THEMA | A nova ferramenta de metadados para livros


Por Felipe Lindoso | Publicado originalmente em PublishNews | 29/01/2014

Os leitores de O Nome da Rosa, de Umberto Eco, podem lembrar que os crimesno mosteiro acontecem, no final das contas, em torno de um assunto aparentemente prosaico: a classificação a ser dada ao suposto manuscrito de Aristóteles achado na biblioteca do convento. O suposto tratado sobre o riso seria obra filosófica [no sentido dado à palavra pela escolástica], ou um texto demoníaco que negava o cristianismo? Dessa classificação dependeria o acesso ao manuscrito ou sua condenação ao “inferno” dos livros proibidos. Da disputa, surge a razão dos assassinatos.

Por isso é que às vezes eu brinco, conversando com bibliotecários, que eles são capazes de assassinar em disputas sobre a classificação. O estruturado sistema decimal usado nas bibliotecas abre espaços para esse tipo de disputas [felizmente, rara vez resultando em assassinatos, mas muitas vezes em disputas acerbas entre os bibliotecários].

O sistema decimal serve muito bem aos sistemas de bibliotecas. Mas, para a indústria editorial e para o comércio de livros resulta demasiadamente complicado. O assunto foi progressivamente sendo enfrentado pela indústria. Primeiro veio o ISBN, um identificador unívoco de cada título e edição. Mas, se não se sabe qual o ISBN, as buscas devem utilizar algum outro metadado. Os mais comuns, certamente, são o título e o nome do autor. Durante várias décadas isso funcionou bem para o mercado e foi incorporado nos sistemas de bibliotecas. Mecanismos com o protocolo Z.39.5 permitem que os computadores de diferentes bibliotecas “conversem” entre si a partir de fragmentos como esses, e importem/exportem dados de classificação cooperativa [nossa BN, infelizmente, não abre esse mecanismo. O sistema de bibliotecas das universidades paulistas abre, em parte].

Mas a classificação por “assuntos” do ISBN sempre foi muito frouxa e desregulada. Quando aconteceu o avanço do comércio internacional de livros e particularmente o surgimento dos e-books, as deficiências dos mecanismos de busca por assunto revelaram de vez suas fragilidades. Daí que as entidades ligadas aos livros, em cada país [as que levam esses assuntos a sério, é claro], começaram a enfrentar o problema. O BISG – Book Industry Study Group, dos EUA, formulou o BISAC, os ingleses criaram o BIC, os franceses o CLIL e os alemães o WGS. E começaram os remendos, com gente armando esquemas para “traduzir” as classificações de um para o outro. Isso sem falar na Amazon, que usa o BISAC, mas acrescenta um monte de outros metadados que lhe permite fazer listas de best-sellers extremamente segmentadas e tornar mais fluido seu mecanismo de buscas.

No meio do caminho apareceu o DOI – Digital Object Identifier e o consórcio EdiTeur. O EdiTeur é, digamos assim, o meta incentivador/organizador de padrões para a indústria editorial. Praticamente tudo de relevante formatado em termos de padronização surgiu de iniciativas do grupo, embora a administração de cada um deles logo tenha passado para órgãos específicos. O padrão Epubé administrado por um consórcio específico, assim como o ISBN possui um escritório central sediado em Berlim. O ONIX [ON line Interface EXchange], criado pelo BISG, também se integra a essa constelação.

Gosto de citar o DOI porque acompanhei um tanto de perto as etapas finais de sua formulação, quando ainda trabalhava na CBL, e pela sua importância nos sistemas de gerenciamento de direitos. O DOI permite que qualquer segmento de informação digital, definido como tal pelo editor [de livros, de música, de filmes], receba um identificador único. Assim, um livro inteiro pode ter um identificador, ou um capítulo, ou uma ilustração, ou um gráfico, etc. Uma vez embutido, o DOI permite, em tese, que a circulação desse documento digital possa ser rastreado na Internet. O DOI é administrado pela DOI Foundation, e conta com a participação dos mencionados segmentos de música e filmes.

