TEDx: escola de SP receberá evento para debater tecnologia e educação


Não adianta usar o tablet para um ditado”, diz Rubem Saldanha. A frase resume o pensamento do gerente de educação da Intel Brasil e um dos palestrantes do TEDx Dante Alighieri School, que irá ocorrer em 25 de outubro, às 15 horas, na sede do colégio paulista. Saldanha trabalha com jovens cientistas estimulando a produção de conhecimento e é defensor da inovação e da inclusão de novas tecnologias ao currículo escolar, mas é crítico: segundo ele, não há resultados eficazes sem um processo pedagógico bem delineado. Ou seja, não basta colocar um tablet ou computador na sala de aula, é preciso planejar o uso desses dispositivos e explorar suas potencialidades.

Você pode falar em tablet, ou no que for, mas a questão mais importante é: qual o planejamento que o professor tem para utilizar a nova tecnologia?”, comenta. Ele cita exemplos interessantes, como o de um projeto desenvolvido entre duas turmas de oitavas séries de estados diferentes do Brasil, no qual as professoras sugeriram a leitura de um livro que falava sobre a vida de Santos Dumont. A partir daí, uma série de atividades foi desenvolvida entre as turmas: discussão via web, criação de um blog de escrita coletiva, visita de uma das turmas ao interior de Minas Gerais para conhecer o local onde nasceu o aviador, conexão via web com uma terceira turma, parisiense, que foi conhecer o campo francês onde Dumont tentou alçar voo. “A internet permitiu aos alunos estar onde não podiam, mas havia todo um projeto pedagógico dos professores por trás, que envolveu geografia, história, português e inglês para se comunicar”, diz Saldanha.

Sobre a capacitação dos professores para atuar com as novas tecnologias, o especialista acredita que o país já avançou, mas vê ainda muito o que melhorar. Segundo ele, fundamental é a capacitação dos professores estar vinculada a um plano de carreira, e cita que, no estado de São Paulo, isso já ocorre.

Bom exemplo em Indaiatuba

A cidade do interior paulista é o primeiro exemplo destacado pelo especialista em relação a projetos voltados à inserção de tecnologia. Ele ressalta que a continuidade é a chave do sucesso. “A pessoa que comanda a área de tecnologia [de Indaiatuba] é a mesma há 10 anos. Eu poderia te dar também o exemplo de Araucária, na grande Curitiba, mas que hoje já não é um trabalho tão perfeito porque não houve continuidade do programa”, diz. Ele explica mais sobre o sucesso do projeto paulista: um computador por aluno, mas com professores capacitados, planejamento de compra de tecnologias e avaliação dos resultados.

Aliás, a avaliação dos resultados é outro elemento destacado por Saldanha: “Tem de saber onde se chegou e onde se quer chegar, e temos de entender que o fato de processos falharem não significa que o modelo é falido”, comenta.

Atuando com jovens cientistas no seu dia a dia, Saldanha estimula-os à inovação porque acredita que ela seja o motor propulsor da economia. “Se uma pessoa não tem a capacidade de criar coisas novas, ela vai entrar na escola, universidade, se formar e procurar um emprego: é um dos milhões de ‘consumidores de emprego’. Agora, se você inova, busca soluções para os problemas locais, o passo seguinte é criar uma empresa para comercializar o que você criou. A partir desse momento, você passa a procurar gente para ser seu colaborador. Você deixa de ser uma porquinha na roda da economia para ser o motor propulsor dela”, explica.

TEDx

O TEDx é um evento no formato das famosas conferências Technology, Entertainment, Design [TED, na sigla em inglês]. Como o evento internacional, é uma conferência de 18 minutos, no máximo, em que os palestrantes são convidados a fazer a melhor palestra das suas vidas; a diferença é o caráter local, organizado de forma independente, mas tendo de seguir as normas do TED internacional.

