Coleção Vaga-Lume comemora 40 anos com edição digital


No início dos 1970, um vaga-lume usando boina, cavanhaque, calça boca-de-sino e medalhão começou a surgir em escolas de todo o Brasil.

Batizado de Luminoso, o personagem aparecia desenhado nas orelhas de livros de títulos intrigantes como “O Escaravelho do Diabo” e “Menino de Asas”. Usando expressões como “tudo joinha?”, o inseto apresentava os enredos dos romances.

Boinas, medalhas e “joinhas” foram parar, há décadas, nos brechós, mas os livros de Luminoso continuam, como diria ele, “supimpas”.

Lançada na virada de 1972 para 1973, a Série Vaga-Lume, coleção de romances infantojuvenis, chega aos 40 anos com mais de 70 livros em catálogo, num caso de inédita longevidade editorial.

A editora Ática, que publica a série, pretende comemorar a efeméride no final do ano que vem. “Vamos trazer novas linhas visuais para a série e lançá-la também em formato digital”, antecipa o gerente editorial de literatura juvenil da casa, Fabricio Waltrick, 35, ele mesmo “fã de carteirinha” da Vaga-Lume quando moleque.

Na mesma época, no final de 2013, começam as filmagens de “O Mistério do Cinco Estrelas”, de Marcos Rey [1925-1999], um dos grandes sucessos da coleção.

Capa do livro "Menino de Asas", de Homero Homem, que faz parte da coleção Vaga-lume

Capa do livro “Menino de Asas”, de Homero Homem, que faz parte da coleção Vaga-lume

MILHÕES DE CÓPIAS

A palavra “sucesso” é constantemente associada à série. Dois estudos feitos como teses de doutorado pelas professoras Catia Toledo Mendonça [Universidade Federal do Paraná] e Silvia Helena Simões Borelli [PUC-SP] trazem farta documentação sobre a Vaga-Lume.

Em 1996, época do levantamento feito por Borelli, por exemplo, um dos livros iniciais da série, “A Ilha Perdida”, de Maria José Dupré, já ultrapassara os 2,2 milhões de exemplares vendidos.

A Ática não divulga as vendagens, mas, caso tenha sido mantida a média histórica de 100 mil unidades/ano, o livro estaria na casa de 4 milhões de cópias.

A obra de Dupré [1898-1984] é emblemática da primeira fase da coleção. O livro, que narra as peripécias de dois garotos numa ilha habitada por um misterioso eremita, é uma clássica obra juvenil de aventura.

O objetivo da coleção era veicular histórias ágeis, rápidas na percepção e enfáticas na ação“, afirma Borelli em sua tese, publicada como “Ação, Suspense, Emoção” [editora Estação Liberdade].

Na “fase heróica” da Vaga-Lume, alguns títulos não eram inéditos. Um dos grandes êxitos da série, “O Escaravelho do Diabo”, de Lúcia Machado de Almeida [1910-2005], havia sido lançado em 1956 como um folhetim da revista “O Cruzeiro”.

Se, no primeiro período de sua existência, a série se caracterizava pela presença de obras consagradas, na segunda década os textos que a comporão serão inéditos, de autores sem tradição na produção para jovens“, diz Toledo Mendonça.

JOVENS AUTORES

Um desses “iniciantes” foi o hoje autor consagrado Marçal Aquino, 54. Quando foi convidado pelo editor da série à época, Fernando Paixão, Aquino era repórter do “Jornal da Tarde” e “não tinha a menor ideia do que era essa tal ‘literatura juvenil‘”.

Topei o desafio e resolvi contar uma história de ‘turma de rua’ numa cidade do interior. Acabei me divertindo muito no processo.

Depois da estreia, “A Turma da Rua Quinze” [1989], ele escreveu mais três volumes e pendurou a chuteira juvenil para se dedicar aos adultos.

Há também quem nunca tenha escrito ficção fora da Vaga-Lume. É o caso de Marcelo Duarte, 48.

O jornalista, escritor e dono da editora Panda Books publicou toda a sua obra de ficção, cinco livros, na coleção, da qual era leitor voraz desde criança.

Comecei na quarta série, com ‘O Caso da Borboleta Atíria’, de Lúcia Machado de Almeida. Li ao menos 70% da coleção.” Segundo ele, seus cinco títulos, entre os quais o bem sucedido “O Ladrão de Sorrisos”, venderam mais de 240 mil exemplares.

O editor Jiro Takahashi, um dos criadores da Vaga-Lume, sustenta que o sucesso da coleção se deve a uma somatória de fatores. Um deles era prosaico: o preço. “As altas tiragens, devido à divulgação bem dirigida, permitiam preços baixos que facilitaram as adoções nas escolas.

Ele também salienta a importância, para a boa aceitação dos professores, dos encartes chamados “Suplementos de Trabalho”, com atividades didáticas ligadas às narrativas.

Takahashi, atual editor da Prumo, do grupo Rocco, chama atenção ainda para a importância do trabalho dos designers e ilustradores, que criaram uma identidade marcante para a coleção.

Editor de arte da série entre 1978 e 1987, Antônio do Amaral Rocha destaca as ilustrações de nomes como Mário Cafiero, Jayme Leão e Milton Rodrigues Alves.

Este último, conta que para ilustrar “O Caso da Borboleta Atíria” passou um tempo internado no Museu de Zoologia. “Não tínhamos internet e a melhor maneira de saber a forma de um ‘Dynastes hercules’ era ir ao museu…”.

POR CASSIANO ELEK MACHADO, DE SÃO PAULO | Publicado originalmente, extraído de Folha de S.Paulo | 30/12/2012, às 03h32

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