A mais recente iniciativa do EdiTeur é o THEMA, um sistema internacional para classificação de assuntos. O THEMA pretende incorporar progressivamente os demais sistemas de classificação de assuntos, permitindo uma uniformização dos objetos de pesquisa.

Durante a conferência Tools ofChangena edição de 2012 da Feira de Frankfurt foi anunciado o projeto do THEMA, que imediatamente ganhou apoio das associações de mais de doze países, tanto da América do Norte quanto da Europa. Logo se construiu um projeto piloto e uma proposta para a governança do sistema, que ficou adjudicado ao EdiTeur na última Feira de Frankfurt, em 2013. Na ocasião também foi criado um comitê para dirigir o seu desenvolvimento, que deverá se reunir durante as feiras de Londres e Frankfurt para acompanhar o projeto.

A proposta do THEMA é a construção de um sistema global de classificação de assuntos, aplicável facilmente por todos os integrantes da cadeia de produção e comercialização de livros, com flexibilidade para permitir que cada mercado retenha suas especificidades culturais. Integrado ao ONIX, permitirá o uso em múltiplas plataformas de comercialização e difusão do livro.

Mas, afinal, como funciona esse tal de THEMA? O sistema estabelece uma hierarquia de assuntos, com vinte assuntos de nível máximo, cada um dividido em quantas subcategorias forem necessárias, cada uma dessas categorias inferiores identificada por códigos alfanuméricos.

As hierarquias maiores correspondem a uma letra. A, por exemplo, são as Artes. Daí em diante vão se subdividindo: AB corresponde a Artes: assuntos gerais;ABA vai para Artes – Teoria. E assim por diante. A chave, evidentemente, é manter uniformes as categorias, na medida em que sejam formadas.

A hierarquia implica que os livros devam ser classificados até o nível de detalhe mais adequado, mas sempre relacionados com os níveis superiores. Por exemplo, um livro que entre na categoria AGA [História da Arte] será também automaticamente classificado nos níveis mais gerais – AG [Belas Artes: tratamentos e assuntos] e o A.

O sistema permite também a combinação de várias classificações e o detalhamento por países, época histórica ou corrente artística, idade possível de interesse para o livro e seja lá mais que dado possa ser considerado relevante. Como os códigos serão alfanuméricos e constantes, os cabeçalhos podem ser traduzidos para qualquer idioma.

Essa classificação deverá alterar também as categorias de assuntos das empresas de pesquisa de vendas, como a BookScan e a GfK. Cada uma delas usa critérios próprios para divisão de assuntos, o que certamente dificulta a comparação de dados entre os vários países.

A atribuição dos códigos de classificação é feita pelos editores, que devem atentar para que os assuntos de cada livro sejam considerados e se tornem localizáveis pelos mecanismos de busca. E é gratuito, mesmo para as que estão em países cujas organizações profissionais não façam parte nem contribuam para o comitê de governança do THEMA.

É mais um esforço das organizações sérias de editores e livreiros para facilitar o intercâmbio internacional. Aqui ainda teremos que enfrentar vários problemas prévios, em particular que os editores e livreiros compreendam em profundidade a importância da aplicação correta de metadados em suas informações.

Mas algum dia chegaremos lá. Nem que seja pela pressão do resto do mundo, inconformado com essa balbúrdia que reina por aqui.

Por Felipe Lindoso | Publicado originalmente em PublishNews | 29/01/2014

Felipe Lindoso

Felipe Lindoso é jornalista, tradutor, editor e consultor de políticas públicas para o livro e leitura. Foi sócio da Editora Marco Zero, diretor da Câmara Brasileira do Livro e consultor do CERLALC – Centro Regional para o Livro na América Latina e Caribe, órgão da UNESCO. Publicou, em 2004, O Brasil pode ser um país de leitores? Política para a cultura, política para o livro, pela Summus Editorial. Mantêm o blogwww.oxisdoproblema.com.br

A coluna O X da questão traz reflexões sobre as peculiaridades e dificuldades da vida editorial nesse nosso país de dimensões continentais, sem bibliotecas e com uma rede de livrarias muito precária. Sob uma visão sociológica, este espaço analisa, entre outras coisas, as razões que impedem belos e substanciosos livros de chegarem às mãos dos leitores brasileiros na quantidade e preço que merecem.

