Para o escritor Scott Turow, Google e Amazon representam ‘a lenta morte do autor americano’


O best-seller e advogado é o principal convidado da Pauliceia Literária, evento que será realizado em São Paulo entre os dias 19 e 22 de setembro

Scott Turow. O autor já vendeu milhões de cópias no mundo com romances como “Acima de qualquer suspeita” (1987), “O ônus da prova” (1990) e “O inocente” (2010) M. Spencer Green / Agência O Globo

Scott Turow. O autor já vendeu milhões de cópias no mundo com romances como “Acima de qualquer suspeita” (1987), “O ônus da prova” (1990) e “O inocente” (2010) M. Spencer Green / Agência O Globo

RIO | Seus livros falam de mortes, acusações, desconfianças e de toda uma elaborada disputa jurídica. Neles, já foram descritos estupros, suicídios e assassinatos, sempre com detalhes de quem conhece bem tanto a arte da narrativa quanto a aridez das histórias policiais. Mas o assunto que ultimamente mais tem tomado o tempo do escritor e advogado americano Scott Turow é diferente das tramas de seus romances. Trata-se de um crime, sim, mas um em que é mais difícil encontrar provas e identificar culpados. É o que Turow chama de “A lenta morte do autor americano”.

Os suspeitos, apontados por ele num artigo que publicou em abril no jornal “The New York Times”, sobre os efeitos da era digital para os escritores, são Google, Amazon, a pirataria na internet e até as grandes editoras. Desde então, o assunto vem sendo motivo de debate para esse americano de 64 anos. E certamente será um dos temas abordados por ele na Pauliceia Literária, evento que será realizado em São Paulo entre os dias 19 e 22 de setembro e do qual Turow é o principal convidado — ele fala no dia 20, às 19h, na Associação dos Advogados de São Paulo, com mediação de Arthur Dapieve, colunista do GLOBO.

— Eu costumo chamar a Amazon de “O Darth Vader do mundo literário”. Com uma política pesada de descontos e até pagando aos editores um valor mais alto do que o valor de venda dos livros, a Amazon está forçando a saída de seus competidores do negócio — afirma Turow, em entrevista por telefone ao GLOBO, ao exemplificar seus confrontos com algumas práticas do mercado digital. — As livrarias estão fechando, e as que tentam se arriscar nos e-books não conseguem. Para mim, seria natural alguém querer comprar e-books indo até uma livraria, plugando seu celular ou tablet num cabo e escolhendo o seu livro. Mas algo assim não acontece por causa da pressão que a Amazon faz no mercado.

Processo contra o Google

Não à toa, Turow foi eleito em 2010 para a presidência do Sindicato Americano de Autores, o que é extremamente simbólico para um momento de discussão sobre os direitos na internet e os contratos para e-books. Turow não é apenas responsável por celebrados romances jurídicos, como “Acima de qualquer suspeita” (1987) e “O ônus da prova” (1990), ambos publicados no Brasil pela editora Record, mas é também um advogado atuante, sócio de um grande escritório de Chicago. É, portanto, a figura perfeita para dar voz às preocupações de um sindicato que em 2005 entrou com um processo contra o Google para impedir o Library Project, por meio do qual a empresa pretende digitalizar todos os livros do planeta.

— A ação do Sindicato contra o Google parece interminável, o caso já tem oito anos. Quase chegamos a um acordo em certo momento, mas o juiz o rejeitou. Espero que haja um novo julgamento até o fim deste mês. Mas há outros problemas com o Google e outros buscadores. Você encontra neles o caminho para livros piratas, com uma série de links publicitários ao lado. O Google leva o usuário para baixar todos os meus livros ilegalmente e ainda lucra com isso — diz.

No artigo do “New York Times”, Turow disse que “o valor dos direitos autorais está sendo rapidamente depreciado”. Segundo ele, as mudanças no mercado afetariam sobretudo os autores médios, por conta da política das grandes editoras americanas de fixar um limite de 25% no pagamento de royalties aos autores, apesar de o custo com o livro digital ser, em teoria, menor. O autor lembra, ainda, que a Divisão Antitruste do Departamento de Justiça dos EUA entrou com uma ação contras as editoras e contra a Apple por fixarem preços para os e-books.

A Apple foi considerada culpada em julho, e, há uma semana, a Justiça americana determinou que a empresa altere seus contratos com as editoras e seja acompanhada por um auditor externo durante dois anos. Mas a Apple vai apelar.

— Não gostei da decisão da Justiça contra a Apple, acho que ela serviu para favorecer a Amazon — diz Turow. — O que as editoras e a Apple fizeram foi criar uma nova estrutura de preços, que realmente tornou os livros mais caros, mas elas fizeram isso para barrar a política de monopólio da Amazon, que vende os livros baratos artificialmente para tirar os concorrentes do mercado. Quando você vê livrarias que não a Amazon perdendo dinheiro ao vender e-books, é sinal de que existe alguma distorção, e essa distorção não foi criada pela Apple.

