Qual é o caminho para o mercado de livros ilustrados?


Por Mike Shatzkin | Publicado originalmente em Publishnews | 24/08/2012 | Tradução: Marcelo Barbão

Mike Shatzkin

No início do mês, fiquei interessado por uma história no The Bookseller que reconheceu que ebooks simplesmente não funcionaram para os livros ilustrados. Parece que os editores de livros ilustrados com quem eles falaram pensam que a situação é temporária. O Diretor-Gerente da Thames & Hudson, Jamie Camplin, é citado dizendo: “você precisa fazer uma distinção muito clara entre a situação agora e a situação daqui a cinco anos”. E o CEO da Dorling Kindersley, John Duhigg, enfatizou que sua equipe está sendo mantida com fluxos de trabalho digitais e inovações, assim podem “estar ali com o produto certo na hora certa”.

Mas talvez, exceto por uma oportunidade aqui ou ali, não haverá nunca o “momento certo” para as editoras de livros ilustrados que buscam explorar o mesmo desenvolvimento criativo tanto em impresso quanto digital. Não existe garantia para isso.

Duhigg caracterizou o chamado “negócio digital branco e preto” os livros cuja leitura flui [eu acho que seria mais precisamente descrito como “negócio digital de leitura imersiva”], e admite que é muito diferente para as empresas com “catálogos totalmente ilustrados”.

Isso está correto. Esperar que a coisa vai mudar pode ser apenas otimismo exagerado.

Livros ilustrados em formato impresso dependem de livrarias mais do que romances e biografias. Se o valor de um livro está em sua apresentação visual, então todos querem olhar antes de comprar, e a visão que se consegue online pode não fazer justiça ao livro impresso.

Camplin vê isso de forma otimista. Ele tem uma visão agressivamente modernista do que vai acontecer com os romances. “Não vejo como os impressos vão sobreviver para ficção, além do bibliófilo”, o que poderia abrir mais espaço nas livrarias para os livros ilustrados.

Mas, se os compradores de Patterson e Evanovich e de 50 Tons de Cinza não estão visitando livrarias para fazer nenhuma compra, haverá público para olhar os livros ilustrados, por mais bem expostos que estejam?

Este problema tem me preocupado faz um tempo. Livros são ilustrados por duas razões: beleza ou propósito de explicação, mais a segunda do que a primeira. Se são ilustrados para explicar melhor, como tricotar, fazer uma vela ou uma joia, não seria um vídeo uma opção melhor na maioria das vezes? Se a ilustração for um mapa, não é provável que organizar digitalmente as camadas [pelo movimento do tempo, das tropas num campo de batalha ou o ajuste das fronteiras] vai trazer mais clareza do que as imagens nos livros?

Claro, as editoras podem fazer estas coisas as versões digitais. Mas elas exigem criar, ou licenciar, depois integrar novo conteúdo, repensar e redesenhar a apresentação. E isso sem contar o trabalho envolvido para ajustar o conteúdo a múltiplos tamanhos de tela, um problema que vai ficando mais desafiador, já que tablets e telefones com tamanhos de telas diferentes vão sendo lançados.

Tem uma grande editora que conheço que está realmente fazendo esforços para publicar ebooks de todos os novos títulos lançados, inclusive de selos que lançam vários livros ilustrados. Como todas outras editoras, suas vendas de e-books representam cerca de 50% ou mais na ficção, e 25% ou mais em não-ficção de leitura imersiva. Mas os livros ilustrados estão em porcentagens de um dígito na maior parte do tempo, com alguns dos mais bem-sucedidos na categoria chegando a dois dígitos.

Isto nos EUA – dois anos ou mais depois do lançamento do iPad e do Nook Color e quase um ano depois do lançamento do Kindle Fire. Baixas vendas de e-books ilustrados não podem mais ser atribuídas à falta de aparelhos eficientes.

E a ubiquidade destes aparelhos de alta capacidade trazem novas dores de cabeça. Estava discutindo com nosso especialista favorito em hábitos de leitura, Peter Hildick-Smith, do Codex Group, sobre o recente informe Bowker, que afirma que mais pessoas estão lendo ebooks em aparelhos de multi-função do que em leitores de e-ink dedicados. Ele concorda e diz que, como resultado, o consumo de ebook por leitor ameaça cair.

Hildick-Smith afirma que o tablet é uma mudança profunda na história do conteúdo e do consumo. Até agora, cada conteúdo tinha seu próprio mecanismo de distribuição. Discos, K7s e até MP3s eram distribuídos através de aparelhos feitos para eles, assim como a programação na TV e rádio. Livros em Kindles e Nooks replicaram este paradigma. Quando você liga seu Kindle, se enterra no seu livro como fazia quando estava no papel.

Já não é mais verdade. Se o livro que você está lendo num iPad, Kindle Fire ou Nexus 7 está chato, ou você se cansou, pode mudar para um filme, o New York Times, sua música favorita ou Angry Birds com o mesmo aparelho. Ou seu iPhone vai tocar e você vai deixar o livro para responder a um email.

