Bibliotecas e editoras têm interesses diferentes


Por Mike Shatzkin | Publicado originalmente em Publishnews | 07/03/2012

Mike Shatzkin

Uma vez que as bibliotecas representam 5% do negócio de uma editora comercial e uma porcentagem bem menor do negócio de e-books, que o mercado está mudando muito rapidamente e, ainda, que toda livraria, exceto a Amazon, está lutando para manter uma posição sustentável no mercado global de e-books, acredito que há muitas razões legítimas para que as grandes editoras tomem uma posição de “esperar para ver” na questão bibliotecas e e-books. O medo é a criação de uma experiência de “compra e consumo” nas bibliotecas que seja comparável ao que as livrarias podem oferecer. Esse potencial é atenuado agora porque a maioria dos livros importantes não está nas bibliotecas. Mas, se entrarem, as editoras temem que o consumidor deixe de “frequentar” livrarias.

Este medo não tem a ver só com as “perdas das vendas”. Está relacionado também com um “canal perdido” de venda ou uma conexão com o consumidor que passa inteiramente pela Amazon.

Claro, as bibliotecas veem isso de forma diferente porque os principais livros das grandes editoras são bem mais do que 5% do interesse de seus associados. Este é um desequilíbrio que explicaria a diferença na atitude das partes em jogo, para qualquer um que aceite esta realidade. Quer dizer, o eterno “instinto de autopreservação” leva as bibliotecas e as editoras a conclusões um tanto quanto diferentes sobre qual é o melhor futuro e com que rapidez a indústria deveria ir nessa direção.

Quando falei isso numa lista de discussão, provoquei uma pergunta de alguém que defende o ponto de vista das bibliotecas: “Eu estava dizendo que o medo principal é que a Amazon poderia ‘dominar’ a experiência de empréstimo, e que o canal tradicional da biblioteca e qualquer venda que essa experiência pudesse gerar estaria perdido? Ou eu estava falando outra coisa?”.

Bom, eu realmente não tinha pensado nisso, apesar de que a forma como as bibliotecas colaboraram com a OverDrive para estruturar o acordo para os empréstimos da Amazon fez com que essa possibilidade ficasse mais forte do que antes.

O que eu dizia era que já existe a possibilidade de estarmos a caminho de ter uma única livraria para e-books e impressos vendidos on-line, chamada Amazon. Todo canal para o consumidor, tanto bibliotecas quanto livrarias [independente de saberem disso ou não] estão na verdade lutando por suas vidas digitais. As editoras não querem fazer nada que enfraqueça Kobo, Google, Barnes & Noble, ou qualquer um oferecendo algum canal comercial aos clientes. É percebido [intuitivamente, sem dados, apesar de que eu argumentaria na verdade que há grandes limitações ao valor dos dados porque estamos falando sobre as consequências já que o ecosistema muda com o tempo] que dar formas para os consumidores conseguirem o que querem sem pagar por isso enfraquece as outras livrarias.

E não poderíamos dizer, pelo comportamento da Amazon de encorajar os empréstimos através de bibliotecas e fora delas, que talvez eles estejam vendo esta possibilidade também?

Eu sempre espero que uma entidade aja em seu próprio interesse, especialmente quando sua sobrevivência está envolvida [e a Amazon, com o preço de suas ações e enfrentando a possibilidade de perder as vantagens nos impostos nos Estados Unidos, também deve pensar assim]. Acho que todos deveríamos entender que pessoas inteligentes de todos os lados sabem que estão lutando para sobreviver. Isso inclui a Amazon, as editoras, as livrarias concorrentes e as bibliotecas. Nosso problema é que os interesses não se alinham e acho que as pessoas, às vezes, têm problemas em aceitar que esse alinhamento talvez nunca aconteça.

O fã da biblioteca, ao tentar entender “meu argumento”, retrucou se eu estava sugerindo que cada empréstimo de biblioteca poderia se traduzir numa perda de venda; e mesmo se fossem divididas proporcionalmente, eu estava sugerindo que a concorrência da Amazon perderia mais do que ela?