O negócio de assinatura avança, e a Amazon dispara


Oyster anunciou ter levantado US$ 14 mi para expandir seu serviço

As empresas de serviços de aluguel de livros digitais estão começando a crescer e a proposta vem ganhando força, mas há muito ainda a ser definido. A Oyster, por exemplo, anunciou ter levantado US$ 14 milhões para expandir seu serviço criado há quatro meses. No entanto, os serviços se esbarram na lógica do consumo. O serviço da Oyster custa US$ 9,95 por mês (cerca de US$ 120/ano). Uma pesquisa de 2012 aponta que, entre as pessoas que leram pelo menos um livro nos 12 meses anteriores, apenas a metade tinha lido mais de seis livros. Portanto, para a maioria das pessoas seria mais barato comprar os livros separadamente. A Amazon oferece atualmente uma biblioteca de empréstimo de 350 mil títulos para seu leitor eletrônico Kindle aos assinantes da Amazon Prime. Como seu serviço de assinatura é combinado a outros serviços atraentes e como custa US$ 79 por ano, parece provável que a Amazon vai ganhar de todos em termos de preço, como de costume.

Por Joshua Brustein, Bloomberg BusinessWeek | Valor Econômico | 29/01/2014

Empresas de SC apostam em eBooks como estratégia de marketing


Objetivo é atrair clientes, parceiros e ser conhecido como referência no meio em que atua

Luis Fernando Palermo, da Talk2, acredita que o conteúdo é o maior desafio ao criar um livro eletrônico | Foto: Jessé Giotti / Agencia RBS

Luis Fernando Palermo, da Talk2, acredita que o conteúdo é o maior desafio ao criar um livro eletrônico | Foto: Jessé Giotti / Agencia RBS

Uma pesquisa realizada pelo Ibope Inteligência em 2012 indica que o Brasil conta com mais de 9,5 milhões de leitores de e-books. De olho neste mercado promissor, empresas apostam nos livros eletrônicos como ferramenta de marketing digital. O objetivo é atrair clientes, parceiros e ser conhecido como referência no meio em que atua.

Uma das empresas que embarcaram nessa onda é a Talk2, marca do DOT Digital Group. Depois de longo planejamento, a startup de Florianópolis publicou seu primeiro e-book em agosto de 2013. Desde então, foram cinco livros publicados e cerca de 4 mil donwloads.

— A internet mudou o comportamento das pessoas e a maneira como as empresas se relacionam com seu público — observa Luis Fernando Palermo, diretor de criação da Talk2.

O conteúdo, que é o maior desafio apontado por Palermo, é focado na estratégia digital, área de atuação da empresa.

O Grupo Nexxera, de Florianópolis, lançou em 2013 seu primeiro livro eletrônico sobre dicas para pagamento móvel em empresas. A diretora de marketing da empresa, Sarah Silva, explica que a primeira estratégia do grupo foi o blog com assuntos de tecnologia.

Para Eric Santos, CEO da Resultados Digitais, a utilização de e-books como estratégia de marketing digital é mais do que uma tendência.

— As empresas vão investir mais nessa estratégia ao tomarem conhecimento do impulso que a publicação representa no retorno sobre o investimento — avalia.

>>> Dicas para quem quer publicar e-book

Ter total confiança nas informações que estão sendo repassadas e checar o conteúdo com diferentes fontes para não correr o risco de divulgar dados equivocados, o que seria ruim para quem baixa o material e péssimo para a reputação da empresa.

É recomendado ter um bom revisor para evitar tropeços na língua, corrigir eventuais falta de lógica do texto ou simples erros de digitação.

Investir em uma boa apresentação. Um e-book bem diagramado, com ilustrações, gráficos e exemplos práticos desperta mais interesse.

Planejar muito bem como vai ser a promoção do material. Para extrair ao máximo os benefícios, a empresa deve planejar que canais utilizará para divulgar o lançamento e como será essa exposição.

Diário Catarinense | 29/01/2014 | 09h24