Saiba mais sobre o ePub, um formato em constante evolução


Por Octavio Kulesz | Publicado originalmente em PublishNews | 15/08/2012

Cada elo da indústria do ebook experimenta um processo de mudanças profundas, desde as plataformas até os dispositivos e os formatos. O EPUB – estabelecido pelo Fórum Internacional de Edição Digital [IDPF na sigla em inglês] – é considerado o padrão mais promissor para arquivos de ebooks. Este formato redimensionável conta com grandes vantagens em relação a outros concorrentes; em especial, é gratuito e de código aberto. A seguir reproduzimos nossa conversa com Liz Castro sobre o formato EPUB e outros temas atuais vinculados aos ebooks. Liz, com uma trajetória de quase 25 anos no terreno digital, publicou mais de uma dezena de livros sobre EPUB, CSS, HTML e Blogger, e são uma referência obrigatória para qualquer editor ou escritor interessado em explorar a era eletrônica. Seu blog Pigs, Gourds, and Wikis e sua conta de Twitter [@lizcastro] são seguidos por milhares de leitores em nível mundial.

Octavio Kulesk | Um dos obstáculos para a edição digital em línguas não-latinas é que o formato EPUB nem sempre funciona adequadamente. Você já teve experiência com este tipo de idioma? O EPUB3 melhorou as coisas?

Liz Castro | O EPUB3 agora tem um bom suporte para as línguas asiáticas, como japonês. Acabo de voltar do Japão onde participei da primeira conferência do IDPF na Ásia – tratando do EPUB3 – e apresentamos vários ebooks não só com caracteres japoneses, mas também com escrita vertical, caracteres ruby, tate-chu-yoko, kenten e outras partes essenciais da tipografia japonesa. A coisa melhorou tanto que a Rakuten/Kobo oferecerá todos os livros em japonês no formato EPUB3.

OK | Como você acha que evoluirão os padrões no mundo do ebook, por causa da pressão da Amazon para impor seu próprio formato – o MOBI –, os esforços do IDPF e da maioria das editoras para padronizar o EPUB, além das tentativa de sobrevivência do PDF?

LC | Acho que as novas características do EPUB3 – e em particular seu suporte a línguas não-latinas – podem ser a chave para impor o formato e acabar definitivamente com o MOBI. A própria Amazon já está substituindo o MOBI por KF8, um formato tão parecido ao EPUB3 que poderia ser considerado algo como sua versão proprietária [combina os mesmos HTML5 e CSS3]. A Amazon já aceita arquivos EPUB3 em seu sistema e os converte automaticamente. É claro, a Amazon quer manter seu próprio formato, mas será interessante ver se as editoras estão dispostas a permitir isso. Também vimos que com a diagramação fixa – que já é padrão no EPUB3 – os grandes fabricantes de e-readers estão apoiando o novo padrão. As editoras não têm tempo nem os recursos econômicos para fazer múltiplas versões de um livro para cada leitor. O estabelecimento de um padrão permite que as editoras criem um só arquivo para todos os leitores, e assim tenham tempo para aumentar a qualidade e a quantidade de livros oferecidos.

OK | O InDesign constitui um software fundamental para a diagramação de livros em papel e no digital. No entanto, para a edição pura de livros eletrônicos, não seria mais conveniente partir de outras ferramentas [inclusive mais simples], sem ter que usar o InDesign como intermediário?

LC | O InDesign, como você explicou, é um programa potente, mas complicado e caro. Como a grande maioria das editoras nos Estados Unidos, Europa e Japão usa este programa para a diagramação de livros impressos, é uma opção natural para a criação de livros eletrônicos. Além disso, com cada nova versão, realiza este trabalho cada vez melhor. Mas nos casos em que não seja utilizado para os impressos e que não seja conhecido, nem tenha sido comprado anteriormente, suas vantagens diminuem consideravelmente. Para a criação de livros puramente eletrônicos, ainda não existem ferramentas gráficas muito boas, mas não acho que vão demorar muito para chegar. No entanto, é verdade que são necessárias ferramentas de baixo custo para criar livros eletrônicos sem precisar tocar o código de EPUB que se encontra por trás.

OK | Nestes últimos anos, você viajou por muitos países. Como vê a evolução do ebook no mundo?

