Para editoras e livreiros


Por Camila Cabete | Texto publicado originalmente em PublishNews | 31/05/2012

Esta não é uma declaração, nem carta aos queridos colegas de trabalho. Mas só um brainstorm… Resolvi listar, em dois tópicos, tudo o que cada um deve ou pode [depende de seu ponto de vista] fazer com sua “carga” digital. Vamos falar em linguagem metadática, ok? [Acabei de inventar isso…] Quis dizer que não vou me aprofundar, só jogar no ar muitas coisas que venho estudando, falando e vivenciando.

Para as editoras:

– Distribuir livros em seu próprio site com DRM social.
– Distribuir um livro de graça com patrocínio de alguma empresa privada.
– Distribuir de graça um livro com subsídio de uma empresa parceira.
– Transformar a pré-venda em um aplicativo com três capítulos de graça [depois dá para vender espaços dentro do aplicativo – as empresas já separam orçamento de marketing para isso, sabia?].
– Fazer de um livro infantil um minigame em formato aplicativo.
– Fazer vendas institucionais. Sabia que o governo compra? Sabia que empresas privadas compram?
– Enviar os exemplares para imprensa e professores em formato digital [muito mais barato!].
– Vender o e-book com um tweet [procure no Google “compre com um tweet”].
– Melhorar seus contratos de edição, já prevendo várias possibilidades de comercialização, aluguel, e o que o mais for possível.
– Usar agregadores para centralizar o controle e distribuir com eficiência seu acervo.
– Fechar ações de marketing com os lojistas ebookeiros.
– Conhecer seus lojistas, ter o Skype deles, conhecer pelo nome.
– Não restringir a venda de seus e-books. Se um blog está sob a chancela de um agregador, o que o impediria de vender? Elitização de acervo é coisa do impresso, gente!
– Coloque seu frontlist em digital!

Para os ebookeiros [lojistas de e-books]

– Estude o mercado.
– Saiba quem é seu público.
– Paguem por marketing, vocês vivem disso!
– Fechem parcerias com blogs, formadores de opinião.
– Premie.
– Fechem vendas corporativas. As editoras precisam de loja que entregue o conteúdo.
– Trabalhem as mídias sociais, façam promoções, sorteios, competições…
– Procurem instituições de ensino, fechem convênios.
– Façam cartões com códigos para os clientes presentearem com e-book, ou façam lançamentos de autores com cartões, com espaço para o autógrafo. Aluguem um bom espaço cultural para isso.
– Façam lançamentos on-line, via stream.
– Tenham um bom atendimento, sempre!
– Ofereçam serviços! Usem a criatividade!
– Trabalhem pensando em soluções para dispositivos móveis.

O mais importante disso tudo é quebrar paradigmas, conhecer seu produto, consumir [pelo amor dos deuses! Consuma para saber do que estamos falando!]. Use a mente para rentabilizar seu negócio. Aproveitem para serem pioneiros. Ainda há chance.

Por Camila Cabete | Texto publicado originalmente em PublishNews | 31/05/2012

Camila Cabete [@camilacabete] tem formação clássica em História, mas foi responsável pelo setor editorial de uma tradicional editora técnica por alguns anos [Ciência Moderna]. Hoje, é responsável pelo setor editorial da primeira livraria digital do Brasil, a Gato Sabido [@gatosabido]. É ainda consultora comercial da Xeriph, a primeira distribuidora de conteúdo digital do Brasil e sócia fundadora da Caki Books [@cakibooks], uma editora cross-mídia que publica livros em todos os formatos possíveis e imagináveis. Vive em Copacabana e tem uma gata preta chamada Lilica.

A coluna Ensaios digitais é um diário de bordo de quem vive 100% do digital no mercado editorial brasileiro. Quinzenalmente, às quintas-feiras, serão publicadas novidades, explicações e informações sobre tecnologias ligadas a área literária.

O interesse público e o interesse das publicadoras


Quem costumava acessar o site Livros de Humanas para baixar livros [na grande maioria, ensaios acadêmicos], passou a encontrar lá somente a mensagem: “estamos fora do ar porque recebemos notificação judicial da abdr.” A Associação Brasileira de Direitos Reprográficos achou por bem exigir o encerramento do site, cumprindo suas funções de “combate e punição à pirataria editorial, que constitui crime contra os autores, tradutores, revisores e outros profissionais […] do livro, além de ofender a noção de cidadania”.

A medida, que se revestia de “defesa do direito do autor”, também recebeu pesadas críticas de… autores, que se juntaram à multidão de leitores, quase todos estudantes universitários, indignados com o que chamaram de “barreira no acesso à informação”. No momento em que este artigo é escrito, o site que reúne o protesto contra o fechamento passa de mil subscritores, quase todos “graduandos” e “mestrandos”.