Valdenice Minatel, coordenadora do departamento de tecnologia educacional do Colégio Dante Alighieri, explica que a ideia foi acalentada desde o ano passado. As inscrições ainda estão abertas, mas, segundo ela, deverão encerrar-se em final de setembro. O público máximo das palestras será de cem pessoas, devido à exigência do TEDx por ser uma primeira edição. Além de Rubem Saldanha, o seleto público poderá acompanhar a palestra de Iberê Thenório, criador do site de curiosidades Manual do Mundo, uma das mais esperadas pelos alunos segundo Valdenice, entre outras personalidades.

Publicado originalmente em Terra | 23/09/13

Aprendendo com o futuro dos livros


POR EDNEI PROCÓPIO

Figure CLXXXVIII in Le diverse et artificiose machine del Capitano Agostino Ramelli, an illustration of a bookwheel

Conforme venho prometendo neste blog há algum tempo, meu próximo livro, o terceiro sobre eBooks, será finalmente publicado. Já se encontra no prelo da Editora do Sesi e, se tudo continuar correndo bem, será lançado simultaneamente nos formatos digital e impresso durante a próxima edição da Fliporto.

Iniciei a escrita do livro no segundo semestre de 2012, exatamente no ano em que o Data Discman, o primeiro projeto relevante da empresa Sony Corporation na área de livros eletrônicos, completava duas décadas de vida. Uma vez, porém, que minhas pesquisas ainda careciam de algumas constatações, só consegui terminar o texto depois da última edição do Congresso Internacional CBL do Livro Digital.

É impressionante perceber que, quanto mais avançam as tecnologias que envolvem eBooks, em menor espaço de tempo as novidades são colocadas à prova pelo mercado. Levei, portanto, um ano para escrever e terminar o livro, e em apenas um ano muita coisa aconteceu. Imaginemos então tudo o que foi apresentado no período de duas décadas, onde o livro eletrônico saltou de um estrondoso fracasso comercial para uma nova e empolgante possibilidade de experiência para a leitura.

Insisto nesta mania de olhar para trás quando escrevo sobre eBooks porque o distanciamento me parece um dos poucos modos seguros de vislumbrar um futuro para os livros. Em 2002, por exemplo, as empresas desenvolvedoras dos e-readers da primeira geração Rocket eBook e SoftBook, respectivamente NuvoMedia e SoftBook Press, foram entregues a Gemstar, uma subsidiária da RCA que, por sua vez, vendera os dois projetos para a Google em 2012.

Mas e em 1992, qual era o cenário?

Mesmo com a atual velocidade com que aparecem as novidades tecnológicas, e antigas certezas são postas à prova, não consideraria como um caminho saudável transformar meu novo livro em um periódico. Ou seja, não consideraria transformar minha obra em uma edição corrente, atualizada constantemente como se fosse um jornal ou revista [mesmo em uma versão digital]. Não vejo como encarar um determinado título como algo realmente inacabado, que deve estar sempre sendo reescrito, em constante atualização como se fosse um blog. Preferi, ao contrário, contestar o presente, analisar o passado, para vislumbrar um futuro.

Descobri isto quando recebi a última revisão do texto original, que me alertava para o fato de que os números apresentados em meu livro já poderiam ser considerados defasados. A revisão me pôs em alerta. Como é que um determinado dado, registrado para futuras consultas, pode ser considerado defasado antes mesmo de ser publicado? Tive que deixar ainda mais claro para os futuros leitores da obra que, os números de mercado, apresentados no livro, refletiam um momento, um cenário, uma fotografia, enfim, um recorte de um período em que o mercado de eBooks parecia expandir-se por um novo caminho. Um caminho bem diferente daquele imaginado pela Sony duas décadas antes.

No início da década de 1990, a internet ainda era um projeto acadêmico e não havia se transformado no meio extraordinário de comunicação e exploração comercial como ela é hoje. A Sony lançava no mercado norte-americano, um dispositivo para a leitura de livro eletrônico chamado Data Discman. Uma espécie de percursor da primeira geração de e-readers que viria a seguir.

Por rodar livros em cima de uma mídia física, ou seja, pré-gravados em discos [protegidos como os antigos disquetes], o dispositivo fora desenvolvido totalmente para leitura no modo offline e o conteúdo podia ser pesquisado através de um teclado do tipo QWERTY [também físico, bastante parecido com o dos BlackBerrys].

