Vendas online, territorialidade e pirataria


Russ Grandinetti, Vice-Presidente de Conteúdo do Kindle, falou na conferência Publishers Launch

Fotógrafo PublishNew

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Em 2012, a conferência Publishers Launch Frankfurt, que antecede a feira de livros todos os anos, teve um foco na ‘descobertabilidade’ e na velha briga do impresso versus digital. Apesar de ainda importantes, este ano os apresentadores da conferência mostraram ter superado um pouco esses temas. Em 2013, a Publishers Launch Frankfurt deu destaque para vendas online e restrições da indústria, seja de território ou de DRM.

Comércio eletrônico

Quando o assunto é vendas online, a Amazon, hélas, mais uma vez desponta como grande mercado. Os insights de Russ Grandinetti, VP de Conteúdo do Kindle, na manhã desta terça-feira, foram portanto o grande destaque neste dia pré-FBF.

Para Grandinetti, a forma de vender livros está mudando fundamentalmente: “Uma editora que não pensa num plano de ação para seu autor que comece pelo digital está fazendo um desserviço a este autor”. Os dados confirmam a preocupação de Grandinetti. Com informações da Bowker, ele mostrou que, nos EUA, a porcentagem da venda de livros físicos e digitais pulou de 27% a 42% entre 2010 e 2012. No Reino Unido, ela passou de 26% para 37% no mesmo período.

Não existe mais a ideia de que o livro digital vai acabar com o impresso. Segundo o VP, os usuários do Kindle compram mais livros em geral, inclusive físicos. “Por muito tempo tivemos essa ideia de que esse mercado tinha um tamanho fixo”, disse Grandinetti, mostrando que as vendas de livros físicos na Amazon também subiram, mesmo depois da chegada do e-reader.

Porém, o crescimento das vendas de livros físico não é nem de perto tão acentuado quanto as dos e-books, que em alguns poucos anos superaram a dos impressos. Para Grandinetti, esse é o caminho que outros mercados seguirão também, a diferença é apenas temporal. Em um dos raros momentos em que profissionais da Amazon apresentam dados sobre tendência de vendas [ou qualquer outro tipo de informações], o VP mostrou que os dados iniciais das vendas do Kindle na Amazon, comparadas às vendas de livros físicos da loja na Alemanha e no Japão seguem o mesmo padrão que o dos EUA e Reino Unido. Ele alerta: “Não tem nada que indique que outros países não seguirão o mesmo padrão dos EUA e Reino Unido”.

Mercado global

Outra mudança fundamental é a territorialidade do mercado. As vendas da Amazon mostram que e-books em inglês vendem globalmente. Na Índia, por exemplo, elas mais que dobraram nos últimos anos.

Paralelamente, e-books estrangeiros também vendem globalmente: as vendas de livros estrangeiros na Amazon americana dobraram anualmente desde 2009. E nesse ponto Grandinetti mostrou uma sombra de autocrítica: “Nesse aspecto, acho que nosso catálogo tem muito a crescer ainda”. 77% dos e-books em espanhol estão disponíveis na loja americana, mas apenas 51% dos títulos em alemão, 25% dos italianos e apenas 5% dos títulos em francês estão lá também.

A questão da territorialidade foi enfatizada no painel seguinte, onde Rebecca Smart, CEO do grupo Osprey, enfatizou que, apesar de ser ainda pequena, todos os direitos da sua editora são globais, e comenta o atraso ainda das editoras nesse aspecto: “A indústria ainda é muito ligada na abordagem territorial”.

Concorrência

Assim como falou no Brasil, em sua visita à Bienal de São Paulo do ano passado, Grandinetti voltou a enfatizar que a concorrência do livro digital é outra. “Os consumidores não estão comparando livros. Eles estão comparando formas de entretenimento”. O livro entrou no hall dos games e aplicativos, filmes e televisão. E como ajudar o livro a se manter na jogada? “É sexta a noite, daqui a duas horas você vai dormir e está procurando um entretenimento. Você tem a opção entre Angry Birds e esse livro”, falou Grandinetti, mostrando um slide de um e-book da Amazon que custava US$16. “Eu acho que nesse caso a pessoa escolheria Angry Birds”.

Pirataria

Para Russ, ter o livro no formato digital a um preço que o consumidor queira pagar é, além de evitar perdas de vendas, uma maneira de lidar com a pirataria. Pode parecer contraintuitivo, mas seu argumento é reforçado pelos dados sobre e-books. Dos mil autores mais vendidos e em estoque, a porcentagem daqueles que possuem pelo menos um título no Kindle é de 98% nos EUA. Para o Reino Unido esse número é de 95%, seguido da Alemanha, com 89%. Seguem França [71%], Japão [64%], Itália [53%] e, por último, Espanha. Não é à toa, para Grandinetti, que na Espanha, onde apenas 46% dos mil autores mais vendidos tem pelo menos um livro no Kindle, o país esteja enfrentando problemas de pirataria.

Outro participante que concordou com Grandinetti é o novo CEO da HarperCollins, Charlie Redmayne. No ano passado ele participou da Publishers Launch como CEO da Pottermore e este ano voltou para falar sobre os novos desafios da HarperCollins. Redmayne contou que, da sua experiência com a Pottermore, “aprendemos que tirar o DRM dos livros não aumenta a pirataria; é não disponibilizar o livro a um preço que o consumidor queira pagar que aumenta a pirataria”.

Por Iona Teixeira Stevens | PublishNews | 08/10/2013