Cidades com mais livrarias são as que mais compram livros pela web


Os maiores compradores virtuais de livros no Brasil estão exatamente nas áreas mais abastecidas por lojas físicas –embora o comércio eletrônico seja sempre lembrado por especialistas em leitura como alternativa para áreas onde não há livrarias.

Das dez cidades que mais compram livros pela internet no país, nove estão na região Sudeste, segundo levantamento per capita realizado pela Livraria Saraiva, a maior do país, a pedido da Folha.

O levantamento cobriu todas as cidades brasileiras e considerou o período de junho de 2012 a maio de 2013.

A lista é liderada por Niterói [RJ], São Caetano do Sul [SP] e Vitória [ES], três municípios entre os 50 com o maior Produto Interno Bruto [PIB] do país e que têm, respectivamente, uma livraria para cada 21 mil, 19 mil e 18 mil habitantes –a média nacional é de uma livraria para 63 mil.

O ranking da venda específica de e-books acompanha a tendência, com Santana do Parnaíba [SP] liderando a lista seguida de Niterói, Florianópolis [SC], São Caetano do Sul e Vitória.

Na Saraiva, o e-commerce representa hoje 34% das vendas da rede, que tem 104 lojas físicas no país. Já na Cultura, o comércio via internet chega a 22% do total. Em ambas, a loja on-line é a que mais cresce em toda a rede.

Para livreiros que trabalham com venda pela internet, é nítida a diferença no comportamento dos consumidores em cidades onde as lojas físicas estão presentes.

O e-commerce não é só conveniência para quem não tem acesso a outros canais. Sempre que abrimos loja numa cidade, aumenta a compra on-line local”, diz Sergio Herz, CEO da Livraria Cultura.

Fabiano dos Santos, subdiretor no centro de fomento à leitura na América Latina da Unesco, diz desconhecer estudos sobre o impacto das livrarias na formação do hábito de leitura, mas vê aí “boa agenda de investigação”.

A livraria tem função social na democratização do acesso e na promoção da leitura. Todo livreiro é ou deve ser um mediador cultural.

Para Eliana Yunes, diretora da Cátedra Unesco de Leitura PUC-Rio, os dados fazem pensar no limite da democratização da leitura permitida pela internet, até pelo fato de a inclusão digital também ser maior em áreas mais ricas.

Quanto mais diversificados os canais de compra, melhor para a população. Mas quem não tem acesso a livrarias e bibliotecas dificilmente solucionará um déficit de leitura com o computador. A esses foi negado o aperitivo, o gosto de experimentar.

NORDESTE

O Nordeste é a segunda região mais bem colocada na compra de livros on-line, embora seja a terceira região com mais livrarias, atrás do Sul.

Entre os 50 municípios que mais compram pelo site da Saraiva, na contagem per capita, 29 são do Sudeste, 11 do Nordeste, cinco do Sul, dois do Centro-Oeste, dois do Norte e um do Distrito Federal.

Na Saraiva e na Cultura, o Nordeste foi a região em que a compra on-line mais cresceu em 2012, acompanhando tendência de crescimento do PIB local [2,05% no primeiro trimestre] na comparação com o resto do país [1%]. “O Nordeste foi uma opção federal em termos de investimento. Isso se reflete na compra de livros”, diz Frederico Indiani, diretor de compras da Saraiva.

Publicado originalmente e clipado à partir de Folha de S. Paulo | 27/06/13

A saída para o mercado editorial: tentativas, erros e aprendizados


Como leremos em 2020? Se parar para pensar, é um intervalo muito curto de tempo, mas a revolução digital não pretende respeitar os 500 anos nos quais predominou a indústria editorial. As práticas de leitura e o mercado já enfrentam profundas transformações às quais muitos podem não resistir. Para responder à pergunta inicial, o pesquisador Sílvio Meira, fundador do C.E.S.A.R [Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife] palestrou durante o 4º Congresso Internacional do Livro Digital, que ocorreu entre os dias 13 e 14 de junho.