LC | Vejo que todo o mundo está entendendo a utilidade de poder ler em dispositivos eletrônicos. Acho que o preço dos dispositivos é chave para sua adoção. Nos EUA, o Kindle só diminuiu de preço quando saiu o iPad – uma concorrência de verdade. Em poucos meses, foi de $400 a menos de $100. Isso está a ponto de acontecer no Japão agora, com o lançamento do leitor Kobo por menos de $100 e com a apresentação do suporte para escrita vertical. Na Argentina, onde estive em abril, acho que a falta de um e-reader acessível é uma das coisas que está segurando o mercado de livros eletrônicos. Há muita gente que lê ali, mas quem quer comprar um e-reader por 300 dólares? Então as editoras, que costumam ser mais conservadoras – e que, além disso, se acham numa situação delicada por causa da crise mundial –, têm medo de investir dinheiro para fazer as conversões necessárias e há uma falta de conteúdo. Tudo é um círculo. Mas vejo a coisa começando a girar.

OK | Que conselhos daria aos editores de países em desenvolvimento que estão querendo experimentar com o digital?

LC | Acho que é preciso levar em conta os dispositivos móveis que as pessoas já têm em sua mão ou sobre suas mesas. É possível ler EPUB gratuitamente num computador ou em muitos celulares existentes. Com isso já dá para começar. Depois, aconselharia que se relacionem diretamente com os clientes leitores, que sejam receptivos a suas necessidades e que não os tratem como piratas. Se as editoras fizerem com que seja mais cômodo e mais fácil comprar um livro que pirateá-lo – com a consequente perda de tempo e preocupações que este ato implica para o usuário –, as pessoas se comportarão corretamente. Estou convencida disso. E atuo em cima desta convicção: vendo todos meus livros sem proteção DRM e eles continuam vendendo tanto em países onde se diz que todo mundo é pirata como nos que não. Também acho que é boa ideia continuar criando livros em papel e digital ao mesmo tempo. Podem ser formatos complementares, não precisam ser exclusivos. Nestes dias, quando muita gente ainda não está acostumada a ler em formato digital, o papel continua sendo necessário para divulgar um livro.

Por Octavio Kulesz | Publicado originalmente em PublishNews | 15/08/2012

Octavio Kulesz é formado em Filosofia pela Universidade de Buenos Aires e atualmente dirige a Teseo, uma das

Octavio Kulesz

principais editoras digitais acadêmicas da Argentina. Em 2010, criou a rede Digital Minds Network, junto com Ramy Habeeb [do Egito] e Arthur Attwell [da África do Sul], com o objetivo de estimular o surgimento de projetos eletrônicos em mercados emergentes. Em 2011, escreveu o renomado estudo La edición digital en los países en desarrollo, com apoio da Aliança Internacional de Editores Independentes e da Fundação Prince Claus.

Sua coluna Sul Digital busca apresentar um panorama dos principais avanços da edição eletrônica nos países em desenvolvimento. Tablets latino-americanos, leitura em celulares na África, revoluções de redes sociais no mundo árabe, titãs do hardware russos, softwares de última geração na Índia e colossos digitais chineses: a edição digital no Sul mostra um dinamismo tanto acelerado quanto surpreendente.

Russ Grandinetti fala sobre Amazon, Kindle e Brasil


Na Bienal do Livro, vice-presidente da varejista americana foi destaque do dia Digital

Fotógrafo: 2LikePhotoStudio

Fotógrafo: 2LikePhotoStudio

Para os que esperavam um cara arrogante e ameaçador, Russ Grandinetti desapontou. Super simpático e aberto, o vice-presidente da Amazon conseguiu fazer uma apresentação interessante e sair pela tangente das polêmicas que envolvem sua empresa no dia digital da Bienal de São Paulo, na última sexta. Em uma sala lotada, Russ contou a história da Amazon e de sua menina dos olhos, o Kindle, já avisando desde o início da palestra que não falaria sobre detalhes dos planos da Amazon no Brasil.

Russ apontou dois elementos-chave para o sucesso da Amazon: primeiro, o “consumidorcentrismo” da empresa. “O objetivo da Amazon é ser a empresa mais centrada no consumidor do mundo. Ajudar pessoas a achar qualquer coisa que quiserem online” disse o VP, que logo brincou com a declaração “Eu sou de Nova York, eu sou muito cínico, se alguém disser isso pra mim, eu vou achar que é marketing. Mas na internet as pessoas têm mais opções – é como a gravidade”.

O segundo elemento é visão de longo prazo: “Não tomamos decisões para hoje, pensamos 5, 6, 10 anos lá na frente. Isso nos ajudou a ter coragem para inventar o livro digital

Russ então se perguntou, porque reinventar o livro? “Porque a tecnologia tornou isso possível. A internet e os aparelhos conectados no mundo inteiro também tornaram isso possível. Uma maneira negativa de olhar isso é: se não tivéssemos feito isso, outros teriam” disse o vice-presidente, provavelmente em sutil referência à Apple.

