Apple é processada nos EUA por preços de livros eletrônicos


O Departamento da Justiça dos Estados Unidos abriu processo contra a Apple e cinco das maiores editoras de livros do planeta, na quarta-feira, alegando conluio para elevar os preços dos livros eletrônicos, o que pode ter custado “dezenas de milhões de dólares” aos consumidores.

A queixa, apresentada no distrito sul da Justiça federal em Nova York, alega que executivos da Apple e das editoras chegaram a um acordo para adotar resposta comum à política de preços da Amazon, por meio de conversas telefônicas, troca de e-mails e refeições em “salas privativas de restaurantes finos de Manhattan“. A Amazon, que vinha desafiando o setor com um preço máximo de US$ 9,99 para os livros eletrônicos, não foi citada entre os acusados.

As editoras acusadas no processo são o Hachette Book Group, parte do grupó Lagardère; a HarperCollins, da News Corp; a Holtzbrinck, controladora da Macmillan; a Simon & Schuster, subsidiária da CBS; e a Penguin, controlada pelo grupo Pearson, também controlador do “Financial Times”.

O Departamento da Justiça alegou que a Apple e as editoras elevaram os preços dos best sellers em entre US$ 2 e US$ 5 ao introduzir um modelo de negócios de “agência”, simultaneamente ao lançamento do tablet Apple iPad, sob o qual os preços de varejo são determinados pelas editoras. A insistência da Apple em uma cláusula de proteção sob a qual as editoras se comprometem a não vender seus livros a preço mais baixo para outros grupos de varejo – e a pagar 30% de comissão à Apple sobre cada venda – forçou outros grupos de varejo a adotar termos semelhantes, de acordo com o departamento.

Executivos dos escalões mais elevados das empresas citadas nos processos de hoje, preocupados com a redução de preços promovida pelo varejo de livros eletrônicos, agiram de modo coordenado para eliminar a concorrência entre as lojas que vendem livros eletrônicos, o que resulta em aumento do preço final para os consumidores“, afirmou o secretário federal da Justiça norte-americano, Eric Holter, ao anunciar o processo em Washington.

O iBooks, plataforma de e-books da Apple, foi anunciado no evento de lançamento do iPad, em janeiro de 2010 | Kimberly White - 27.jan.10/Reuters

O iBooks, plataforma de e-books da Apple, foi anunciado no evento de lançamento do iPad, em janeiro de 2010 | Kimberly White - 27.jan.10/Reuters

ACORDOS

A Hachette, HarperCollins e Simon & Schuster aceitaram acordo imediato para encerrar os processos contra elas, mas a Apple, MacMillan e Penguin pretendem contestar as acusações no tribunal.

Um processo separado envolvendo diversos Estados norte-americanos trouxe acusações semelhantes contra a Apple, Macmillan, Simon & Schuster e Penguin. A Hachette e a HarperCollins vão pagar US$ 52 milhões aos Estados para encerrar os processos contra elas.

Joaquin Almunia, vice-presidente de política de competição da União Europeia, acrescentou que a Apple, Simon & Schuster, HarperCollins, Hachette e Holtzbrinck haviam recomendado possíveis mudanças em suas operações de negócios, como parte de um esforço para concluir uma investigação paralela europeia sobre livros eletrônicos.

Nem todas as editoras envolvidas comentaram de imediato, mas já haviam negado anteriormente qualquer conluio para aumento de preços, e defenderam o modelo de “agência” como uma forma de promover maior competição ao desafiar o domínio da Amazon sobre o mercado de livros eletrônicos, que vem crescendo rapidamente.

O processo federal norte-americano alega que Steve Jobs, presidente-executivo da Apple morto no ano passado, havia se envolvido pessoalmente na adoção do modelo de agência. “A Apple claramente compreendia que sua participação no esquema resultaria em preços mais altos para os consumidores“, o processo alega. Também cita Jobs como tendo declarado que “o consumidor pagará um pouco mais, mas é isso que vocês [as editoras] querem, de qualquer modo“. Um porta-voz da Apple se recusou a comentar.

REUNIÕES

De setembro de 2008 até 2009, os presidentes-executivos das editoras supostamente realizaram reuniões trimestrais para discutir “assuntos confidenciais e mercados competitivos, o que incluía as práticas de varejo de livros eletrônicos da Amazon“, afirmou o Departamento da Justiça. O departamento menciona jantares executivos dos quais participaram John Makison, da Penguin, e John Sargent, da Macmillan, na “adega do chef”, uma sala privada no restaurante Picholine, em Nova York.

