Escolas incluem tablet em lista de material


Colégios particulares do país passaram a incluir tablets nas suas listas de material escolar. Em alguns casos, esses computadores portáteis com acesso à internet e tela sensível ao toque são vendidos nas próprias escolas. No colégio Sigma, de Brasília, o tablet é obrigatório: os pais dos 1.200 alunos do 1º ano do ensino médio tiveram de comprar os aparelhos, que podem chegar a R$ 2.000. Além disso, desembolsaram mais R$ 1.200 em programas que substituem os livros didáticos -no Sigma, a mensalidade ultrapassa R$ 1.000. Segundo o professor André Fratezzi, do colégio, o material digital “é interativo, tem vídeos, músicas, animação” -a idade da maioria dos estudantes fica entre 14 e 16 anos.

Já o Colégio Cristão de Jundiaí, no interior paulista, vende tablets por R$ 1.000. Até agora, a escola diz que cerca de 40% dos pais compraram. A escola MV1 Anderson, do Rio, dá a opção aos alunos que quiserem substituir as apostilas de papel pelo material virtual.

O tablet é uma sugestão“, diz o coordenador Miguel Bastos. “O material eletrônico tem um custo 30% menor para o aluno“, afirma. Na Dínamis, também carioca, há empréstimo dos aparelhos. “Os tablets são da escola, o aluno usa e devolve ao fim do dia“, afirma o coordenador Raphael Barreto. O colégio São Paulo, de Salvador, comprou iPads, da Apple, e subsidiou metade do valor para os alunos. O preço por pessoa ficou em R$ 825.

DIREITO DO CONSUMIDOR – O colégio Antônio Vieira, também na capital baiana, vende os tablets com apostilas por R$ 1.067. E o material didático só funciona naquele tipo de aparelho. Por causa disso, a escola é alvo do Procon. O colégio diz que tenta solucionar o problema. Órgãos de direito do consumidor ouvidos pela Folha não são consensuais sobre a legalidade de incluir os tablets no material escolar.

O Procon do Distrito Federal diz que não há problema, desde que os pais sejam avisados antes da matrícula. O de São Paulo concorda e acrescenta que a escola só pode propor atividades em aula com o tablet se todos tiverem o material, para evitar “diferenciação pedagógica”. Já na Bahia, onde a venda “casada” do aparelho e do material pelo colégio Antônio Vieira está sob questionamentos, o Procon diz que é proibido obrigar os pais a comprar o tablet e que a escola tem de oferecer o material didático de várias maneiras, em apostilas e em meios digitais.

Não vejo por que a escola obrigar [a compra de um] tablet como material didático“, afirma a superintendente do órgão, Cristiana Santos. A maior parte das escolas diz que a aquisição não é obrigatória e que quem não comprar pode acompanhar as atividades no equipamento dos colegas ou imprimir a lição antes.

Docente precisa saber dominar tecnologia, dizem especialistas

Especialistas em educação e tecnologia afirmam que o fator mais importante para que o uso do tablet seja bem sucedido em sala de aula é a preparação dos professores.

Todo o trabalho, com tablets, netbook, notebook, sempre vai depender do professor“, diz Maria da Graça Moreira da Silva, coordenadora do curso de graduação de Tecnologia e Mídias Digitais da PUC-SP. Para ela, é possível fazer atividades em sala de aula mesmo que só alguns alunos tenham o aparelho.

O professor Gilberto Lacerda dos Santos, especialista em tecnologia de educação da UnB [Universidade de Brasília], também afirma que os professores precisam estar preparados. “As vantagens não vêm automaticamente, elas dependem da intervenção do professor. Se você não tem professor formado e com competência para desvendar o aparelho, não há impacto pedagógico possível“, diz.

O professor acrescenta que, caso isso não ocorra, não vale a pena tirar do docente um meio que ele já domina [papel, caneta e livros didáticos] e dar um que ele não domina, como o tablet. INTERATIVO – Se o professor estiver bem preparado, diz, o aparelho pode trazer vantagens por ser interativo, ampliar as possibilidades de pesquisa devido à conexão com a internet e permitir que o aluno produza conteúdo. Como desvantagem, ele cita o risco de dispersão dos estudantes, principalmente se usarem a internet e as redes sociais na sala de aula.

Os especialistas ressaltam que o tablet é uma tecnologia nova e que ainda é cedo para saber qual será o impacto do uso do aparelho nas escolas.

Folha de S.Paulo | 03/02/2012