As possibilidades não deixaram muitas pessoas felizes. Após uma contextualização histórica – desde a conhecida revolução de Gutenberg até a leitura em modo “shuffle” da era do Twitter -, Sílvio Meira aponta para conclusões incertas: “nesse tipo de contexto, nessas novas plataformas, qual o futuro dos livros? Livros, eu acho, vão ser fluxos. Fluxos como conteúdo aumentado, compartilhado em rede como serviço”. Essa consideração, no entanto, implica em uma ampla contextualização.

A era que ele chamou de “parêntese de Gutenberg” agregou determinadas características ao livro, entre elas a grande sacada de transformá-lo em um produto e criar a indústria da informação. A composição original, a reprodutibilidade técnica, o surgimento e valorização da figura do autor, copyright, receptividade passiva da informação pelos consumidores, dentre outras. “Antes de Gutenberg, a gente tem um sistema baseado em recreação/recriação, que é criativo, coletivo, contextual, instável, baseado na performance. Dentro ou exatamente no meio de Gutenberg, nós temos o estável, o canônico, o individual, o original, o autônomo, o universo da composição. Depois de Gutenberg a gente tem um conjunto de coisas que não tem exatamente nome”, afirma.

E o que representa esse conjunto de coisas ainda sem nome ou características difíceis de mapear? “A gente faz sempre, a gente faz coisas e remistura, a gente toma coisas emprestadas, a gente reformata, a gente se apropria. Estamos vendo um universo que, no futuro, talvez seja chamado de percomposichange – um universo de performance, composição e mudança simultânea”, descreve. Tudo isso, pouco necessário lembrar, é um tiro fatal na atual visão de copyright das editoras, livrarias, agentes e autores.

Práticas de leitura

De acordo com Sílvio Meira, a leitura está se tornando cada vez mais fragmentada e menos canônica. Para exemplificar, ele citou o livro “O manuscrito encontrado em Accra”, de Paulo Coelho. “Certamente não é uma composição. É um conjunto articulado de citações, uma espécie de indexador da literatura universal”, analisa. Isso colocaria a obra em cima do parêntese citado anteriormente, na borda entre a ruptura entre a indústria editorial e o universo do “percomposichange”.

Mas essa não é o único sentido no qual a leitura irá ser impactada – talvez seja o menos significativo. Os leitores já participam ativamente do processo, de modo que o “Livro” é cada vez menos um produto final a ser entregue em uma embalagem e mais uma espécie de serviço com muitos outros valores e ferramentas agregados. E não é apenas isso: o livro, a partir de agora, deve ser visto como um elemento integrado à World Wide Web.

Ecossistema de leitura

A rede como um todo é uma plataforma de compatibilidade. É uma infraestrutura, um conjunto de serviços em cima dessa infraestrutura e um conjunto de aplicações em cima desse serviço. Livros fazem parte de um conjunto articulado de sistemas e, como conteúdo, dependem dessas plataformas de compatibilidade ao redor. A plataforma móvel, digital, conectada e programável é muito mais eficaz, muito mais leve, muito mais eficiente, muito mais barata do que a plataforma física”, explica Sílvio Meira.

Isso vai mudar exatamente o que a gente vai entender como ‘Livro’ no futuro próximo. Escrita, propriedade do material, distribuição, leitura, replicação e preservação vão mudar porque a plataforma de compatibilidade já está mudando”, alerta.

O que sobra para os profissionais?

A resposta para quem trabalha na indústria do livro é profética, mas não muito animadora. E pode ser resumida em uma sigla: TEA [tentativas, erros e aprendizado]. Esqueça os acertos. Quanto mais as editoras, livrarias, autores e até bibliotecários errarem, mais tempo terão para aprender a como não agir nessa nova dinâmica do livro digital. E mais tempo terão para se recuperar diante dos seus concorrentes. “Quem não tentar agora para errar muito, acertar pouco e aprender rápido para um futuro próximo, talvez não esteja no mercado no cenário de curto prazo”, considera.

Publicado originalmente e clipado de Revolução eBook | 27/06/13