Você vai trocar os livros por isso?”, me perguntaram. Eu nem tinha lido o meu primeiro livro no gadget e já era recebida com pedras nas mãos.

Ok, vá lá, eles tinham uma boa quantidade de argumentos para jusitificar essa recepção ~calorosa~. Eu sofro claramente do que Nick Hornby chama de Frenesi Polissilábico [aliás, um bom livro], uma ânsia por ler que me faz ser desde uma colecionadora compulsiva de livros [já não tenho nem onde guardá-los], até, em momentos de tédio, passar os olhos por rótulos de embalagens de barrinhas de cereal, shampoo, bula de remédio, mesmo sem entender os compostos descritos ali.

[pule o próximo parágrafo se você não quer ler um depoimento longo e apaixonado sobre a minha vida de leitora]

Essa é a minha sina. Escrava de ocupar meus sentidos, o tempo todo, com palavras escritas. Elas passam por meus olhos, ouço-as em minha mente, sinto o gosto delas através de uma preocupante sinestesia [que já me fez não gostar de pessoas que eu mal conhecia ‘por causa do gosto do nome delas’]. Com o gosto vem o cheiro, então o olfato também está nesse jogo. Depois agrupo toda essa mistureba em sensações que me fazem chorar copiosamente, dar risada em público ou morrer de tédio. Resiliente, luto contra as palavras até deixar que elas me vençam, me convençam, ou desisto e passo para o próximo texto. Não me imagino terminando o Ulysses, apontando para ele e gritando “eu ganhei de você!” – por mais que o livro imenso e complexo seja um desafio, se eu sinto que superei um livro, eu provavelmente não o li direito ou deveria ter desistido dele. Ganhar de um livro nunca é uma opção. Ou você é conquistado por ele ou perdeu seu tempo, playboy.

[agora você está seguro]

Eu não leria, impresso, o que leio no reader. Não leio no reader o que leria impresso.

Enfim, divagações apaixonadas à parte, o fato é que eu tenho uma coleção gigantesca de livros. No meu quarto, contei, há 532. Na biblioteca da casa dos meus pais [sim, precisamos transformar uma sala em biblioteca por necessidades práticas, não imagine uma mansão de Downton Abbey], nem se fala. E sempre fui uma defensora do livro como um objeto de desejo. Sou uma dessas pessoas constrangedoras que cheiram livros, olhando para os lados para ter certeza que não há testemunhas da minha perversão. Aí me vejo com um e-reader na mão e empolgada como uma criancinha. E o mundo me julga.

Mas não acho que seja uma competição. Não me vejo saindo das livrarias que amo para ficar em casa baixando livros. Afinal, livrarias são experiências sensoriais e o livro-objeto é uma declaração ao mundo. As pessoas vão olhá-lo em sua estante. Vão ler a capa enquanto você está com o livro no ônibus.

Ao mesmo tempo, o Kindle abriu um acervo completamente novo para mim – mas de livros-só-conteúdo. Livros que não estão disponíveis em lojas brasileiras. Livros caros, cuja edição física eu não poderia comprar. Enfim, como diria o poeta das ruas, uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Eu não leria, impresso, o que leio no reader. Não leio no reader o que leria impresso.

Li sobre uma pesquisa que mostra que a maioria dos jovens [com idade abaixo de 24 anos]ainda preferem os impressos aos e-book. De 1400 entrevistados, 62% declararam a preferência pelo papel. Os motivos eram desde ‘quero prateleiras cheias’, ‘faço coleções’ ou ‘adoro o cheiro’ [não estou sozinha!]. E, ainda assim, os 38% que preferem a versão eletrônica não são um número pequeno se contarmos a dificuldade de acesso aos readers. Tudo é uma questão de como você analisa os números.

‘Mas a forma com que as pessoas estão lendo muda!’. Sim. Só o fato do e-reader mostrar o quanto falta para que eu termine cada capítulo faz com que eu leia mais rápido, em doses maiores, quando estou no gadget. Isso é ruim? Não faço ideia. Entra na mesma discussão das mudanças que a internet está fazendo em nosso cérebro, as mesmas surgidas com a popularização da TV, do rádio… e você sabia que, 2400 anos atrás, um cara grego chamado Platão dizia que  ler e escrever ia acabar com a nossa capacidade de memorização? Pois bem, provavelmente aconteceram mudanças nesse sentido. Provavelmente, Platão tinha uma memória superior. Mas você vai negar o que a escrita trouxe de bom? Afinal, soube dessa história de Platão porque li sobre ele e não porque um sujeito na rua me contou.

Falando em conversas com sujeitos na rua, o famoso teórico da comunicação, Marshall McLuhan, dizia que o fato de lermos sozinhos, em silêncio, provocou uma grande mudança desde os tempos em que jornais e manuscritos eram lidos em voz alta para uma grande audiência. A leitura já foi uma experiência social e não apenas um momento de imersão. Ch-ch-ch-changes! Hoje, não vejo como seria possível que eu absorvesse o conteúdo de um livro enquanto leio para uma plateia. Lógico, há uma série de explicações para essa mudança, como a inclusão educacional. Mas você diria que a extinção da leitura em grupo foi para pior? Foi para melhor?

Ler e-boks vai alterar a minha vida como leitora? Com certeza. Vai prejudicá-la? Provavelmente o meu bolso vai sair machucado [compras por um clique e o produto ‘em suas mãos’ em poucos segundos = receita infalível para estourar o cartão de crédito]. Mas eu, honestamente, não sei o que define a minha leitura para saber de que forma ela seria comprometida pela experiência eletrônica de forma que transcenda o virar de páginas. Até agora não tive uma experiência com um livro que foi similar à leitura de outro – e isso contando livros de mesmos autores, ou aquelas sagas de vampiros para adolescentes que, em teoria, seguiriam a mesma fórmula.

E esse mesmo argumento, de que a minha leitura não é escrava da generalização, é o que me protege de dizer que é pior ou melhor ler no Kindle. É diferente. Como um livro, naturalmente, difere do outro.

POR LUCIANA GALASTRI | Publicado originalmente em GALILEU

Biblioteca do Senac faz troca de DVD por livro em Rio Claro [SP]


A biblioteca do Senac Rio Claro [SP] realizará a 1ª Feira de DVD por Livro de 3 de fevereiro a 20 de março. O objetivo é ampliar o acervo de filmes, desenhos e documentários para empréstimo aos usuários da própria unidade. A biblioteca atende alunos, docentes e público externo.

São 164 livros disponíveis para a troca por DVDs originais e em bom estado de funcionamento, que podem ser de suspense, romance, ficção, drama e documentários. Obras de conteúdo erótico, religioso ou cópias não serão aceitas.

A Feira de Trocas de DVD por Livro será aberta para todos os alunos dos cursos do Senac Rio Claro e também para a comunidade, que poderá fazer a troca durante o período do evento.

A feira vai funcionar de segunda-feira a sexta feira das 8h às21h e aos sábados das 8h às 14h. A biblioteca do Senac Rio Claro fica na Avenida Dois, 720, Centro. Mais informações pelo site ou pelo telefone [19] 2112-3400.

G1 – 02/02/14