Estimada em 0,29 por cento a participação de eBooks no mercado brasileiro em 2012


Por Por Carlo Carrenho | Publicado originalmente e clipado à partir de Tipos Digitais | 01/08/2013

A pesquisa Produção e Vendas do Setor Editorial Brasileiro referente a 2012 e divulgada esta semana pela Câmara Brasileira do Livro e Sindicato Nacional dos Editores de Livros traz dados interessantes sobre o incipiente mercado do livro digital brasileiro no ano passado. É a segunda vez que a pesquisa coleta dados do mercado de eBooks, mas em 2011 o mercado era tão infinitesimal que os números não diziam muita coisa. Além disso, nesta nova pesquisa, mais dados foram coletados como, por exemplo, o número de e-books vendidos.

[Para saber mais sobre o desempenho dos livros físico no mercado brasileiro em 2012, leia as matérias “Indústria editorial tem pior queda de faturamento desde 2002” e “Segmento de Obras Gerais apresenta crescimento real em 2012” noPublishNews.]

Mas vamos aos dados. Segundo o estudo, as 197 editoras pesquisadas pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas [FIPE] faturaram R$ 3,85 milhões em vendas de e-books e aplicativos de conteúdo em 2012. Em número de “exemplares” vendidos, a pesquisa aponta que foram vendidos 235.315 unidades. Antes de continuarmos, uma ressalva: como não há séries histórica dos livros digitais, os pesquisadores da FIPE não se aventuraram a extrapolar a amostra e inferir números relativos ao universo, i.e. ao mercado inteiro, como fazem com os dados de livros físicos. Portanto, estes números são exatamente o que foi apurado na amostra.

Abaixo os gráficos de faturamento e unidades vendidas com as divisões por subsetor da indústria:

Número de exemplares vendidos

Número de exemplares vendidos

Faturamento

Faturamento

Se comparado com os números de 2011, o crescimento do faturamento foi de 343,44%, uma vez que a pesquisa apontou um faturamento de R$ 868 mil em 2011. Na prática, este número pouco significa, pois o mercado era tão ínfimo em 2011 e a pesquisa digital tão nova, que os números deste ano devem ser vistos sempre com um certo ceticismo, apesar do esforço da FIPE.

A primeira coisa que quis fazer ao receber a pesquisa foi comparar seus achados com a estimativa que fiz no post “E-books responderão por 2,63% do mercado em 2013” para o mercado em 2012. Chamar de estimativa talvez seja até um exagero, pois eu tinha pouquíssimos dados. Eram apenas declarações de um dos diretores da distribuidora DLD publicadas em O Estado de S.Paulo pela competente jornalista Maria Fernanda Rodrigues. Ainda assim, arrisquei calcular uma curva de crescimento e apontar que no ano passado as vendas de unidades de e-books ficaram em 632.546 e equivaleram a 0,47% das vendas de livros nos setores de CTP e Obras Gerais [Trade]. Na época, optei por considerar a soma destes dois segmentos como base e tive que usar os números de 2011 para estimar seu tamanho, pois os dados de 2012 não estavam disponíveis. “No caso do mercado digital, não faria sentido considerar nem didáticos e nem religiosos, cuja participação ainda é irrelevante. Já CTP é um setor que já começa a encontrar representatividade, até porque a Editora Saraiva possui o maior catálogo digital no Brasil”, explico no post.

E como fica este número se utilizarmos os dados da pesquisa CBL/SNEL de 2012? O total de e-books vendidos dos segmentos CTP e Obras Gerais pelas 197 editoras pesquisadas em 2012 foi  179.375. E o total de exemplares físicos vendidos pelo setor foi de 144.400.213. O problema é que não podemos comparar o total físico, extrapolado, com o total digital, que é apenas uma amostra. Não existe nenhuma saída muito digna aqui. A solução menos pior seria utilizar a participação da amostra da pesquisa no universo de livros físicos para se inferir o mercado. Tal participação é de 54% e o resultado inferido seria de 332.176 exemplares. Tal número de exemplares vendidos significaria então uma participação digital de 0,23% em 2012.

Acredito que este número esteja de fato mais próximo da realidade de 2012. E digo isso baseado em outros números aos quais tive acesso ao longo do ano depois de publicar aquele post em janeiro. Basicamente, ao calcular a curva de vendas, limitado pelos poucos dados à disposição, eu considerei um crescimento mais constante ao longo dos meses, quando na verdade o crescimento de vendas deu grandes saltos em outubro [com a entrada da Apple no mercado] e em dezembro [com a entrada de Kobo, Amazon e Google], fazendo com que a curva ficasse em uma posição inferior e que a quantidade vendida em 2012 fosse quase 50% menor.

Aqui está a curva original, calculada em janeiro de 2012:

Vendas de e-books no Brasil

Vendas de e-books no Brasil

E aqui está uma curva reajustada e mais compatível com os dados da CBL e com números aos quais tive acesso recentemente:

Resta saber como fica então minha previsão de que terminamos 2013 com 2,63% de participação dos e-books no total dos livros vendidos nos segmentos de CTP e Obras Gerais. E apesar deste reajuste que tive que fazer para 2012, os dados que tenho tido acesso ao longo dos últimos meses têm confirmado minha previsão e não há razão para rever este número por enquanto. Continuo apostando que terminamos o ano com mais de 3 milhões de e-books vendidos. E, sim, isto é quase 10 vezes mais que as vendas do ano passado.