O acordo, que terá de ser aprovado pelo tribunal, requereria que a Hachette, HarperCollins e Simon & Schuster permitam que grupos de varejo como a Amazon e a Barnes & Noble determinem os preços que preferirem para os livros eletrônicos. Também requereria que suspendam sua preferência à Apple e que não troquem informações importantes sobre assuntos de competição por pelo menos cinco anos.

A HarperCollins anunciou o acordo sem admitir culpa, e o definiu como “decisão de negócios para encerrar a investigação do Departamento da Justiça e evitar uma batalha judicial potencialmente longa“.

POR DAVID GELLES & ANDREW EDGECLIFFE-JOHNSON | DO “FINANCIAL TIMES” | Tradução de PAULO MIGLIACCI | Publicado por Folha.com | 11/04/2012 – 12h19

Software livre aplicado aos eBooks


Por Octavio Kulesz | Publicado originalmente em PublishNews | 11/04/2012

Kovid Goyal, criador do Calibre

Kovid Goyal, criador do Calibre

Graças a sua interface atrativa e sua ampla gama de possibilidades, o Calibre conseguiu se posicionar como um dos programas de código aberto mais utilizados no mundo do e-book. Com ele, o usuário pode converter seus livros em diferentes formatos e administrar suas bibliotecas de títulos e metadados. Nesta entrevista, conversamos com o expert indiano Kovid Goyal, criador do Calibre, sobre diferentes aspectos da indústria do e-book, bem como sobre seus planos para o futuro.

OK: O Calibre foi desenvolvido como um programa que precisa ser instalado no computador. Existe demanda para uma versão em nuvem, agora que os e-readers têm mais conectividade?
KG: O Calibre inclui um servidor de conteúdo que permite compartilhar nossa biblioteca na internet. Também estamos trabalhando com diferentes soluções em nuvem que em breve vão estar prontas, mas se tratará de um serviço pago, já que esse tipo de sistema implica gastos de hospedagem.

OK: Você tem estatísticas sobre o uso do Calibre para telefones celulares?
KG: Na verdade, não. No momento estou compilando informação sobre quais dispositivos se conectam ao Calibre.

OK: Qual sua opinião sobre sistemas fechados como o Kindle, da Amazon, ou o Nook, da Barnes & Noble? Que futuro terá o DRM, em seu ponto de vista?
KG: Considero que os esforços empreendidos por essas empresas para dominar o mercado são tolos e de curto-prazo. Um dos meus principais objetivos com o Calibre foi proporcionar uma plataforma de administração de e-books o mais aberta e independente possível. Do meu ponto de vista, o DRM é ficção: de fato, não consegue evitar a pirataria. Seu único efeito é prender o cliente. Para combater o DRM, minha esposa e eu começamos a trabalhar na Open Books, uma base de livros que são vendidos sem DRM.

OK: Atualmente, a indústria do e-book se assemelha a uma torre de Babel, com vários jogadores tentando impor seus próprios formatos. Nesse contexto, o Calibre operaria como tradutor entre essas diferentes “linguagens”?
KG: Certamente essa é uma das funções mais importantes do Calibre. Na medida em que se usa material livre de DRM [ou que se elimina o DRM da cópia de um e-book], o Calibre te permite ler esse livro em qualquer formato e dispositivo.

OK: De acordo com alguns números apresentados no site do Calibre, a maioria dos downloads do programa é feita nos Estados Unidos [25%], Espanha [8,8%], Reino Unido [7,7%] e Alemanha [7,4%], isto é, em nações industrializadas, enquanto países em desenvolvimento ou emergentes como o Brasil, Índia ou África do Sul apenas representam pouco mais de 1%. Como você explica esse fenômeno?
KG: Os e-readers são caros. Se alguém não paga esse preço, não pode ler seu primeiro e-book. Por outro lado, a maioria dos e-readers requerem em algum momento uma conexão com um computador para funcionar. Essas duas exigências implicam certamente uma desvantagem comparativa nos mercados em desenvolvimento. No entanto, a situação vai mudar quando os e-readers se tornarem mais baratos [ou se transformarem em dispositivos multifuncionais] e os padrões de vida melhorarem nesses países.