Sobre a invenção do Kindle, ele contou “Nós normalmente não focamos nos competidores, mas nesse caso tomamos o livro como competidor. Pensamos: o que o torna tão especial? Ele é fácil de manusear, baixo custo, bateria ‘muuuuito’ durável etc. Então partimos daí. Tivemos também o compromisso de fazer o investimento necessário, para ter a tecnologia certa. E como no basquete, onde você tem que aprender a driblar com a mão esquerda, é uma característica nossa não pensar naquilo em que somos bons, mas sim naquilo que os consumidores vão precisar daqui a alguns anos”. Para a Amazon, o livro consiste em “uma série de palavras que atravessam seus olhos para o seu cérebro” e o objetivo final da empresa é ter todos os livros do mundo em todas as línguas disponíveis em menos de 60 segundos.

Ao mostrar o primeiro modelo lançado, Russ Grandinetti brincou “Eu vou te contar um segredo, ele é um pouco feio” Mas funcionou, segundo ele, porque não é apenas um objeto, mas sim um serviço, com características inovadoras, como 3G grátis, que foi novidade na época, sem contratos planos de dados, leitura fácil etc..

Russ passou então a falar sobre a revolução digital iniciada pelo Kindle, e a mudança de velocidade que ele trouxe ao mercado editorial, que levava cerca de 18 meses para publicar uma história: “Eu acho que os editores brasileiros deveriam publicar sobre o desempenho dos atletas brasileiros nas olimpíadas semana que vem, porque mais tarde todos terão esquecido”.

Russ afirmou também que os usuários do Kindle passam a comprar 3.3 vezes mais livros no primeiro ano com o aparelho, e que isso é um padrão que se repete em todos os países: “Não tem como isso ser uma mudança de demanda. É um aumento de demanda”. Em mais uma alfinetadinha irônica, Russ mostrou um slide com um cabo da Apple: “Cortamos o cabo para as pessoas, ninguém precisa mais de cabos”.

Chegada a hora das perguntas, Russ se mostrou um diplomata nato. Ao falar de expansão global da empresa, ele falou do dilema ‘livros locais versus livros em língua inglesa’. “Vemos crescimento nas vendas de livros [locais] nos países onde chegamos. Mas também, livros em língua inglesa vendem mundialmente, há um aumento ano a ano na venda de títulos em língua inglesa” Do outro lado, a expansão ajuda as vendas de títulos em outras línguas nos Estados Unidos, e ele espera que o mesmo aconteça com o Brasil “Esperamos que possamos ajudá-los a alcançar lusófonos no mundo inteiro, não apenas no Moçambique, Angola etc.

No tema ebooks, foi interessante ver a visão da Amazon sobre a precificação do livro digital: “A única coisa que nós temos uma opinião muito forte a respeito é que o ebook deveria custar menos que o livro impresso” afirmou Russ, que disse também que os consumidores se sentem ofendidos quando vêem um ebook cujo preço é igual ao do livro impresso.

A Amazon se vê também como uma combatente da pirataria de ebook: “Uma das coisas mais perigosas que nós podemos fazer é não oferecer a melhor experiência de leitura, fazer com que a pessoa pense duas vezes antes de baixar o livro. Eu sinto um certo orgulho em contribuir para a luta contra a pirataria” afirmou Grandinetti.

Ele entende também o receio que existe em torno do livro digital “O negócio digital é a maior mudança que nós veremos no mercado editorial, então as pessoas querem ir devagar. A minha preocupação é com o dilema livros versus games, twitter, filmes, etc.” e brincou “Livro digital é o seguinte: são oito e meia, numa noite de terça-feira, eu ainda tenho duas horas sem nada pra fazer antes de ir dormir. Eu vou assistir um filme, ler um livro ou jogar Angry Birds? O mercado do livro digital é isso, e eu acho perigoso achar que não” para mostrar que os concorrentes não são os livros impressos.

Russ falou também sobre DRM: “Essa coisa de ‘Amazon impõe DRM’ é um mito, que persistiu por muito tempo” e explicou que, na verdade, são os publishers que não deixavam seus livros serem colocados à venda no site sem DRM.

E não esperem um Kindle de graça num futuro próximo, essa foi a mensagem clara de Russ: “Eu sou muito cético em relação à ideia de um aparelho gratuito. Nós trabalhamos muito para reduzir os custos, de forma a poder oferecer um Kindle a US$ 79. Eu não passaria muito tempo pensando sobre o Kindle gratuito”.