O discurso dos autores a favor do site é que, ao fim e ao cabo, o interesse do escritor é ser lido, e o livrosdehumanas.org cumpria de modo mais eficiente a função de “publicar” do que as próprias editoras. Também foi questionada a autoridade da ABDR para falar em nome dos autores [entre seus 102 afiliados, apenas a UBE, representa a classe] e sua ingerência sobre textos de domínio público e de ensaios disponibilizados pelos próprios autores. Também argumentou-se que, se não havia cobrança, não havia crime, já que a ABDR define que “a reprodução ilegal de livros, com intuito de lucro direto ou indireto, que constitui crime”. Com o site, as editoras talvez deixem de ganhar dinheiro, mas estão certamente perdendo uma oportunidade.

Ronaldo Lemos, que é membro do Conselho Nacional de Combate à Pirataria e diretor do Creative Commons no Brasil mostra que o caso do livrosdehumanas é apenas um sintoma do momento de descompasso entre o que a tecnologia permite e o que os membros da cadeia produtiva oferecem aos leitores.

O conflito principal ocorre pela ausência de possibilidades de acesso eletrônico legal. Esses mesmos livros que a ABDR tirou do ar, as pessoas não têm como acessar. Um dos aspectos a ser discutidos é se a existência desses serviços de venda digitalmente também não desestimularia a necessidade de existência de sites como esses. Se o preço fosse bom e fácil, o site não teria razão de ser.

Essa é a questão. Ao dar as costas para os canais digitais, as editoras estão indo contra sua função de “publicadoras”. O acesso livre e gratuito ao livro sempre existiu, e atende pelo nome de “biblioteca”. Foi encontrada uma solução econômica [entre autores, editores, governos e universidades] que viabilizou o acesso gratuito [ou quase] ao leitor. É preciso encontrar uma solução equivalente na era da publicação digital.

Essa solução tem que ser baseada na inversão da lógica atual do livro. Não dá mais para esperar grandes margens de pequenas tiragens, é preciso pensar em margens infinitesimais sobre tiragens infinitas.

Como bem diz Felipe Lindoso,

A multiplicação das possibilidades de acesso deve contribuir para a diminuição do preço para cada acesso individual. Os conteúdos podem e devem ser disponibilizados a um preço condizente para que todos os interessados possam acessá-los. Se isso não for feito dessa maneira, o espaço para a pirataria, a reprodução ilegal, estará definitivamente aberto. Não vai adiantar ter mecanismos de tranca [DRM] ou instituições ‘caça pirata’ que nem a ABDR. Essa é uma luta inútil, destinada à derrota.

A resposta “digital” da ABDR à anarquia seria a Pasta do Professor, um portal no qual “as editoras disponibilizam os seus conteúdos de forma fracionada e os professores criam pastas-do-professor virtuais”. Assim, quem precisar ler o único capítulo que importa em A ética protestante e o espírito do capitalismo não precisará comprar o livro todo [entre R$ 14,90 e R$ 48 na Livraria Cultura], e pagará meros R$ 2,50. O preço é justo, mas o método é obtuso: o leitor pode consultar a ficha do texto pela internet, mas, para lê-lo, tem de se dirigir a uma copiadora cadastrada [no meu caso, fica a meia hora, com bom trânsito, da minha casa]. Se eu me dispuser a ir lá buscar as 14 páginas, estarei, segundo o projeto, quitando o que devo de direitos autorais — ainda que Max Weber tenha entrado em domínio público em 1990. Posso até considerar que estou salvaguardando os direitos do tradutor, se alguém me mostrar algum tradutor brasileiro que ganha por exemplar vendido. Assim, a “pasta do professor” da ABDR é uma solução que não soluciona, criando barreiras entre o leitor e o texto ao tentar manter um status quo que não funciona. É preciso mudar tudo para que tudo continue como está.

Mais próximas de uma “solução” são iniciativas como a empregada nas faculdades Estácio de Sá, onde o aluno “ganha” um tablet com o conteúdo didático, previamente licenciado pela instituição junto às editoras. Ou o projeto Nuvem de Livros, onde, por uma módica tarifa semanal, têm-se acesso a um amplo acervo, e que remunera as editoras na medida em que os livros de seu catálogo são lidos. Ambos os projetos têm o que melhorar [no primeiro, os textos vêm no inflexível formato PDF e, no segundo, os livros só podem ser “folheados” on-line], mas já representam avanços na relação entre editoras e leitores empregando os recursos digitais.

No exterior, tivemos há pouco um caso semelhante ao do livrodehumanas: a library.nu, baseada na Alemanha e de alcance mundial. Neste site, estudantes também compartilhavam textos acadêmicos, entre livros escaneados e e-books “destravados”. Nada era vendido, mas o site aceitava doações — o que, ironicamente, decretou seu fim, já que as autoridades conseguiram rastrear a conta do PayPal e encerraram a festa.

