Wattpad | um planeta online de escritores e leitores


Por Octavio Kulesz | Publicado originalmente em PublishNews | 07/11/2013

Com 20 milhões de escritores e leitores de todo o mundo, o Wattpad se converteu em uma plataforma muito importante. O site é utilizado tanto por autores conhecidos quanto por escritores novatos. Os editores, por seu lado, recorrem ao Wattpad para promover seu catálogo, compartilhar conteúdos exclusivos, oferecer livros em série e até abrir concursos a fim de atrair autores. Nesta ocasião conversamos com Allen Lau [co-fundador/CEO] e Ashleigh Gardner [Diretora de Conteúdo] sobre a literatura online e seu impacto no mundo editorial.

Quando você criou o Wattpad?

Allen Lau: Comecei a realizar protótipos para uma aplicação de leitura em 2002. Trabalhava com um Nokia da série 40 [o celular mais popular daquela época] para resolver um problema que eu mesmo enfrentava: dispunha de pouco tempo e desejava levar minhas leituras no telefone, para otimizar minha agenda. O sistema funcionava bem para mim, mas qualquer tentativa de massificá-lo teria sido muito prematuro: em uma tela tão pequena só se podia ler 5 linhas de texto.

Em 2006, o dispositivo mais popular não era mais o Nokia, mas o Motorola Razr. Sua tela era bem mais ampla e suas possibilidades técnicas, muito superiores, de modo que o mercado estava pronto. Um dia, enquanto avançava com o desenvolvimento do sistema, Ivan [também co-fundador do Wattpad] manda uma mensagem para mim: “Oi Allen, estou criando um novo produto, poderia me dar sua opinião?” Conhecia Ivan há bastante tempo; ele trabalhava em outra empresa fundada por mim alguns anos antes. Depois de ler a mensagem, clico no link e adivinhem o que vejo: um programa de leitura móvel, criado para telefones celulares. Ele não só tinha construído um aplicativo móvel: também tinha colocado em marcha um website no qual os usuários podiam subir e compartilhar conteúdo de um modo simples. Estes foram os dois pilares da empresa: a dimensão móvel e o fato de que o conteúdo é gerado pelos próprios usuários. Dois dias depois peguei um avião para me reunir com Ivan em Vancouver. A gente se encontrou no aeroporto e no pátio de comidas delineamos um plano de negócios em um guardanapo… assim foi como começamos.

Qual é sua formação?

Allen: Sou engenheiro, assim como Ivan. Nossa formação se localiza então mais do lado do produto.

Ashleigh, como foi sua trajetória?

Ashleigh Gardner: Sempre trabalhei em temas de tecnologia e edição. Comecei trabalhando na área editorial, na área de marketing online. Nisso estava quando saiu o Kindle, e como ninguém na empresa se ocupava dos e-books, o tema ficou sob minha responsabilidade, de modo que aprendi muito sobre os formatos e as diferentes lojas. Depois trabalhei na Kobo, apoiando editores de todo mundo em seus desenvolvimentos digitais. Tinha escutado Allen em diversas conferências; sempre ficava fascinada com o Wattpad e com a possibilidade de que qualquer usuário escrevesse e compartilhasse histórias sem se precupar com questões de formato ou padrões. De fato, qualquer um pode ler e escrever no Wattpad, servindo-se de um celular, um tablet ou um computador. De modo que me uni à empresa e hoje colaboro com escritores e editores que querem aprender mais sobre Wattpad e seus benefícios.

Que interesse o Wattpad pode ter para os editores?

Ashleigh: Os editores internacionais deveriam aproveitar a enorme audiência de Wattpad. Mais de 20 milhões de usuários visitam o site mês a mês. Chegam ao Wattpad para ler, encontrar novas histórias, conversar com outros leitores sobre o que estão lendo: isto configura uma comunidade realmente variada que é de grande interesse para os editores. Assim, ajudamos os editores na difusão de seus autores, de modo que estes possam interagir com nossa comunidade.

Allen: Só gostaria de complementar: desses 20 milhões de visitantes, quase 70% vem de fora da América do Norte. Apesar de que nossa sede está na América do Norte, nossa audiência não está exclusivamente nessa região. Na verdade, é o oposto.

Vendo que o modelo gira em torno do aspecto móvel e do conteúdo gerado pelos usuários, pensei: “isto não é muito ocidental, não se ajusta à típica empresa do modelo Amazon”, em especial porque não surge do papel, mas foi algo radicalmente novo. Por isso considero que poderia funcionar muito bem em países que não passaram pela etapa Gutenberg. Vocês têm alguma reflexão sobre este ponto?

Allen: Sim, acho que é uma observação muito boa. Sentimos muito orgulho de ser uma empresa nativa digital. Surgimos da Internet e do móvel, mais que do impresso. Por esse motivo, todas as características que criamos, todos os serviços que oferecemos, todos os programas que realizamos com os editores, por exemplo, são concebidos em função da geração da Internet; só em uma segunda etapa são adaptados às gerações do livro impresso, e não ao contrário. Isso permite que pulemos toda uma etapa.