No exterior, as estatísticas publicadas de participação do mercado do digital via de regra se referem ao faturamento – não unidades vendidas – do segmento de obras gerais [trade]. E os números da CBL/SNEL deste ano permitem um cálculo com as mesmas premissas. Segundo o estudo, as 197 editoras pesquisadas faturaram R$ 1,8 milhão em e-books no ano passado no segmento de Obras Gerais. Se usarmos a relação amostra/universo para inferirmos o mercado total [e eu sei que estou usando uma bela licença poético-estatística aqui; sorry FIPE] chegamos a uma venda de R$ 3,35 milhões, o que equivaleria a 0,29% do faturamento total do segmento de Obras Gerais. Algo ainda muito longe das participações acima de 25% nos EUA e por volta de 12% no Reino Unido.

Mas vale lembrar que a brincadeira por aqui só começou de verdade em outubro, quando a Apple começou a vender livros digitais brasileiros, e só ganhou força máxima no Dia D, 5 de dezembro de 2012, quando Amazon, Google e Kobo chegaram juntas ao Brasil.

Finalmente, uma última observação. O preço médio do livro digital de Obras Gerais em 2012 foi de R$ 13,90, em valores recebidos pelas editoras. No mercado físico, sem vendas para o governo, o preço médio foi de R$ 8,94. Se considerarmos descontos médios praticados pelas editoras de 50% no físico e 40% no digital, podemos inferir que os preços médios de capa digitais e físicos ao consumidor sejam, respectivamente, R$ 23,17 e R$ 17,88. Ainda que os valores de preço médio não possam ser usados como índice de preços, uma vez que o próprio livro médio varia em formato e tamanho de ano para ano e nos segmentos físico e digital, chama a atenção o preço médio superior das edições digitais. Estes dados merecem um estudo mais aprofundado.

Por Por Carlo Carrenho | Publicado originalmente e clipado à partir de Tipos Digitais | 01/08/2013

Livro digital vende mais em 2012


iconelivropapeledigital_Enquanto o mercado de livros impressos registrou sua pior queda de faturamento da última década, o de livros digitais cresceu 343% entre 2012 e 2011 – período em que ele realmente começou a fazer parte da realidade do brasileiro. E os números devem ser ainda melhores em 2013, já que foi apenas em dezembro que Amazon, Apple, Google e Kobo aportaram por aqui. O que isso representa na conta bancária das editoras, porém, ainda é risível: 0,1% do que elas faturam com as vendas de impressos para o mercado.

Segundo a pesquisa Produção e Venda do Mercado Editorial, feita pela Fipe por encomenda da Câmara Brasileira do Livro [CBL] e do Sindicato Nacional de Editores [Snel], apresentada nesta terça-feira, foram produzidos no ano passado, pelas 197 editoras consultadas, 7.470 e-books e 194 aplicativos de livros. O segmento de obras gerais foi o mais bem-sucedido nas vendas de e-books: 130.119 exemplares. Já o CTP [científico, técnico e profissional] se destacou, e muito, na comercialização de aplicativos: 7.053. No total, foram vendidos 8.023 apps e 227 292 e-books. Quem ficou com a maior fatia dos R$ 3,8 milhões faturados foi o segmento de obras gerais [R$ 1.813.529,59], seguido por CTP [R$ 1.263.691,51], didáticos [R$ 520.958,26] e religiosos [R$ 253.011,68].

Voltando ao mercado tradicional, as notícias não são tão promissoras. As editoras brasileiras registraram faturamento de R$ 4,98 bilhões em 2012, um aumento de 3,04% em relação ao ano anterior. Descontada a inflação de 5,84% do período, esse ligeiro aumento vira uma queda de 2,64%. O principal vilão foi o governo, que comprou menos livros para escolas e bibliotecas. Mas isso é esperado, uma vez que esses programas são sazonais. Se em 2011 as compras movimentaram R$ 1,38 bilhão, em 2012 ficaram em R$ 1,31 bilhão.

Excluindo as compras governamentais, nota-se crescimento de 6,36% no faturamento das editoras – o valor, em 2011, era de R$ 3,44 bilhões e, no ano passado, subiu para R$ 3,66 bilhões. Descontando a inflação, chega-se a um aumento real de 0,49%.

Outro dado preocupante: o livro está 12,47% mais caro e custa, em média, R$ 13,66. O valor é calculado dividindo o faturamento pelo número de exemplares comercializados, e não fazendo uma média do preço de capa. Somente o setor de obras gerais não teve aumento expressivo [0,17%], ficando em R$ 8,94, e foi o que teve o melhor desempenho em vendas, com melhoria de 7,83% no faturamento e de 7,65% em exemplares vendidos. Os didáticos e os religiosos puxaram o preço para cima, com aumentos de 22,83% e 18,35%, respectivamente.

Produção

Foram produzidos, em 2012, 57.473 títulos – 20.792 em primeira edição e 36.681 reimpressões. Em 2011, os números eram, respectivamente, 20.406 e 37.787. Também foram impressos menos exemplares: 485 milhões diante dos 499 milhões de 2011. No total, foram comercializados 434.920.064 exemplares em 2012 [-7,36%]. Queda também na produção de livros de autores brasileiros [21.905 em 2012 e 53.506 em 2011] e aumento nas traduções [de 4.687 para 5.568]. As livrarias são responsáveis por 47,4% das vendas.

Se a economia não está bombando, isso se reflete na venda de livro. Mas nosso mercado está estável e tem chance de crescer com a melhoria da educação”, diz Sônia Jardim, presidente do Snel. Já Karine Pansa, que dirige a CBL, é mais cautelosa: “Todo o mundo olha o Brasil como o boom editorial, mas isso não é o que vemos na pesquisa. Temos que olhar esse mercado estável com atenção para não vivermos uma crise”.

Publicado originalmente e clipado à partir de Tribuna do Norte | 01/08/13