Na opinião de Christopher Kelty, que compara o fechamento da library.nu com um duelo entre leitores e editores, as empresas “legacy” que perdem seu tempo tentando fechar canais “alternativos” em vez de desenvolver novas maneiras de lidar com os leitores estão alienadas da nova realidade: “a demanda global por aprendizado e escolaridade não está sendo atendida pela indústria editorial contemporânea. E não pode ser atendida, com os atuais modelos de negócios e preços. Os usuários da library.nu — esses bárbaros aos portões da indústria editorial e da universidade — são a legião.”

Agora, quem acessar o site library.nu achará um campo de busca do Google Books e um anúncio da Amazon. A multidão de leitores solidários foi substituída por duas megacorporações.

A indústria fonográfica saiu dos escombros para descobrir que a força dominante não é mais a que produz [Sony, EMI, Warner etc], mas a que distribui [Apple]. O mesmo processo — de transferência de poder das produtoras para a distribuidora — está ocorrendo na indústria editorial, mas as editoras [algumas delas, pelo menos] estão mais atentas. Ao mesmo tempo, está se desenhando uma força dominante no negócio de “biblioteca virtual”, e talvez seja aquela que será dirigida por Robert Darnton, aquele mesmo que defendeu “A causa dos livros”.

Para ele, o futuro das bibliotecas com a digitalização é “o acesso aberto. Abrir os tesouros intelectuais guardados nas nossas grandes bibliotecas de pesquisa, como a de Harvard, para o mundo. Recebi a incumbência de criar a Biblioteca Pública Digital da América, e há dois anos estamos trabalhando para criar um novo tipo de biblioteca. Vamos pegar coleções digitais de todas as grandes bibliotecas do país e usá-las como base de uma grande coleção de livros que ficará disponível de graça para todo mundo no mundo. Vamos estrear em abril do ano que vem. Será uma versão preliminar, mas vai crescer até um dia, eu acho, superar a Biblioteca do Congresso, a maior do mundo”.

As editoras podem se dedicar a criminalizar a leitura digital, e isso vai ser tão eficiente quanto a criminalização da maconha: os estudantes sempre dão um jeito de conseguir, e serão estimulados pelo desafio da “proibição”. A demanda cria a oferta. Se essa oferta não vier das editoras, empregando os recursos digitais de uma maneira economicamente viável, virá de “alternativas” como o livrosdehumanas, ou nos restringiremos a só ler o que grandes corporações estrangeiras, como a Google, a Amazon ou a “Biblioteca da América” de Darnton decidirem.

Por Julio Silveira | Publicado originalmente em Publushnews | 31/05/2012

Julio Silveira é editor, formado em Administração, com extensão em Economia da Cultura. Foi cofundador da Casa da Palavra em 1996, gerente editorial da Agir/Nova Fronteira e publisher da Thomas Nelson. Desde julho de 2011, vem se dedicando à Ímã Editorial, explorando novos modelos de publicação propiciados pelo digital. Tem textos publicados em, entre outros, 10 livros que abalaram meu mundo e Paixão pelos livros[Casa da Palavra], O futuro do livro [Olhares, 2007] e LivroLivre [Ímã]. Coordena o fórum Autor 2.0, onde escritores e editores investigam as oportunidades e os riscos da publicação pós-digital.

A coluna LivroLivre aborda o impacto das novas tecnologias na indústria editorial e as novas formas de relacionamento entre seus componentes — autores, agentes, editores, livrarias e leitores. Ela é publicada quinzenalmente às quintas-feiras.

A Amazon é “predatória”, diz a Penguin


Editoras se defendem das acusações de cartel para fixar preços de e-books

A Penguin e a Macmillan, as únicas editoras que resolveram enfrentar nos tribunais as acusações do Departamento de Justiça dos Estados Unidos de que, junto com a HarperCollins, Simon & Schuster, Hachette e Apple, fizeram um conluio ao adotar o modelo de agenciamento e fixar os valores dos e-books, impedindo a redução de preços praticada especialmente pela Amazon, enviaram documentos com suas defesas na terça-feira, 29 – as outras editoras fizeram acordos com a Justiça americana.

Nos documentos, a Penguin acusou a Amazon de ter um comportamento “predatório” e “monopolista”, que poderia vir a prejudicar a indústria editorial no longo prazo. A editora argumentou ainda que a maior parte das conversas entre as editoras, usadas pela Justiça americana como prova de que elas fizeram um cartel, eram na verdade discussões sobre o “Projeto Z” – agora revelado como o aNobii – e o “Projeto Muse”, que é o Bookish.

A Macmillan também negou qualquer comportamento anticoncorrencial e afirmou que não há “nenhuma prova direta de conspiração”. Na semana passada, a Apple, que também não fez acordo e foi para os tribunais, argumentou em sua defesa que o governo estava se aliando ao “monopólio, e não à concorrência”. Com informações do site da The Bookseller.

PublishNews | 31/05/2012