Na era do “compartilhar”, pra quê mesmo editor?


Por Julio Silveira | Publicado originalmente em PublishNews | 17/10/2013

Quando a internet é um grande botão de “publish”, para que precisamos de um publicador? A internet trouxe a publicação instantânea, irrestrita e sem custos. Clicar em “compartilhar” é publicar. Todo mundo pode publicar “seu” conteúdo, e a grande massa sem rosto da internet pode até selecionar e dar destaque ao que é mais interessante, através do processo de decantação das multidões conhecido como crowdsourcing. Se qualquer pessoa conectada é um editor, curador e publicador, para que precisamos de um editor? Esta angústia é o que me empurra para frente na Ímã Editorial, uma espécie de laboratório onde se investigam novos caminhos para a publicação, abertos pelo digital. Muitas vezes esses caminhos não levam a lugar algum, mas abrir novas portas é mais divertido que ficar chorando na soleira das portas emperradas.

Dois experimentos recentes no laboratório da Ímã podem ajudar a entender melhor a função de uma editora ou de um editor em projetos baseados na internet.

O primeiro foi a publicação de um blog. Não é a primeira vez que se faz isso, mas o que se pratica em geral é uma simples transposição, dos elétrons para o papel. Quase como um print-screen. Para começo de conversa, redundância: o livro torna-se uma versão paga, reduzida e limitada do que está disponível de graça para todos, e crescendo.  O grande pecado desse tipo de transição, porém, é o desperdício. Joga-se fora justamente aquilo que fez o blog ter relevância — a comunidade. As vozes dos que comentaram, intercederam, influenciaram e até “editaram” o livro são caladas. É claro que não dá (ainda) para colocar um botão no livro impresso, mas deixar a comunidade para trás é esnobar um exército de leitores, compradores e promotores do livro. A “solução” que encontramos para não perdê-los foi a Edição Social [crowdfunding + crowdsourcing]: convocamos os frequentadores do site a apoiar a publicação do livro, e os convidamos a ler e opinar sobre o texto e a capa enquanto o livro era editado. O resultado dessa operação (ainda em Beta) foram 400 exemplares pré-vendidos, e o livro divulgado pelas redes sociais de um sem fim de apoiadores e amigos dos apoiadores.

No segundo “case”, lidamos com centenas de autores e milhares de “editores”. Um projeto criado, gerado e publicado em uma rede social — o Instagram. Passar o conteúdo gerado por mais de seis mil pessoas para o papel é, de saída, humilhante. Mesmo que cada exemplar da tiragem seja folheado por dezenas de leitores (na livraria, em casa, na biblioteca, no sebo), o público do impresso será sempre uma pequena fração do público digital. Isso porque cada foto selecionada e impressa no livro foi previamente exposta a inúmeros seguidores ferrenhos e visitantes ocasionais, foi comentada e debatida (acaloradamente). Não tiveram restrições de estoque, ou tempo. Você talvez não encontre o livro na sua loja preferida (ou mesmo na sua estante atulhada), mas as fotos podem ainda ser admiradas em Bangladesh, às duas da manhã. Ou qualquer outro lugar, a qualquer hora. Basta estar conectado.

Na transformação em livro impresso tivemos, de cara, o choque de linguagens. A parte da equipe que vinha da rede queria páginas com cliques, isto é, transpor o visual e a dinâmica da rede para o impresso — incluindo a miríade de comentários, emoticons etc. Já o lado da equipe que vinha da tradição livresca queria limites: textos definitivos e regulares, sem comentários e outros penduricalhos não-literários. Nem uma coisa, nem outra. O livro não poderia ser uma emulação da internet, e nem um espelho pálido do que o projeto conseguiu. Não poderia ignorar que o projeto nasceu na rede, e tampouco poderia ser uma celebração umbilical do próprio projeto. Do embate veio o empate. O livro impresso, que ameaçava ser uma redução, acabou mostrando-se uma expansão. Expansão de público: mesmo que, comparando com a rede, alcancemenos público, alcançará mais públicos, outros públicos: livrarias, bibliotecas, pessoas desconectadas (sim, ainda tem muitas delas por aí). É também uma expansão de tempo: a internet é comprometida com o agora, seu conteúdo é transitório e transitivo; já o livro permanecerá o mesmo e durará o tempo que as traças permitirem.

A partir do que conseguimos (e do que apanhamos) em ambas experiências, percebemos que para publicar um livro com centenas de autores, dezenas de curadores em uma comunidade de milhares, dentro de uma internet de bilhões, umeditor ainda faz-se necessário. Não para restringir, reduzir ou embalsamar um organismo voraz como é uma rede social. Mas para dela fixar o instantâneo de maior harmonia, que represente melhor, e com mais força, o que ela é. Como quem prega um alfinete em uma borboleta. E a deixa voar.

Por Julio Silveira | Publicado originalmente em PublishNews | 17/10/2013

Julio Silveira é editor, formado em Administração, com extensão em Economia da Cultura. Foi cofundador da Casa da Palavra em 1996, gerente editorial da Agir/Nova Fronteira e publisher da Thomas Nelson. Desde julho de 2011, vem se dedicando à Ímã Editorial, explorando novos modelos de publicação propiciados pelo digital. Tem textos publicados em, entre outros, 10 livros que abalaram meu mundo e Paixão pelos livros[Casa da Palavra], O futuro do livro [Olhares, 2007] e LivroLivre [Ímã]. Coordena o fórum Autor 2.0, onde escritores e editores investigam as oportunidades e os riscos da publicação pós-digital.

