Presidente da ABL defende direitos de autor na internet


À Folha Ana Maria Machado, reeleita na 5ª à frente da entidade, falou também sobre romance político de 1991 que relança agora

A Academia Brasileira de Letras deve se abrir mais às comunidades carentes, à cultura popular e ao exterior a fim de “sair do gueto cultural em que às vezes fica“. Precisa também defender a soberania e o respeito ao trabalho.

Com essas ideias, a escritora Ana Maria Machado, 70, foi reeleita, na quinta, presidente da entidade. O projeto do Marco Civil da Internet é um dos pontos cruciais de discussão no momento. Ela considera essencial preservar os direitos autorais. “Não é posição de política partidária; é uma defesa da cultura nacional“, declara à Folha.

Atualmente, os provedores são alertados por autores ou editores quando textos são usados de forma indevida. Segundo ela, no ano passado houve 80 mil notificações, e as reproduções foram retiradas do ar imediatamente para não caracterizar pirataria.

Está em discussão a proposta de que a retirada do ar só ocorra com ordem judicial. Provedores, que lucram com internautas em busca de conteúdo, querem afrouxar controles. Autores, que vivem da produção de conteúdo, querem defender seus direitos.

Para Machado, foi nessa questão que a ABL pela primeira vez assumiu a frente da luta política. Ela acha que a pressão está surtindo efeito. “Só fizemos isso porque não dependemos do governo; temos posição independente.

Sobre a polêmica acerca da produção de biografias, diz que “biografia autorizada é um contrassenso“. “Não é possível que o Brasil seja o único país a ter uma legislação proibitiva. Isso sempre ocorre com herdeiros totalmente secundários querendo ganhar alguma coisa. Se uma biografia difamar alguém, existe o Judiciário“.

Biografia autorizada é laudação, como elogio em boca própria é vitupério, como já dizia Tia Nastácia“, brinca, lembrando a personagem de Monteiro Lobato. Falando nisso, o que pensa sobre a polêmica que envolve a obra do autor, acusada de racismo?

É lamentável. Não há limite para os pretextos de que as pessoas são capazes para não ler ou para impedir que os outros leiam. A obra dele não fez de ninguém racista.

Autora de mais de cem livros, Machado é premiada por sua produção infantojuvenil. Recebeu a Medalha Hans Christian Andersen, tido como o Nobel da Literatura Infantil. Somente o seu “Bisa Bia, Bisa Bel” vendeu mais de 2,5 milhões de exemplares.

Artista plástica e depois jornalista, ela enveredou pela literatura quando precisou se exilar em 1969. Seu fusca creme tinha sido utilizado no sequestro naquele ano do embaixador norte-americano Charles Burke Elbrick. Da operação participara seu irmão, Franklin Martins, que foi ministro da Comunicação Social no governo Lula.

Na França, foi aluna de Roland Barthes e fez doutorado em linguística e semiologia, dando aulas na Sorbonne.

Ela relança agora um de seus nove romances. “Canteiros de Saturno” [Alfaguara, R$ 39,90, 304 págs.], de 1991, se passa na transição da ditadura para a democracia. Hoje a autora avalia que o texto teve o mérito de perceber a violência urbana que passava a tomar conta do país.

Mas diz ter “uma relação muito estranha” com a obra. É que, semanas depois de concluir o texto, recebeu o diagnóstico de câncer de mama e teve que passar por uma mastectomia radical. “Foi devastador. Não pude dar entrevista sobre o livro, ele foi muito injustiçado“, afirma.

Foi uma fase dura. Passou pelo tratamento e processou o plano de saúde para reconstituir as mamas. “Entrei na cirurgia com o advogado e a liminar”, recorda. E depois? “Aprendi a relativizar certas coisas, me aborrecer menos e valorizar os meus amigos.

Casada, três filhos, dois netos, ela diz que gosta de escrever todos os dias pela manhã. Para depois da presidência da ABL, um plano: “Tirar um sabático e sair à deriva.

Por Eleonora de Lucena | Folha de S. Paulo | 08/12/2012