OK: Apesar dos números relativamente baixos, você vê algum potencial em particular para o Calibre nas regiões em desenvolvimento, agora que vários governos – com o indiano – estão prontos para produzir massivamente tablets e outros dispositivos de leitura adaptados às necessidades do leitor local?
KG: Com certeza, o fato de o Calibre ser livre e de código aberto transforma-o em uma ferramenta muito útil para os orçamentos mais exíguos! Dito isto, pessoalmente prefiro não trabalhar com organizações muito grandes nem com governos. Embora os governos sejam bem-vindos a utilizar o Calibre se o considerarem útil, não é algo que eu esteja encorajando ativamente.

OK: Você voltou para a Índia no ano passado. Essa é uma decisão de longo prazo? Você continuará trabalhando em desenvolvimentos de código aberto em seu país?
KG: Mudei para os Estados Unidos unicamente para obter meu doutorado. Meu projeto sempre foi regressar à Índia assim que meus estudos estivassem terminados. A Índia é meu lar. Sobre o que farei no futuro, não dá para defini-lo completamente, já que o Calibre foi uma espécie de acidente, algo que ocorreu quando eu estava na universidade. Geralmente, tento não prever meu futuro, mas continuo trabalhando com software, e seguramente no terreno do código aberto.

OK: Logo em sua primeira versão, o Calibre recebeu uma generosa contribuição de um grande numero de pessoas – uma comunidade ativa de programadores, designers e tradutores. O que será que motivou essas pessoas a contribuir com o projeto? E no seu caso, qual foi sua motivação?
KG: A maioria das pessoas contribuiu com o Calibre por duas razões. 1] O colaborador agrega uma característica de que necessita e vê que ela é útil. 2] O colaborador o faz porque é divertido e o considera um desafio do ponto de vista técnico. Trabalhei incansavelmente para que qualquer pessoa pudesse contribuir com o código do Calibre de um modo muito simples. Implementar uma melhoria no Calibre pode levar literalmente cinco minutos. O programa conta com um sistema de extensões muito bem documentado que permite aos usuários conectar quase qualquer aspecto da sua funcionalidade com aplicativos externos. Esses esforços deram frutos e por isso existe uma comunidade tão ativa. Agora, do lado pessoal, criei o Calibre porque meu primeiro e-reader, o SONY PRS-500, não funcionava com o Linux, o sistema que eu uso. O Calibre, que começou com o nome de libprs500, não parou de crescer desde então!

Finalmente, eu diria que é essencial trabalhar em iniciativas como o Calibre, porque os livros e a leitura não podem depender de software proprietário nem de corporações motivadas unicamente pelo lucro.

Por Octavio Kulesz | Publicado originalmente em PublishNews | 11/04/2012

Octavio Kulesz

Octavio Kulesz

Octavio Kulesz é formado em Filosofia pela Universidade de Buenos Aires e atualmente dirige a Teseo, uma das principais editoras digitais acadêmicas da Argentina. Em 2010, criou a rede Digital Minds Network, junto com Ramy Habeeb [do Egito] e Arthur Attwell [da África do Sul], com o objetivo de estimular o surgimento de projetos eletrônicos em mercados emergentes. Em 2011, escreveu o renomado estudo La edición digital en los países en desarrollo, com apoio da Aliança Internacional de Editores Independentes e da Fundação Prince Claus.

Sua coluna Sul Digital busca apresentar um panorama dos principais avanços da edição eletrônica nos países em desenvolvimento. Tablets latino-americanos, leitura em celulares na África, revoluções de redes sociais no mundo árabe, titãs do hardware russos, softwares de última geração na Índia e colossos digitais chineses: a edição digital no Sul mostra um dinamismo tanto acelerado quanto surpreendente.

Os Não eBooks


Livros digitais da editora gaúcha serão pelo menos 50% mais baratos que os impressos

A Não Editora, sediada em Porto Alegre, lançou seus primeiros 13 e-books na semana passada, e eles podem ser encontrados nas prateleiras virtuais da Gato Sabido, Iba, Saraiva, Travessa, Curitiba e Leitura, entre outras lojas on-line. A editora garante: os preços dos livros digitais serão sempre pelo menos 50% menores do que as versões físicas dos títulos, quando o desconto médio no mercado fica em torno de 30%. Os e-books, que você pode conferir no site da Não, foram todos lançados em PDF – o que, segundo a casa, preserva os projetos gráficos criados para a versão impressa dos livros –, e alguns também estão em formato ePub.