Há duas décadas, Sony lançava seu primeiro Electronic Book Player. Foto: Sony Data Discman modelo DD-1EX]

Há duas décadas, Sony lançava seu primeiro Electronic Book Player. Foto: modelo DD-1EX

De certo modo, o Data Discman era uma tentativa da Sony de repetir o sucesso do Walkman, dessa vez com livros. Mas ao contrário de seu predecessor, que tocava áudio que poderia ser encontrado aos montes em lojas especializadas [fora as fitas do tipo K7 que se tornaram bastante populares e podiam ser gravadas pelos próprios usuários], o Data Discman carecia de conteúdo.

Um Data Discman modelo padrão, como o DD-1EX, tinha uma tela de LCD de baixa resolução e em escala de cinza, como nos primeiros Palmtops, com baixo poder de processamento. Ao contrário dos Palms, trazia um drive de CD com a tecnologia e o padrão proprietários, que rodava enciclopédias, dicionários, além das obras literárias. Que não eram facilmente encontrados em livrarias, nem nos melhores magazines do ramo.

Como era de se esperar, o Data Discman teve pouco sucesso, principalmente fora do Japão [país sede da Sony]. Em vez disso, agendas eletrônicas do tipo Palm foram os dispositivos que ganharam popularidade e conquistaram o consumidor. Um pouco mais tarde, o Palm Reader foi a solução de aplicativo para a leitura dos livros nos devices portáteis daquele período que avançou até o lançamento do Sony Libriè para o mercado japonês.

Nada se cria, tudo se compartilha

Sony Data_Discman | Electronic Book Player modelo DD-8

Sony Data_Discman | Electronic Book Player modelo DD-8

Há semelhanças entre o Data Discman e o Palm. Há semelhanças entre o Palm e o BlackBerry. Há semelhanças entre o Rocket eBook e o Sony Reader lançado em 2005 no mercado americano. Mas o que geralmente é enxergado são apenas as diferenças entre esses equipamentos todos desenvolvidos dentro de um período que vai de 1990 a 2010.

A internet mudou muito desde aquelas duas décadas e, parte do conteúdo que existia naquela chamada web 1.0, de meados da década de 1990, praticamente já não existe mais. Se algum pesquisador buscar até os números referentes ao período que antecede o lançamento do Kindle, que inaugura a segunda geração de e-readers, terá que vasculhar bastante para encontrar alguma análise relevante.

É neste sentido que, nos meus dois primeiros livros, tentei contextualizar ao máximo os dados do mercado e cenários apresentados. Penso em um contexto futuro, usando históricos e cases de sucesso ou fracasso do passado para ampliar a visão do presente. E agora tento fazer isto novamente com minha nova obra porque eu sei que alguns pesquisadores precisarão de informações, analisadas e comentadas, para eventualmente até usar de comparação em seus trabalhos.

Por exemplo, algum profissional poderá futuramente se perguntar que porcentual representava a venda de eBooks no Brasil, em comparação com o mercado de livros impressos, quando big players como Kobo, Google e Amazon aportaram no país. Se ele fizer uma comparação com dados em um mesmo nível de apuração, usando os mesmos critérios de levantamento, poderá obter o percentual de crescimento mais próximo da realidade até o seu próprio período [mesmo que alguns players continuem ocasionalmente tentando manipular os números como tentam fazer hoje].

Agora, se a internet continuar impondo seu ritmo avassalador de criação, armazenamento e compartilhamento de informações, esta tarefa de pesquisa pode se tornar cada vez mais difícil de ser realizada. E obras contemporâneas, que mais do que registrar um período, contextualiza os números e cenários, pode ajudar profissionais a compreender o passado mas, principalmente, o futuro dos livros.

Foi assim que, por conta da velocidade com que novidades surgem, em formato de projetos, startups, apps, produtos, softwares, hardwares, plataformas, etc., fui obrigado a voltar ao básico neste meu novo livro. Procurei encontrar semelhanças entre as coisas aparentemente diferentes, e diferenças naquelas que nos são aparentemente semelhantes.

POR EDNEI PROCÓPIO