Sobre o Brasil, Russ está otimista “Os desafios que vamos enfrentar aqui não são muito diferentes dos que outras companhias enfrentam quando vêm para cá. O negócio do livro aqui é quase único, eu não conheço nenhum país que tenha escrito na sua constituição que livros não devem ser taxados para serem mais acessíveis.[…] Além disso, eu observo no público a quantidade de tablets e smartphones, é uma sociedade muito conectada”.

Em resposta ao questionamento sobre a relação agressiva que a empresa tem com os editores, e como isso se dará no Brasil, Russ insistiu que não é como dizem: “Nós temos muito mais coisas em comum com os publishers do que o que não temos em comum, nossos negócios estão bastante alinhados. Claro que, para a mídia, é mais interessante ler sobre os desacordos. Eu acredito que tudo está acontecendo de forma muito ordenada. Alguns deles [os publishers americanos] estão tendo seus anos mais rentáveis” contou o vice-presidente.

Ele completou: “Mesmo se as pessoas dizem que negociamos de forma agressiva, se chegamos a um acordo, nós mantemos o acordo. Segundo: nós respeitamos o autor. E respeitamos a lei. Sucesso para nós não é uma questão de desconto, isso é uma visão muito simplista”.

Num tom mais leve, alguém pergunta o que ele está lendo no seu Kindle. Russ falou brincando, em português, “Cinquenta tons de cinza” em um sotaque decente. Por último, o mediador lembrou da frase de Jeff Bezos “Quero ir à Lua, e ao Brasil” e perguntou quando vão abrir a Amazon na Lua. “Pois é, estava pensando aqui” disse Russ “ Essa história de ter todos os livros do mundo disponíveis em 60 segundos. Talvez não seja grande o suficiente”.

Não deu para ir no dia D da Bienal? TV Publishnews marcou presença e traz agora os pontos altos desse dia, marcado por apresentações de grandes players do mercado do livro digital. As mesas mediadas por Carlo Carrenho com o CEO do Copia Andrew Lowinger e o vice-presidente da Amazon Russ Grandinetti sobre o mercado do livro digital, Kindle, e Brasil. O presidente da Saraiva Marcílio Pousada, que também participou do Dia D, falou sua visão sobre o assunto com a TV PublishNews.

Por Iona Teixeira Stevens | PublishNews | 15/08/2012

Google poderá apelar de processo por digitalização de livros


Desde o início do conflito em 2005, o Google se defende das críticas respondendo que seu objetivo é criar “a maior biblioteca da história”

Usuário mexe em computador no stand do Google: o juiz federal Denny Chin rejeitou um polêmico acordo de US$ 125 milhões que o Google alcançou com editores

Usuário mexe em computador no stand do Google: o juiz federal Denny Chin rejeitou um polêmico acordo de US$ 125 milhões que o Google alcançou com editores

Nova York – Um tribunal federal de apelações de Nova York autorizou o Google a apelar de uma decisão judicial prévia que permitiu que milhares de autores de livros abrissem um processo coletivo contra a empresa, reivindicando uma compensação pela digitalização de suas obras para a biblioteca virtual.

A decisão foi publicada no Segundo Circuito do Tribunal de Apelações e já pode ser consultada nesta quarta-feira nos registros eletrônicos do sistema judiciário americano. Na publicação, o tribunal não oferece detalhes sobre os motivos da decisão neste sentido, que representa uma pequena vitória do Google na longa batalha judicial que mantém há anos com o Sindicato de Autores e a Associação de Editores Americanos.

Desde o início do conflito em 2005, o Google se defende das críticas respondendo que seu objetivo é criar “a maior biblioteca da história“, uma iniciativa “em prol do conhecimento da humanidade”, e se compromete também a seguir a política de retirar imediatamente qualquer livro cujo autor assim o peça.

Em março de 2011, o juiz federal Denny Chin rejeitou um polêmico acordo de US$ 125 milhões que o Google alcançou com editores e autores dos Estados Unidos para digitalizar suas obras e criar a maior biblioteca e livraria virtuais do mundo, ao considerar que tal ação “não é justa, nem adequada, nem razoável”.

Um ano antes, em 2010, grandes empresas como a Microsoft e o Amazon, assim como vários governos europeus, pediram à Justiça americana que rejeitasse o acordo, porque, para eles, o acordo violaria a legislação de direitos autorais de propriedade intelectual e outorgaria ao Google uma situação privilegiada.

Nesta quarta-feira, pouco antes do fechamento dos mercados, as ações da empresa registravam baixa de 0,56% e eram negociadas a US$ 664,92 no Nasdaq, onde os títulos sofreram desvalorização de 2,96% em 2012 e 19,34% nos últimos 12 meses.

Exame | 15/08/2012