Russ Grandinetti fala sobre Amazon, Kindle e Brasil


Na Bienal do Livro, vice-presidente da varejista americana foi destaque do dia Digital

Fotógrafo: 2LikePhotoStudio

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Para os que esperavam um cara arrogante e ameaçador, Russ Grandinetti desapontou. Super simpático e aberto, o vice-presidente da Amazon conseguiu fazer uma apresentação interessante e sair pela tangente das polêmicas que envolvem sua empresa no dia digital da Bienal de São Paulo, na última sexta. Em uma sala lotada, Russ contou a história da Amazon e de sua menina dos olhos, o Kindle, já avisando desde o início da palestra que não falaria sobre detalhes dos planos da Amazon no Brasil.

Russ apontou dois elementos-chave para o sucesso da Amazon: primeiro, o “consumidorcentrismo” da empresa. “O objetivo da Amazon é ser a empresa mais centrada no consumidor do mundo. Ajudar pessoas a achar qualquer coisa que quiserem online” disse o VP, que logo brincou com a declaração “Eu sou de Nova York, eu sou muito cínico, se alguém disser isso pra mim, eu vou achar que é marketing. Mas na internet as pessoas têm mais opções – é como a gravidade”.

O segundo elemento é visão de longo prazo: “Não tomamos decisões para hoje, pensamos 5, 6, 10 anos lá na frente. Isso nos ajudou a ter coragem para inventar o livro digital

Russ então se perguntou, porque reinventar o livro? “Porque a tecnologia tornou isso possível. A internet e os aparelhos conectados no mundo inteiro também tornaram isso possível. Uma maneira negativa de olhar isso é: se não tivéssemos feito isso, outros teriam” disse o vice-presidente, provavelmente em sutil referência à Apple.

Sobre a invenção do Kindle, ele contou “Nós normalmente não focamos nos competidores, mas nesse caso tomamos o livro como competidor. Pensamos: o que o torna tão especial? Ele é fácil de manusear, baixo custo, bateria ‘muuuuito’ durável etc. Então partimos daí. Tivemos também o compromisso de fazer o investimento necessário, para ter a tecnologia certa. E como no basquete, onde você tem que aprender a driblar com a mão esquerda, é uma característica nossa não pensar naquilo em que somos bons, mas sim naquilo que os consumidores vão precisar daqui a alguns anos”. Para a Amazon, o livro consiste em “uma série de palavras que atravessam seus olhos para o seu cérebro” e o objetivo final da empresa é ter todos os livros do mundo em todas as línguas disponíveis em menos de 60 segundos.

Ao mostrar o primeiro modelo lançado, Russ Grandinetti brincou “Eu vou te contar um segredo, ele é um pouco feio” Mas funcionou, segundo ele, porque não é apenas um objeto, mas sim um serviço, com características inovadoras, como 3G grátis, que foi novidade na época, sem contratos planos de dados, leitura fácil etc..

Russ passou então a falar sobre a revolução digital iniciada pelo Kindle, e a mudança de velocidade que ele trouxe ao mercado editorial, que levava cerca de 18 meses para publicar uma história: “Eu acho que os editores brasileiros deveriam publicar sobre o desempenho dos atletas brasileiros nas olimpíadas semana que vem, porque mais tarde todos terão esquecido”.

Russ afirmou também que os usuários do Kindle passam a comprar 3.3 vezes mais livros no primeiro ano com o aparelho, e que isso é um padrão que se repete em todos os países: “Não tem como isso ser uma mudança de demanda. É um aumento de demanda”. Em mais uma alfinetadinha irônica, Russ mostrou um slide com um cabo da Apple: “Cortamos o cabo para as pessoas, ninguém precisa mais de cabos”.

Chegada a hora das perguntas, Russ se mostrou um diplomata nato. Ao falar de expansão global da empresa, ele falou do dilema ‘livros locais versus livros em língua inglesa’. “Vemos crescimento nas vendas de livros [locais] nos países onde chegamos. Mas também, livros em língua inglesa vendem mundialmente, há um aumento ano a ano na venda de títulos em língua inglesa” Do outro lado, a expansão ajuda as vendas de títulos em outras línguas nos Estados Unidos, e ele espera que o mesmo aconteça com o Brasil “Esperamos que possamos ajudá-los a alcançar lusófonos no mundo inteiro, não apenas no Moçambique, Angola etc.

No tema ebooks, foi interessante ver a visão da Amazon sobre a precificação do livro digital: “A única coisa que nós temos uma opinião muito forte a respeito é que o ebook deveria custar menos que o livro impresso” afirmou Russ, que disse também que os consumidores se sentem ofendidos quando vêem um ebook cujo preço é igual ao do livro impresso.

A Amazon se vê também como uma combatente da pirataria de ebook: “Uma das coisas mais perigosas que nós podemos fazer é não oferecer a melhor experiência de leitura, fazer com que a pessoa pense duas vezes antes de baixar o livro. Eu sinto um certo orgulho em contribuir para a luta contra a pirataria” afirmou Grandinetti.

Ele entende também o receio que existe em torno do livro digital “O negócio digital é a maior mudança que nós veremos no mercado editorial, então as pessoas querem ir devagar. A minha preocupação é com o dilema livros versus games, twitter, filmes, etc.” e brincou “Livro digital é o seguinte: são oito e meia, numa noite de terça-feira, eu ainda tenho duas horas sem nada pra fazer antes de ir dormir. Eu vou assistir um filme, ler um livro ou jogar Angry Birds? O mercado do livro digital é isso, e eu acho perigoso achar que não” para mostrar que os concorrentes não são os livros impressos.

