Editores na era digital


Isa Pessoa fala sobre o novo profissional do mercado

Isa Pessoa

Isa Pessoa

O mundo digital continua afetando diretamente o mercado editorial, mas, ao contrário da confusão e euforia de alguns anos atrás, algumas tendências e mudanças já estão bem demarcadas. Profissionais que entraram de cabeça nessa ‘turbulência’ saíram do outro lado com muita experiência e prontos para mais mudanças. Isa Pessoa é uma delas. Depois de 17 anos como diretora editorial da Editora Objetiva, fundou em 2012 a Foz Editora, direcionada tanto para o mercado de livros impressos quanto de digitais. Isa participa hoje, 06/11, da mesa Desafios Editorias do projeto do Múltiplos e Contemporâneos: a literatura.com, junto com Camila Cabete, a ‘Kobo woman’ no Brasil e colunista do PublishNews, às 18h30 no Centro Cultural Banco do Brasil Rio de Janeiro [Rua Primeiro de Março, 66, Centro]. Em entrevista ao PublishNews, Isa Pessoa fala sobre os novos papeis dos profissionais do mercado, os desafios da era digital e as expectativas em relação ao futuro.

PublishNews: Na sua opinião, qual é a principal mudança do papel do editor com o livro digital?

Isa Pessoa: A mudança no suporte material da leitura demanda uma nova lógica de edição. O editor vai preparar o conteúdo da publicação atento à palavra escrita, e à forma como o texto será apresentado na tela, ao conteúdo e sua forma, sempre, em quantas camadas e obedecendo a que hierarquia esse texto vai ser organizada,e qual relação esse conteúdo pode e deve ter com as imagens, estáticas ou em movimento, a serem incluídas nesse livro digital. As informações podem ser concebidas e relacionadas através de referências sucessivas, como os hiperlinks. A tecnologia potencializa o trabalho do editor, que se expande em diversas mídias: utilizá-las plenamente é um dos desafios.

PN: Hoje em dia, fala-se muito do fim do editor e do futuro dos livros ‘autopublicados’. Como você vê essa afirmação?

IP: A democratização da publicação também provoca a ruptura dos processos de curadoria editorial. O autor se auto-publica e cria também uma nova lógica de comercialização e distribuição dos seus textos. Esse autor tem mais poder, e referências recentes sobre o sucesso de alguns títulos só demonstram que autopublicação pode ser eficaz. Mas o trabalho do editor também pode ser decisivo, na qualidade final desse livro, impresso ou digital, no seu desempenho junto ao leitor e à crítica.

PN: Na sua opinião, o formato digital afetou o tipo, ou a qualidade, do conteúdo editorial?

IP: O formato digital está afetando e ainda afetará muito o conteúdo da publicação: não se pode separar forma de conteúdo. É preciso integrar o conteúdo às tecnologias disponíveis, sem subestimar, ou supervalorizar, o que essas tecnologias podem nos oferecer.

PN: Quais são os principais desafios de criar e administrar uma editora na era digital?

IP: Os profissionais que dominam essa tecnologia ainda são raros, pelo menos até onde consegui me informar a respeito – e esse é um dos obstáculos a vencer. Programadores, desenvolvedores, webdesigners: é necessário construir novos núcleos de trabalho, e também atualizar, ampliar nosso repertório de informação sobre a edição digital. Mas aí também que está a graça da coisa.

PN: No Brasil, por enquanto, o livro digital ainda não tem uma relevância no mercado. Quais são as suas expectativas em relação ao crescimento de vendas e títulos no formato e-book no futuro?

IP: O retorno no investimento em livros digitais, pelo menos nesses em que trabalhamos agora na editora Foz, não vai se dar em curto prazo. Sabemos disso. Estamos desenvolvendo modelos de negócio para comercializar os aplicativos em diversos segmentos, e também nos preparando para vendas futuras para escolas privadas e públicas.

Por Iona Teixeira Stevens | PublishNews | 06/11/2013