Escolas e recursos digitais: sim ou não?


Por Gabriela Dias | Publicado originalmente em PublishNews | 06/12/2012

O ano vai chegando ao fim, e com isso a agitação nas editoras escolares atinge seu ponto máximo [ou quase]. Como serão as vendas e adoções em 2013? E que impacto os novos produtos digitais vão ter no mercado?

Ainda não dá para ter clareza dos números, mas o fato é que a oferta eletrônica para as escolas particulares cresceu bastante – seja em decorrência do PNLD 2014, seja como parte de outras estratégias.

Ainda o “efeito PNLD”

Como já adiantado nesta coluna, a entrada do MEC nessa seara parece ter sido um fator decisivo para os lançamentos digitais, já que boa parte é voltada para o segmento do último PNLD [6º a 9º anos]. Os exemplos incluem produtos de editoras como SaraivaSM e Leya.

Há também estratégias mais amplas, como no caso da Moderna e >Ática, que estão lançando recursos digitais tanto para coleções dos anos finais do Ensino Fundamental quanto para o Ensino Médio.

Correndo por fora, há os sistemas de ensino, que vêm oferecendo esse tipo de recurso até há mais tempo do que as editoras. Nesse front, a grande novidade veio do UNO – agora com um modelo internacionalamplamente baseado na introdução do iPad em sala de aula.

Oferta x demanda

Em meio a tanto lançamento, a pergunta que se faz necessária é: será que existe demanda nas escolas brasileiras para tudo isso?

A julgar pela 2ª Feira do Livro Digital, ocorrida em 14 de novembro no colégio Santa Cruz [São Paulo], a resposta é sim. E não!

Nesse evento “dirigido a escolas, editoras, autores e desenvolvedores de conteúdo digital”, professores de escolas da elite paulistana encararam temas como “Experiências com o Kindle em sala de aula”, “Impactos da mudança na produção e no consumo de conteúdo digital” e “Uso de apps abertos para produção didática”. Em paralelo, editoras e fabricantes de soluções tecnológicas deram palestras e apresentaram seus produtos.

Muitas vezes, o tom era de decepção com as editoras. “Começamos a usar o iPad na escola há um ano e meio, mas elas não estavam preparadas”, disse o coordenador de tecnologia educacional da Escola Internacional de Alphaville, Francisco Mendes. Hoje, a escola usa cerca de 200 aplicativos recomendados pelos professores, a maioria em inglês – não só por ser bilíngue, mas por “quase não haver opção no mercado nacional”.

A mesma reclamação foi feita pelo professor Paulo Fontes, da Albert Sabin. Segundo ele, “ainda há carência de apps nacionais adequados para os conteúdos com os quais se trabalha na escola”.

Tais declarações soam como demanda editorial reprimida. O negócio é que as ofertas das editoras estão indo por outro caminho, centrado basicamente nas premissas do MEC [livros interativos e objetos digitais] – além de alguns adendos ocasionais, como recursos de Sistema de Gestão de Aprendizagem, conhecido como LMS [do inglês Learning Management System].

Enquanto isso, na sala dos professores…

Parte das escolas relatou experiências avançadas com recursos digitais – sejam eles livros ou não. Para a professora Cleide Diniz, do Colégio Marista Arquidiocesano, a inserção do tablet em sala de aula “atrapalha um pouco a lógica do livro, altera o currículo, muda a didática”.

Já os colégios Dante e Bandeirantes enfatizaram atividades de protagonismo e autoria com o uso de tablets – em que professores e alunos produzem o próprio conteúdo em plataformas como iBooks [Mac/iPad] ou Moglue [PCs e Macs/Android e iPad]. Para Maria Isabel Roux, professora do Santa Cruz, a “autoria do professor faz com que ele se sinta incluído”.

O negócio [de novo] é que as editoras estão oferecendo produtos digitais em que alunos e professores, em geral, só podem comentar o conteúdo.

Sim e não

Portanto, SIM, há demanda – mas nem sempre ela é apenas por livros fantasiados de “digitais”.

É claro que as escolas top lá no Santa Cruz não refletem a maioria do universo educacional brasileiro – bem longe disso. Mas elas representam uma parcela do mercado particular que, no mínimo, é formadora de opinião – pelo sim, pelo não, é melhor ficar atento ao que elas dizem.

Afinal, os paradigmas estão mudando rápido, e quem não se comunicar pode se trumbicar, como já dizia o velho e bom Chacrinha.

Por Gabriela Dias | Publicado originalmente em PublishNews | 06/12/2012

Gabriela Dias

Gabriela Dias

Gabriela Dias [@gabidias] é formada em Editoração pela ECA-USP e transita desde 1996 entre o papel e o virtual. Atualmente, presta consultoria e realiza projetos nas áreas de educação e edição digital.

A coluna Cartas do Front é um relato de quem observa o mercado educacional no Brasil e no mundo. Periodicamente, ela traz novidades e indagações sobre o setor editorial didático – e sobre o impacto da tecnologia nos livros escolares e na sala de aula.

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