A coluna LivroLivre aborda o impacto das novas tecnologias na indústria editorial e as novas formas de relacionamento entre seus componentes — autores, agentes, editores, livrarias e leitores. Ela é publicada quinzenalmente às quintas-feiras.

Crowdfunding literário


Como levantar grana para publicar aquele seu eBook que ainda está “na gaveta”

POR EDNEI PROCÓPIO

No século 1 antes da era cristã, Caio Cílnio Mecenas foi um influente conselheiro do imperador Augusto. Em torno de si, formou um círculo de intelectuais e poetas para a sustentação de suas produções artísticas. Mecenas criou, com seu jeito inovador de influenciar pessoas, todo um modelo de incentivo e patrocínio para outros artistas e literatos. O termo ‘mecenas’ passou a indicar uma pessoa que fomenta concretamente uma produção cultural.

Recentemente, com o advento da web, o mecenato ganhou nova roupagem e força com a obtenção de capital para iniciativas de interesse coletivo, através de múltiplas fontes de financiamento. Ações são engendradas na internet com o objetivo de, por exemplo, arrecadar verba para projetos de publicação de livros. É o chamado crowdfunding, uma ação que pode ser usada por escritores para viabilizar projetos literários por intermédio das mídias sociais.

Crowdfunding vem da junção das palavras crowd [que, traduzido para o português, quer dizer multidão] e funding [financiamento]. Financiamento coletivo talvez traduza melhor o termo, embora alguns prefiram financiamento colaborativo. O crowdfunding intensificou-se a partir de 2009, juntamente com o fortalecimento da chamada social media [cujas redes sociais são sua principal ferramenta], mas ganhou realmente massa crítica por conta da cultura de colaboração natural da própria internet.

Uma plataforma online de crowdfunding funciona como uma espécie de portifólio de ideias e projetos, que são criados por internautas que geralmente não dispõe do capital inicial para levar adiante seus empreendimentos. No caso dos projetos literários, o escritor pode optar por apresentar seu projetos de livros em uma das plataformas online de crowdfunding disponível. Após criar o projeto do livro, o autor divulga sua ideia para amigos através das redes sociais. Os internautas que se interessam pelo projeto serão, eles mesmos, os futuros leitores da obra e farão as doações que viabilizarão financeiramente a edição.

Cada projeto proposto pensa em como recompensar quem colabora. É comum, em troca da ajuda, o internauta doador esperar por algum tipo de recompensa. O autor proponente pode, por exemplo, trocar o nome de um dos personagens da obra, no caso de ficção, pelo nome do doador. O doador pode ter o seu nome impresso nas páginas iniciais do livro, nos créditos; pode receber um autógrafo personalizado do autor; pode ter acesso a exemplares numerados, e por aí vai.

Mas tudo deve ser planejado com a máxima atenção. Principalmente a planilha financeira do projeto, que deve abarcar desde os custos de produção da obra até os “mimos” para os doadores. As plataformas online de crowdfunding geralmente retém 5% do montante arrecadado. E se um determinado projeto não alcança o financiamento necessário, as plataformas de crowdfunding devolvem os valores aos doadores.

Para que uma ação de crowdfunding alcance o resultado esperado, é preciso muita projeção; é necessário que o proponente faça um pré-teste com os amigos, com seu networking. É preciso que o autor tenha a certeza de que a obra proposta é realmente seu melhor livro. Revisar a obra inúmeras vezes até ter a certeza de que ficou perfeita, é o mínimo que se pode fazer. É preciso também criar uma resenha matadora, pois é ela quem irá convencer o doador. Além disso, o autor proponente pode apelar para os vídeos, de preferência curtos que, na internet, são mais propícios a se tornarem virais.

O crowdfunding pode a princípio parecer uma moda passageira, mas segue uma tendência cultural de colaboração mútua que se estabelece sobre a internet e que já demonstrou resultados em massa. Ações colaborativas como as observadas, por exemplo, nas compras coletivas, são na verdade o efeito e não a causa de uma revolução no modo de pensar e viver em sociedade. O consumo passa a ser feito de modo sustentável e em grupo.

Hoje, existem cerca de 300 sites de crowdfunding espalhados pela grande rede mundial, dos quais pelo menos umas dez sejam importantes e influentes canais da cultura web. Por conta da intermediação financeira proporcionada por estas plataformas online, em 2011 foram arrecadados 1,5 bilhão de dólares. Existem algumas estimativas publicadas por empresas de pesquisas que até o final de 2013 sejam arrecadados mais de 3 bilhões de dólares. Atualmente no Brasil existem pelo menos 30 sites de crowdfunding, cujas ideias financiadas representaram cerca de 75% de projetos artísticos.

Treze séculos após Caio Cílnio Mecenas ter influenciado toda uma elite do império augustino, um novo jeito inovador de chamar a atenção das pessoas para um determinado projeto ressurgiu através da internet. Hoje em dia, uma produção artística pode sustentar seu próprio início através do incentivo e patrocínio de milhares de internautas e ao mesmo tempo leitores. Por acreditar no trabalho do escritor, o leitor compra a obra antes mesmo que ela seja publicada.

Se esta é ou não uma onda passageira, só o tempo dirá. Por enquanto, o financiamento coletivo pode ser a chance que muitos escritores tem de levantar capital para publicar aquele eBook guardado “na gaveta”. Ou, na maioria dos casos, guardado em um pendrive.

Quer saber mais? Então anote na sua agenda:

Palestra: Um novo modelo de mecenato para a literatura
Onde: Livros em Pauta
Quando: 19 de outubro de 2013, sábado
Horário: Das 13:00 até 15:00
Local: Faculdade Estácio Uniradial | Campus Jabaquara| Sala 104
Endereço: Avenida Jabaquara, 1.870 | Saúde