PublishNews | 11/04/2012

Yendis aposta em plataforma digital


Quando o tema é o mercado do livro digital, uma das poucas certezas que se tem é que ainda existe muita incerteza nesse campo. Há cerca de dois anos, depois de observar por algum tempo o que se passava no mercado editorial norte-americano em relação ao livro digital, os editores brasileiros realmente começaram a se envolver e investir na área. E, entre eles, há um certo consenso de que a preocupação primária da editora deve ser o conteúdo, deixando a batalha por formatos e aparelhos para outros nichos da indústria.

No entanto, uma editora acaba de anunciar uma parceria que vai muito além da produção do livro no formato digital. A Yendis, baseada no ABC paulista, cujo foco são livros técnicos na área de medicina e saúde e as vendas porta a porta, anunciou uma parceria com a japonesa Access, empresa focada no desenvolvimento de softwares e no comércio B2B, tida como líder do mercado de browsers para dispositivos móveis no Japão. A parceria visa posicionar a Yendis não apenas como uma fornecedora de conteúdo, mas como provedora de soluções para o mercado de livro digital, principalmente na categoria CTP.

A Yendis representará no Brasil o “Digital Publishing Ecosystem”, plataforma da Access que pode ser customizada para livros digitais; e a editora brasileira pretende entregar essa plataforma customizada para cada cliente, tornando-a uma competitiva opção como plataforma para aplicativos em tablets para livros científicos, técnicos e profissionais [os conhecidos CTP]. “Os nossos clientes poderão usar esse sistema digital para prover material de treinamento com facilidade em tablets, ampliando assim a oferta atual de produtos da Yendis”, afirma Maxwell Medeiros Fernandes, presidente da Yendis Editora.

A nova plataforma, que deve chegar ao mercado ainda este ano, trabalhará com diferentes formatos de e-book – do PDF ao ePub3 –, não tem a pretensão de fazer contratos de exclusividade e oferecerá, inclusive, serviços de conversão de arquivo, dependendo da necessidade do seu cliente. A Yendis pretende focar em nichos específicos de negócios e destaca como um dos pontos fortes da plataforma da Access a gestão de conteúdo. “Nosso objetivo é fazer com que o conteúdo esteja onde precisa estar”, comentou Marcus Vinicius Barili Alves, Publisher da Yendis.

Segundo Maxwell, presidente da editora, o mercado porta a porta está avançando no mundo digital, mas, para que o conteúdo chegue até ao consumidor final, o modelo atual não atende as necessidades. “Por isso buscamos um novo modelo, que fornece soluções customizadas que não são simples ‘white label’, e que permitirá entregar o conteúdo a quem consome”, explicou Max.

PublishNews | 11/04/2012

Novo embate entre a Amazon e as Big Six


Reportagens de sites no exterior afirmam que as maiores editoras do mundo se recusaram a assinar o contrato anual com a varejista on-line

As relações de boa parte do mercado editorial com a Amazon, pelo menos nos Estados Unidos, já são temperadas por doses de rancor e revolta em relação ao domínio da gigante. Elas agora ganharam um pouco mais de pimenta. De acordo com uma reportagem divulgada no Salon, as chamadas Big Six –HarperCollins, Random House, Hachette, Simon & Schuster, Penguin e Macmillan – pela primeira vez se recusaram a assinar o contrato anual com a Amazon, especialmente devido ao aumento “exorbitante” de certo tipo de taxa promocional sobre e-books cobrada pela empresa. Segundo a matéria, que cita um editor a par do assunto, em alguns casos a Amazon elevou os valores em 30 vezes em relação a 2011. O assunto repercutiu e outra reportagem no PaidContent informou que pelo menos duas das seis grandes editoras se recusaram a assinar os contratos. O texto ressalta, contudo, que os títulos de todas as casas continuam à venda no site da varejista de Seattle. As seis editoras, junto com a Apple, continuam sendo investigadas nos EUA e no Reino Unido sob suspeita de terem decidido conjuntamente, de forma ilegal, pela implementação do “modelo de agenciamento” para venda de e-books, diferente do modelo de distribuição, que a Amazon aplica.

PublishNews | 11/04/2012