Novo romance sai este ano nos EUA

Em paralelo às lutas do sindicato, Turow ainda encontra tempo para advogar e escrever. O caso mais recente em que atuou, ele explica, foi como consultor num processo contra um político eleito que nomeou para um cargo público sua empregada doméstica. Mas há algo novo a caminho, bem mais interessante para seus leitores: já está em pré-venda em lojas como a Amazon (ops!) seu 12º livro, chamado “Identical”. A previsão de lançamento no Brasil, também pela Record, é para o ano que vem, e seu título provisório em português é “Idênticos”.

— O livro se passa em 2008 e vai tratar de dois gêmeos idênticos. Um, Paul, está prestes a concorrer a prefeito, enquanto o outro, Cass, será solto da prisão depois de 25 anos de condenação por assassinar sua namorada. A partir daí levanta-se a suspeita de que Paul também pode ter tido algum envolvimento no crime — explica Turow.

Antes, o último livro lançado por Turow foi “O inocente”, em 2010, uma sequência para “Acima de qualquer suspeita”, sua obra mais conhecida e que foi parar nos cinemas em 1990 sob a direção de Alan J. Pakula, com Harrison Ford como protagonista. Nele, assim como em seus outros romances, “Identical” inclusive, a trama se passa no fictício Condado de Kindle, o universo criado por Turow para desenvolver histórias que misturam densos casos judiciais com as relações pessoais de seus personagens. Tudo inspirado na realidade de um advogado que Turow conhece tão bem.

— Sempre me senti dividido entre o direito e a literatura, mas eu não sou esquizofrênico. Escritores e advogados têm muito em comum — diz. — Eu pratico direito criminal, e os clientes que me procuram podem ser divididos em duas categorias. A primeira é a de inocentes; e a segunda, maior, é de pessoas que fizeram algo errado e estão com medo de serem pegas. O meu trabalho como advogado, então, é parecido com o meu de romancista: tentar entender as motivações de um cliente ou de um personagem.

Por André Miranda | O Globo | 11/09/2013 | © 1996 – 2013. Todos direitos reservados a Infoglobo Comunicação e Participações S.A.

Financiamento para a edição de livros digitais


Iniciativa da Fundação Editora Unesp é voltada à disseminação digital da produção acadêmica

Fundação Editora UnespA Pró-Reitoria de Extensão Universitária [Proex] e a Fundação Editora Unesp [FEU] acabam de publicar o Edital do Programa de Publicações Digitais Coleção Extensão Universitária. A iniciativa é voltada à disseminação digital da produção acadêmica na extensão universitária desenvolvida pelos docentes e pesquisadores em conjunto com graduandos, pós-graduandos, pós-graduados, funcionários técnicos administrativos da Unesp e comunidade externa. Será financiada a edição de livros sob o selo Cultura Acadêmica da FEU no período 2013/2014. A edição será concretizada em formato digital, nos moldes creative commons e será disponibilizada on-line na página do Selo Cultura Acadêmica da FEU. Os textos indicados serão submetidos ao processo de análise em conformidade com as áreas temáticas da Extensão Universitária, que podem ser conferidas clicando aqui. Acesse o edital completo.

PublishNews | 11/09/2013

Davi e Golias do eBook


Por Greg Bateman | Publicado originalmente em Publishnews| 11/09/2013

Em surdina, por causa da animação da Bienal na semana passada, os primeiros tiros de uma nova batalha foram lançados. Davi e Golias começaram a batalha pelo futuro do e-book.

Davi

Uma start-up americana financiada por investidores chamada Oyster lançou recentemente um serviço do tipo “Netflix para livros”. Já falei sobre esse conceito antes e testei pessoalmente várias plataformas – da Nuvem de Livros ao Kindle Owners’ Lending Library. Acho que a Oyster tem os aparatos necessários para fazer o modelo dar certo: primeiro, uma biblioteca sólida com mais de 100 mil títulos do catálogo da HarperCollins e bestsellers como O Senhor dos Anéis; segundo, uma interface muito bem desenhada – o tipo de experiência que poderia atrair não leitores a se juntar à revolução do e-book [apesar de estar disponível apenas para o iPhone por enquanto]. O preço mensal é razoável, US$ 9,95 por mês, praticamente o mesmo de uma assinatura do Spotify [de música] e Netflix.

Golias

Sempre se reinventando, a Amazon lançou o Matchbook, um programa que tem o potencial de acelerar as vendas de livros impressos e digitais. A ideia é simples: para qualquer livro impresso incluído no programa comprado nos últimos 18 [!] anos, o leitor pode pagar mais $1, $2 ou $3 pela versão em e-book. Como isso ajuda as vendas de livros impressos? Bem, os leitores podem comprar um livro impresso sabendo que o conteúdo adquirido estará “a prova do futuro” e universalmente acessível na nuvem. Para leitores que já possuem bibliotecas de papel, pode ser um caminho para a digitalização completa do acervo pessoal por uma fração do custo dos originais impressos.