Russ falou também sobre DRM: “Essa coisa de ‘Amazon impõe DRM’ é um mito, que persistiu por muito tempo” e explicou que, na verdade, são os publishers que não deixavam seus livros serem colocados à venda no site sem DRM.

E não esperem um Kindle de graça num futuro próximo, essa foi a mensagem clara de Russ: “Eu sou muito cético em relação à ideia de um aparelho gratuito. Nós trabalhamos muito para reduzir os custos, de forma a poder oferecer um Kindle a US$ 79. Eu não passaria muito tempo pensando sobre o Kindle gratuito”.

Sobre o Brasil, Russ está otimista “Os desafios que vamos enfrentar aqui não são muito diferentes dos que outras companhias enfrentam quando vêm para cá. O negócio do livro aqui é quase único, eu não conheço nenhum país que tenha escrito na sua constituição que livros não devem ser taxados para serem mais acessíveis.[…] Além disso, eu observo no público a quantidade de tablets e smartphones, é uma sociedade muito conectada”.

Em resposta ao questionamento sobre a relação agressiva que a empresa tem com os editores, e como isso se dará no Brasil, Russ insistiu que não é como dizem: “Nós temos muito mais coisas em comum com os publishers do que o que não temos em comum, nossos negócios estão bastante alinhados. Claro que, para a mídia, é mais interessante ler sobre os desacordos. Eu acredito que tudo está acontecendo de forma muito ordenada. Alguns deles [os publishers americanos] estão tendo seus anos mais rentáveis” contou o vice-presidente.

Ele completou: “Mesmo se as pessoas dizem que negociamos de forma agressiva, se chegamos a um acordo, nós mantemos o acordo. Segundo: nós respeitamos o autor. E respeitamos a lei. Sucesso para nós não é uma questão de desconto, isso é uma visão muito simplista”.

Num tom mais leve, alguém pergunta o que ele está lendo no seu Kindle. Russ falou brincando, em português, “Cinquenta tons de cinza” em um sotaque decente. Por último, o mediador lembrou da frase de Jeff Bezos “Quero ir à Lua, e ao Brasil” e perguntou quando vão abrir a Amazon na Lua. “Pois é, estava pensando aqui” disse Russ “ Essa história de ter todos os livros do mundo disponíveis em 60 segundos. Talvez não seja grande o suficiente”.

Não deu para ir no dia D da Bienal? TV Publishnews marcou presença e traz agora os pontos altos desse dia, marcado por apresentações de grandes players do mercado do livro digital. As mesas mediadas por Carlo Carrenho com o CEO do Copia Andrew Lowinger e o vice-presidente da Amazon Russ Grandinetti sobre o mercado do livro digital, Kindle, e Brasil. O presidente da Saraiva Marcílio Pousada, que também participou do Dia D, falou sua visão sobre o assunto com a TV PublishNews.

Por Iona Teixeira Stevens | PublishNews | 15/08/2012

4 pensamentos sobre “Russ Grandinetti fala sobre Amazon, Kindle e Brasil

  1. Gostei dos comentários do vice presidente da Amazon, mas alguém deve falar para ele, que mesmo não sendo cobrado imposto sobre o livro no Brasil, o livro no Brasil é um dos mais caros do mundo, alguém esta ganhando em cima do preço verdadeiro do livro e não é o leitor…

  2. Tudo bobagem nem amazon nem kobo virâo para o Brasil , não a mercado para eles aqui , se assim fosse os camelôs já estariam vendendo . como ocorre com celulares e tablets , é simples

  3. No caso da Kobo pode até ser que eles não viessem para o Brasil, pois eles teriam que conhecer bem o mercado editorial brasileiro antes de tomar a decisão de vir para o Brasil. Estiveram aqui durante o Congresso do Livro Digital, mas, depois disso, silêncio.

    Mas, no caso da Amazon eu diria o seguinte: o eBook é uma ótima desculpa pra ela vir. O eBook é sem sombra de dúvida o garoto propaganda mais barato que já existiu na história da varejo.com. Talvez ela vem com a desculpa do eBook pra vender geladeira pra pinguim. Será que ninguém percebe que a Amazon está subsidiando o seu Kindle para colocar nas mãos dos consumidores um caixa eletrônico para compras virtuais?

    Com relação ao primeiro comentário, o livro no Brasil não é 100% livre de impostos. Há sim impostos invisíveis que são computados dependendo do tipo de empresa que você atua juridicamente. E eu penso o seguinte: não é que o livro no Brasil seja caro, é que talvez o livro aqui no Brasil não tenha o seu real valor.

    Grande abraço a todos!

    Eddie

  4. No início de dezembro de 2010, uma nova app chegou discretamente à loja de apps da Apple. Com o nome de iFlow , a princípio parecia ser apena mais um e-reader para iPhone/iPod e iPad . Mas uma pequena análise do aplicativo já demonstrou que havia algo mais ali. A grande vantagem do iFlow é que, apesar da existência de uma iFlow Bookstore, ele permite que você leia nele qualquer outro livro digital em formato ePub. Até aí os leitores da Kobo e o próprio iBooks fazem isso, mas o iFlow abre ePubs com DRM da Adobe Editions! Isto quer dizer que livros comprados em e-bookstores da Google, Sony, Borders e Kobo podem ser lidos no iFlow! E, no que interessa a nós, tupiniquins, livros comprados nas ebookstores brasileiras como Livraria Cultura, Gato Sabido e Saraiva também podem ser abertos e lidos no novo aplicativo, mantendo-se o DRM dos arquivos intactos.

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