Kindle no Brasil por R$ 199


Amazon vai iniciar a venda do dispositivo de leitura assim que abrir sua loja no país; empresa estuda seriamente mercado de livros físicos

Da esquerda para a direita, os aparelhos Kindle Fire, Kindle Touch e Kindle, da Amazon

A Amazon tem como objetivo vender o modelo mais simples do Kindle no Brasil por R$ 199, assim que abrir sua loja virtual no país, podendo num segundo passo baixar o valor para R$ 149, de acordo com pessoas próximas às negociações que vêm sendo feitas com a varejista americana. A definição do preço, contudo, ainda depende de estudos sobre a distribuição do dispositivo de leitura no país.

Com o preço de R$ 199, a Amazon ofertaria o e-reader mais barato no mercado brasileiro – menos da metade do que um dispositivo compacto da Sony, que ainda é possível encontrar na internet por cerca de R$ 430, e bem abaixo dos R$ 799 que custa o Positivo Alfa, por exemplo, que é montado no Brasil. O preço também é menor do que o Kindle que o consumidor brasileiro consegue comprar pela loja on-line da Amazon nos Estados Unidos, onde a versão mais simples do aparelho desembarca aqui por no mínimo US$ 255 [R$ 438] – o preço inclui taxas de importação estimadas pela companhia.

A Amazon quer inaugurar sua loja virtual brasileira ainda no primeiro semestre deste ano. A varejista vem negociando com editoras brasileiras a venda de e-books. A expectativa é de que os primeiros acordos com grandes editoras em torno do livro eletrônico sejam fechados entre março e abril, para início da operação da Amazon entre junho e julho.

A companhia também se debruça sobre estudos aprofundados que está fazendo sobre a distribuição de livros físicos no Brasil, sinal de que poderá investir nesse mercado também. A grande questão em território nacional é estruturar um sistema de entrega de livros aos consumidores que esteja dentro dos padrões de prazo e custo da gigante ianque.

Por Roberta Campassi | PublishNews | 08/02/2012

Um livro escrito por e-mail


Flávia Lins e Silva lança o infantojuvenil Nas folhas do chá [Zahar], escrito com a chinesa Liu Hong. É o primeiro título da coleção Quatro mãos, idealizada pela autora para levar outras culturas aos jovens, segundo a coluna No Prelo. Sem se conhecerem pessoalmente, Flávia e Liu escreveram o livro por e-mail, e a história é contada como uma troca de mensagens entre duas meninas de 13 anos, do Rio e de Pequim. O próximo título ligará Brasil e África.

Por Mànya Millen, Guilherme Freitas e Suzana Velasco | O Globo | 11/02/2012

Nicholas Carr: ‘Precisamos olhar criticamente a tecnologia’


NICHOLAS CARR

Autor de ‘A geração superficial’, escritor americano diz que internet estimula ‘uma forma primitiva’ de leitura.

A ansiedade que vivemos hoje sobre os efeitos da internet sobre nossa cognição não é nova. Essa parece ser uma marca de toda grande transformação das tecnologias de informação, ao menos desde o livro impresso [que muitos na época temiam ser uma forma de “diluição” do conhecimento]. Como a situação atual se distingue das mudanças tecnológicas do passado?

NICHOLAS CARR: Toda nova tecnologia importante, se passa a ser amplamente usada, gera tanto euforia quanto ansiedade. Mas o caso da internet é diferente de todos os anteriores, no escopo e na intensidade de seu uso. É a primeira tecnologia de mídia que as pessoas podem carregar o dia todo, usando-a no trabalho, na vida social, para entretenimento e comunicação. Também é a primeira tecnologia de mídia interativa que transmite textos, imagens, sons e filmes, além de rodar softwares e aplicativos. Isso é algo novo no mundo — uma tecnologia que está constantemente influenciando a maneira como pensamos e nos comunicamos. Por isso, precisamos olhar criticamente para essa tecnologia e perguntar: como ela influencia nossos hábitos mentais? Muitas pesquisas sobre mídias digitais mostram que nosso uso da internet tende a nos colocar em um estado de distração perpétua, bombardeado por interrupções constantes. Isso faz com que tenhamos mais dificuldade para nos engajar em pensamentos contemplativos e reflexivos e também para armazenar memórias ricas e ter insights conceituais profundos. Há muitas qualidades na internet — por isso a usamos tanto — mas acredito que ela nos transforma em pensadores mais superficiais.

Você argumenta que, enquanto o livro impresso originou uma evolução nos hábitos de leitura [da leitura em voz alta para a silenciosa, mais reflexiva], a internet favorece “uma forma mais primitiva de leitura”. Por quê?

NICHOLAS CARR: A leitura não é uma habilidade nata nos humanos, como a fala, por exemplo. Temos que aprender a ler, e por isso as ferramentas que usamos para ler vão influenciar a qualidade de nossa leitura. O livro impresso, como tecnologia, nos protege de distrações e foca nossa atenção nas palavras do autor, no argumento ou na história. Estimulando a atenção e a calma, a página impressa encoraja uma forma mais profunda de leitura, na qual somos capazes de usar o máximo de nossa imaginação e nossa habilidade interpretativa para compreender o texto. A tela do computador não tem a calma da página impressa. As palavras do autor são forçadas a competir com outros estímulos que chegam através do computador. O leitor distraído não lê com profundidade; ele passa os olhos no texto, lê na diagonal. A leitura se torna um simples ato de decodificação, em vez de um sofisticado ato de interpretação e imaginação.

Como essa mudança nos hábitos de leitura pode influenciar a fruição da literatura?

NICHOLAS CARR: Com o tempo, a forma como as pessoas leem vai influenciar a forma como escrevem. Acredito que a chegada do livro impresso, criando um grupo muito mais amplo de leitores atentos, encorajou os autores a expandir as fronteiras da literatura, a experimentar novas formas e gêneros, por exemplo. Se a internet e os livros eletrônicos encorajam a leitura distraída, os autores não serão mais capazes de assumir que escrevem para leitores atentos, profundos. Por consequência, acredito que teremos menos experimentação, menos complexidade, menos aventura na escrita. A grande literatura exige não apenas escritores talentosos, mas leitores atentos.

Em um artigo recente, você diz que as editoras deviam distribuir e-books de graça. Por quê?

NICHOLAS CARR: Sugeri isso como uma estratégia de mercado para as editoras. Muitas pessoas com Kindles, Nooks e iPads podem querer comprar o livro impresso, mas vão preferir o e-book para suas máquinas. Se as editoras dessem um exemplar eletrônico junto com o exemplar impresso, isso encorajaria as pessoas a comprar mais livros impressos. Essa estratégia também combateria a Amazon, que, na minha opinião, está ganhando muito poder no mercado editorial.

Por Guilherme Freitas | O Globo | 11/02/2012, 7h50