Com respeito ao conteúdo que os usuários sobem ao site, dispõem de cifras com referência aos idiomas mais utilizados?

Allen: Inglês é o primeiro, porque se trata do mínimo denominador comum e porque somos muito fortes em países anglofalantes [EUA, Canadá, Reino Unido, Austrália]. Depois disso, existem alguns idiomas que recebem muito tráfego: refiro-me especificamente ao tagalog [que se fala nas Filipinas], ao espanhol, ao turco, ao holandês, ao alemão, ao francês.

Como foi a experiência em países em desenvolvimento?

Allen: Posso destacar o caso das Filipinas porque viajei lá faz duas semanas. Nesse país contamos com uma base de usuários considerável. Uma em cada dez pessoas com acesso à Internet utiliza o Wattpad, o que dá uma pauta da popularidade da plataforma. Vale a pena observar que as Filipinas não constituem uma anomalia: somente menciono o caso como um exemplo mais. Estamos vendo a mesma tendência em países anglofalantes [claro], mas também em outros hispanofalantes. De modo que poderíamos replicar o que estamos fazendo nos EUA, Filipinas, Reino Unido e outros países, na América Latina, por exemplo.

Como trabalham com um modelo que não está ancorado no formato impresso, mas fazem dentro de uma indústria que certamente está, sentiram em algum momento que iam bastante contra a corrente?

Allen: Não estou convencido da contraposição entre digital e papel. Acho que ambos suportes podem coexistir muito bem. Não vou jogar fora todos meus livros impressos pelo simples fato de ter começado a ler em formato eletrônico, ou ao contrário, posso ler em papel, mas isso não significa que vou descartar o digital. Encontramos muitos usuários que leem sobre dispositivos eletrônicos, mas que, para determinados livros que querem colocar em suas bibliotecas, preferem a versão física.

Mas com relação ao conteúdo, suponho que muitos materiais do site são “nativos digitais”. Veem diferenças no modo em que estão escritos esses textos?

Ashleigh: Definitivamente. Bom, como explicava Allen, pensamos que não existe uma grande diferença entre impresso e digital, ou pelo menos não se trata de uma oposição excludente. A diferença mais interessante tem a ver com o que ocorre quando não existe um curador. Em geral, se algo é publicado, supõe-se que é porque alguém decidiu publicar. Quando essa condição é deixada de lado, surgem fenômenos fascinantes. Os textos escritos por adolescentes, por exemplo, jogam muita luz sobre o tipo de vida que os jovens de hoje vivem, e como é importante para eles a tecnologia. Em geral, este é um aspecto que se reflete menos no suporte papel.

Quais são as diferenças entre Wattpad e outras plataformas como Shanda [Cloudary] na China, por exemplo?

Allen: Suponho que uma grande diferença consiste que eles trabalham só em idioma chinês, enquanto que nós somos globais. Temos alguns textos em chinês, mas para dizer a verdade, a China constitui um mercado muito particular para as empresas de Internet. São poucas as empresas ocidentais que tiveram sucesso nesse país, por diversos motivos: da “grande muralha digital” até as diferenças culturais, passando pelo design do site ou aplicativo. Quando entramos em um website chinês, temos a impressão de ter chegado a uma discoteca: luzes e cores por todos os lados!

Para entrar no mercado chinês, é necessário contar com um produto praticamente diferenciado. De qualquer modo, deixando de lado a questão do idioma, a maneira em que Shanda monetiza os conteúdos é bastante interessante. Recorrem a diferentes modelos: até incorporam livros impressos. De fato, se converteram em editores e dispõem de um depósito de exemplares físicos. Isto é algo que tendemos a evitar; preferimos continuar como empresa nativa da Internet, o que não significa que vamos nos desligar do papel: para isso estabelecemos uma aliança com a Sourcebooks, por exemplo.

Ashleigh: Nós nos associamos com a Sourcebooks para que os autores interessados possam explorar o mercado de livros físicos, de um modo que seja proveitoso para todos. Assim, os livros que os usuários escrevem permanecem no Wattpad, ao mesmo tempo em que a Sourcebooks se ocupa de levá-los às livrarias e a novas audiências. Da mesma forma, Sourcebooks convida seus autores a usar nosso site, com o objetivo de conquistar novos públicos. Finalmente, a Sourcebooks patrocina nosso concurso de escrita.

Como vocês acham que os mercados internacionais, em especial os países em desenvolvimento, se comportarão nos próximos anos, no que diz respeito à literatura online e à edição digital?

Allen: Considero que, apesar de que os países não entraram na era digital de forma simultânea, os indicadores de tendência são iguais. Existe talvez uma defasagem de dois anos que logo vai diminuir para só um. Contudo, o ponto central não é a defasagem. A chave é a tendência: todos se comportam da mesma maneira. O que observamos no Wattpad é um padrão repetido. Alguns idiomas ou regiões podem decolar mais rápido, mas no que concerne aos mais lentos, o momento vai chegar… e está chegando. Quase todos os idiomas estão decolando. Assim, os usuários desses países [e da maior parte do planeta] poderiam encontrar conteúdo para ler no Wattpad. Nosso objetivo é poder trabalhar com editores dessas regiões do mesmo modo que estamos fazendo nos EUA e Reino Unido. Estabelecemos diversos tipos de alianças e, claro, gostaríamos de replicar este êxito em escala global.