Para o editor de romances, isso significa que o livro está competindo com outras mídias que teriam um propósito diferente. Para o editor de livros ilustrados, o livro também deve competir com mídia com o mesmo objetivo [quantos novos vídeos sobre pontos de tricô ou com técnicas de criação de joias são postados no YouTube todo dia?]. Mas eles não podem publicar pelo mesmo preço, por que a maioria é gratuita.

Então, o editor de livros ilustrados não só precisa aprender a fazer vídeos [uma habilidade que nunca foram obrigados a ter antes], como também precisam criar um modelo de negócios que permita que seus livros sejam parte de um produto com preço comercial, competindo com legiões de coisas parecidas que são gratuitas. E eles precisam financiar um componente criativo substancial que não está contribuindo com nenhum valor ao impresso.

Sabemos que nossa indústria está mudando radicalmente. Diferentes modelos de negócio estão sendo desafiados de diferentes maneiras. A maior parte do tempo neste blog, talvez tempo demais, estamos contemplando como isso afeta as maiores editoras e os maiores livros. Há uma razão para isso. Grandes livros sempre impulsionaram o negócio de livro do consumidor e isso parece ser mais verdade hoje do que nunca.

Mas o desafio para – muito especificamente – “publicação de livros ilustrados gerais” parece muito mais severo. Os grandes editores com quem falei, aparentemente estão vendo isso. Ninguém foi explícito, mas parece que eles podem ver um caminho lucrativo para navegar pela mudança digital com livros de leitura imersiva, mas não com os ilustrados.

Também falei com editoras de livros ilustrados. Ninguém disse: “você está errado, Mike. É assim que vamos continuar sendo bem-sucedidos, usando nossas habilidades de desenvolvimento de conteúdo, capacidades de marketing e rede de talentos quando o espaço nas livrarias se tornar insignificante.” Alguns deles disseram “não concordo” sem especificar. A maioria admite que vê o problema, mas ainda não encontraram uma solução.

Pode ser que não exista.

Camplin, da Thames & Hudson, está citado no final da matéria no The Bookseller dizendo: “Assumir que o mercado existe [no momento] é perder dinheiro; no entanto, seria estúpido dizer que ficará assim para sempre”.

Poderia também ser besteira dizer, ou apostar, que não vai.

Claro, há uma estratégia que pode funcionar: a vertical. Se estiver usando livros ilustrados para construir uma comunidade de interessados, então você será capaz, é o que se presume, de vender outras coisas a eles [software, eventos ao vivo, bases de dados, serviços] quando os livros ilustrados ficarem datados. É a estratégia da Osprey e da F+W e você pode ver algum sentido nela porque livros são somente parte e quase certamente uma porcentagem cada vez menor, de seu portfólio de vendas.

Na verdade, são empresas como essas que poderiam usar tecnologia como Aerbook Maker de Ron Martinez e usar seus livros como um trampolim para produtos digitais com valor comercial. Eles provavelmente também querem descobrir o esquema “advanceImages” para micropagamento de royalties da fotoLibra em vez de pagar licenciamentos para fotografias. O que Aerbook e fotoLlibra estão oferecendo pode reduzir o custo de criar um e-book ilustrado ou enhanced em 80%. Isso certamente ajudaria.

Já faz tempo que me parece evidente que gerenciar o lado do custo da criação de enhanced e-book é crítico, por isso fiquei animado com o lançamento original do Blio em dezembro de 2009.

Para as editoras que buscam a solução na estratégia vertical, a métrica para analisar são as vendas que fazem de coisas além de livros e as vendas que fazem fora das livrarias. Ou seja: acompanhar o que é sustentável e tem potencial para crescer, não o que está destinado a afundar.

Fatos relevantes: lembro que alguém na Wiley me contou há alguns anos que um grande portfólio de fotografias acrescentava rendimentos mensuráveis em seus sites de viagem. Por um custo muito baixo, eles podiam fazer uma seleção de fotografias disponíveis para pesquisa. As pessoas clicavam nelas escolhendo uma nova a cada vez. Esta será a “publicação de livros ilustrados” do futuro, mas começa tendo uma audiência.

Por Mike Shatzkin | Publicado originalmente em Publishnews | 24/08/2012 | Tradução: Marcelo Barbão

Mike Shatzkin tem mais de 40 anos de experiência no mercado editorial. É fundador e diretor-presidente da consultoria editorial The Idea Logical Co., com sede em Nova York, e acompanha e analisa diariamente os desafios e as oportunidades da indústria editorial nesta nova realidade digital. Oraganiza anualmente a Digital Book World, uma conferência em Nova York sobre o futuro digital do livro.

Nos Arquivos de Shatzkin, o consultor novaiorquino aborda os desafios e oportunidades apresentados pela nova era digital. O texto de sua coluna é publicado originalmente em seu blog, The Shatzkin Files [www.idealog.com/blog].