Mas, na verdade, Davi e Golias estão se juntando para lutar contra um inimigo comum da indústria editorial: a pirataria. Com acesso barato e universal a catálogos de e-books, o incentivo de fotocopiar ou baixar cópias ilícitas tende a zero.

O que vocês acham desses programas? Os preços são acessíveis para o público brasileiro? Adoraria ouvir suas opiniões:greg@hondana.com.br

Greg Bateman

Greg Bateman

Por Greg Bateman | Publicado originalmente em Publishnews| 11/09/2013

Greg Bateman, expert em tecnologia e empreendedor do negócio de e-books, é conhecido pelo seu envolvimento na criação de produtos extremamente bem-sucedidos, como os smartphones da Samsung e o Kindle, da Amazon. Na Vook, ele desenvolveu uma eficiente cadeia de produção de centenas de e-books por semana. Greg, que nasceu nos Estados Unidos, viveu nove anos no exterior, onde intermediou várias parcerias envolvendo Coreia, China, Japão e EUA. Hoje mora no Brasil, em São Paulo. Ele é pesquisador visitante da Universidade de Tóquio, tem duas graduações pela Universidade da Califórnia em Berkeley [engenharia elétrica/ciência da computação e literatura japonesa] e um MBA pela Columbia Business School.

A coluna E-Gringo discute a fundo o negócio e o lado técnico dos e-books a partir de uma perspectiva global. Às quartas-feiras, quinzenalmente, ela vai apresentar plataformas e tendências do mundo todo e, claro, do Brasil. Para enviar comentários, escreva para greg@hondana.com.br .

Run-n-read facilita a leitura na hora de correr na esteira


Correr em uma esteira não é das atividades mais divertidas, convenhamos. Para ajudar a passar o tempo, as pessoas apelam para as diversas ações: ouvir música, ver TV e até ler. Este último caso, no entanto, não é das tarefas mais fáceis – a cabeça balança, o que impossibilita a leitura. Mas um curioso acessório chamado Run-n-Read (correr e ler, em tradução livre) promete resolver esse problema da vida moderna.

Preso à gola da camiseta ou a uma “headband” (faixa de cabeça), o pequeno dispositivo interage diretamente com a tela de um tablet. Conforme a cabeça e os ombros da pessoa se movem na corrida, o texto exibido se movimenta no mesmo ritmo, o que, na teoria, torna a atividade de ler enquanto corre bem mais fácil. O vídeo de explicação liberado pela Weartrons, empresa responsável pelo projeto, explica melhor a proposta, mesmo que em inglês.

Além de azul, o pequeno aparelho estará disponível em outras três cores. Ele deve ser preso na gola da camiseta ou em uma headband (faixa de cabeça). Foto: Reprodução

Além de azul, o pequeno aparelho estará disponível em outras três cores. Ele deve ser preso na gola da camiseta ou em uma headband (faixa de cabeça). Foto: Reprodução

A ideia é que o Run-n-Read se ligue aos dispositivos móveis com a ajuda de um aplicativo e-reader, que teria versões gratuitas para Android 4.3 e iOS. O texto se mantém sincronizado com a pessoa, e os “algoritmos inteligentes” do aparelho usam uma taxa de atualização de tela de 60 quadros por segundo para garantir que a tela vai “acompanhar” sua visão. Dessa forma, a não ser que você esteja muito rápido na esteira, nenhuma vertigem deve ser sentida.

O Run-n-Read em si será bem simples, e além dos sensores, terá uma bateria que promete 20 horas de uso contínuo. Por ele também que serão passadas as páginas no app – um toque avança e dois fazem voltar. Aliás, entre outras funções, o dispositivo servirá como um contador de passos e de calorias, se baseando na altura e no peso da pessoa para tentar garantir a precisão. Assim, mesmo que você prefira um livro em áudio, o gadget não deixará de ter utilidade.

Por ora, o Run-n-Read existe apenas como protótipo, mas quem quiser, já pode comprá-lo com antecedência por 55 dólares no site oficial. Os responsáveis pela ideia têm parceria com a Dragon Innovation, uma empresa que ajuda a financiar projetos assim. Mais de 150 pessoas estavam dando suporte ao acessório até o momento, e a meta de 30.000 dólares já passava dos 10.000, restando 24 dias para a data limite. Ou seja, é de se esperar que o aparelho realmente chegue ao mercado em janeiro de 2014.

Por Gustavo Gusmão | Publicado originalmente em INFO | 11 de setembro de 2013, às 15:59