Octavio Kulesz é o diretor da editora Teseo de Buenos Aires e da Alliance-Lab. Ele fará uma palestra naPublishers Launch Frankfurt Conference sobre o tópico de “O que você precisa saber sobre Edição Digital no Mundo em Desenvolvimento” às 13h do dia 8 de outubro, Hall 4.2, Room Dimension na Feira do Livro de Frankfurt.

Por Octavio Kulesz | Publicado originalmente em PublishNews | 07/11/2013

Octavio Kulesz

Octavio Kulesz é formado em Filosofia pela Universidade de Buenos Aires e atualmente dirige a Teseo, uma das principais editoras digitais acadêmicas da Argentina. Em 2010, criou a rede Digital Minds Network, junto com Ramy Habeeb [do Egito] e Arthur Attwell [da África do Sul], com o objetivo de estimular o surgimento de projetos eletrônicos em mercados emergentes. Em 2011, escreveu o renomado estudo La edición digital en los países en desarrollo, com apoio da Aliança Internacional de Editores Independentes e da Fundação Prince Claus.

Sua coluna Sul Digital busca apresentar um panorama dos principais avanços da edição eletrônica nos países em desenvolvimento. Tablets latino-americanos, leitura em celulares na África, revoluções de redes sociais no mundo árabe, titãs do hardware russos, softwares de última geração na Índia e colossos digitais chineses: a edição digital no Sul mostra um dinamismo tanto acelerado quanto surpreendente.

Livrarias independentes se recusam a vender Kindles


Livrarias independentes do Reino Unido e EUA reagiram com ceticismo à notícia de que a Amazon vai passar a vender e-readers em suas lojas. A Amazon revelou recentemente que planeja fazer acordos com livrarias que estocarem aparelhos Kindle, recebendo 10% de comissão nos e-books vendidos pelo e-reader durante dois anos após a venda. Outra opção seria as livrarias comprarem o aparelho com um desconto maior. Nos EUA, as editoras estão céticas. O CEO da Associação das Livrarias dos Estados Unidos Oren Teicher afirmou que, “dada as estratégias corporativas agressivas da Amazon e táticas para não pagar impostos, não vemos credibilidade alguma nesse programa”.

Por Lisa Campbell | The Bookseller | 07/11/2013

IFCE lança Biblioteca Virtual em Fortaleza


Já está disponível para a comunidade acadêmica [alunos, docentes e técnicos administrativos] do campus de Fortaleza o acesso a mais de 2300 livros virtuais, disponibilizados gratuitamente para a leitura on-line por meio da Biblioteca Virtual Universitária [BVU] do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará. A nova fonte de pesquisa complementa o acervo de livros impressos da unidade e representa um investimento anual de R$ 71.520,00, dispêndio referente à contratação do serviço.

De acordo com o diretor-geral do campus de Fortaleza, Moises Mota, a Biblioteca Virtual Universitária é mais um recurso focado no aprendizado da comunidade acadêmica e na facilitação do acesso ao acervo, cuja visualização poderá ocorrer por meio de tablet, Ipad, celular, dentre outros meios eletrônicos.

Moises Mota ressaltou a tendência atual de armazenar as informações na nuvem de dados da internet, o que, na sua visão, flexibiliza o acesso da comunidade acadêmica a novas informações. “Todos terão a oportunidade de, em casa, no trabalho, em uma viagem, onde ele estiver, acessar um bom acervo, tanto da literatura técnica e tecnológica, como da área de humanas. Ele poderá utilizar nos finais de semana ou quando ultrapassar a cota de livros na biblioteca Waldir Diogo de Siqueira”, explica.

Há títulos em mais de 40 diferentes áreas como administração, marketing, engenharia, economia, letras, história, geografia, matemática, física, computação, educação, gastronomia, turismo, entre outras, todos eles acessíveis 24 horas por dia, sete dias por semana, por meio de qualquer computador conectado à web.

Além da consulta aos textos dos livros, o usuário pode inserir anotações eletrônicas e gravar comentários em seu perfil, fazer marcações de páginas e consultar obras simultaneamente. Em consonância com o direito de propriedade intelectual, o estudante pode imprimir até 50% do conteúdo do livro, desde que compre os créditos de liberação de impressão do conteúdo, no próprio site.

A Biblioteca Virtual Universitária é a primeira biblioteca on-line com títulos universitários brasileiros em português. Os alunos e os docentes acessarão a BVU por meio do sistema acadêmico; já os técnicos administrativos deverão acessar o link http://www.fortaleza.ifce.edu.br/bvu. Mais informações pelo telefone [85] 3307-3631.

Portal Vermelho | 07/11/13