Mas eu realmente não estava tentando escolher um lado ou apoiar qualquer posição particular nessa disputa. Não tenho claro pessoalmente se os empréstimos de bibliotecas estimulariam ou canibalizariam; e de qualquer forma não podemos assumir que a situação de hoje persistiria num futuro diferente. E não acho que as preocupadas editoras estão pensando na venda em si; o que estão pensando é no ecossistema geral que está se desenvolvendo.

Ainda bem que não sou uma grande editora que precisa tomar essas decisões. Só decido quando preciso e no momento, na verdade, estou deliberando sobre uns poucos livros que controlo; e sem ainda ter tomado uma posição. Mas independente do que eu fizer, não assumiria que a Simon & Schuster deveria fazer a mesma coisa [em algum momento da semana que vem terei de decidir sobre DRM e sobre empréstimos a bibliotecas em relação a alguns e-books que herdei os direitos e arquivos POD, do meu pai].

Há muitos caminhos, desde o que a OverDrive já está fazendo para a Bloomsbury até a ideia de “emprestar um aparelho” da 3M e o conceito de assinatura da Recorded Books e a negação total, todas táticas razoáveis no mercado atual. As pessoas não perdem muito ficando de fora nem se arriscam muito se entrarem neste momento [quando a tecnologia ainda está bastante antiquada e a maioria dos livros importantes não está disponível]. A Random House está ganhando alguma vantagem da situação de forma muito hábil e sem dúvida deixando a concorrência das Big Six muito brava, assim como fizeram quando demoraram a adotar o modelo de agência [continuam a suprir as bibliotecas sem limitação, mas subiram os preços das “edições de bibliotecas” de seus e-books].

Realmente não quero fazer julgamentos porque há muitas coisas que não sei sobre a situação de cada empresa, onde elas estão equilibrando o relacionamento com os agentes e, no caso das três editoras que estão investindo na Bookish nos EUA e as outras duas investindo na Anobii, no Reino Unido, quais os planos para desenvolver um canal próprio. Mas acho que a maioria de nós concorda que o valor recebido por leitura que as editoras grandes serão capazes de ganhar provavelmente vai cair [alguns otimistas argumentariam que o número de leituras vai subir, mas, claro, isso é um conforto questionável se o número de livros disponíveis também crescer, e isso vai acontecer]. Então, as editoras estão bem conscientes disso, de uma forma que elas nunca tiveram de pensar antes, quando o preço do que vendiam estava amarrado pelas realidades físicas.

Essas não são decisões morais, são comerciais [mesmo quando são feitas por entidades sem fins lucrativos]. Eu acho que as editoras menores conseguirão tirar mais vantagem desta situação em que as Big Six não estão nas bibliotecas, conseguindo mais vendas e maior facilidade em fazer com que seus livros sejam descobertos [talvez da mesma forma que a Random House, a preços premium!]. Se as vendas superarem os riscos ou as consequências negativas, então as Big Six voltarão e este pedaço do mercado vai mudar novamente em detrimento das editoras novas. Enquanto isso, alguns autores serão descobertos, algo que não aconteceria se as Big Six estivessem nesse mercado desde o começo.

Estamos falando de um jogo de xadrez multijogadores de longo prazo, não o final de um campeonato. Minha tendência é olhar e coçar a cabeça, sem torcer por nenhum time em especial.

Por Mike Shatzkin | Publicado originalmente em Publishnews | 07/03/2012

Mike Shatzkin tem mais de 40 anos de experiência no mercado editorial. É fundador e diretor-presidente da consultoria editorial The Idea Logical Co., com sede em Nova York, e acompanha e analisa diariamente os desafios e as oportunidades da indústria editorial nesta nova realidade digital. Oraganiza anualmente a Digital Book World, uma conferência em Nova York sobre o futuro digital do livro.

Nos Arquivos de Shatzkin, o consultor novaiorquino aborda os desafios e oportunidades apresentados pela nova era digital. O texto de sua coluna é publicado originalmente em seu blog, The Shatzkin Files [www.idealog.com/blog].