Os donos do fogo


A biblioteca de empréstimos do Kindle incomodou o mercado ao relativizar a propriedade do e-book

Para o lançamento de seu mais recente tablet, o Fire, a Amazon encontrou um inesperado porta-voz na figura de Voltaire. Um anúncio de televisão, que resumia seiscentos anos de evolução do processo de publicação de forma a culminar com o Kindle Fire, foi embalado pela seguinte frase do escritor francês: “A instrução que encontramos nos livros é como o fogo [“Fire”]. Nós o buscamos nos vizinhos, o atiçamos [“Kindle”] em casa, o comunicamos com os outros, e ele torna-se propriedade de todos.

É talvez com propósito, ou com ironia, que a Amazon tenha escolhido uma citação que prega que os livros são “propriedade de todos”. Afinal, desde que o livro se tornou uma mercadoria física e estocável [mais ou menos no período de Voltaire], sabe-se que a “propriedade” de um livro divide-se entre quem o escreveu [propriedade intelectual, que seja], quem o comprou na livraria e, principalmente, quem o produziu, o detentor do copyright, a editora.

O lançamento da biblioteca de empréstimo do Kindle [Kindle Lending Library] conseguiu incomodar a todos os envolvidos — autores, agentes, editores, livrarias — ao relativizar a propriedade do livro eletrônico. Em resumo, é um sistema de assinatura, em que o leitor paga U$ 79 por ano e tem direito de baixar um livro por mês. Quando tiver lido, [ou desistir da leitura], o assinante pode baixar outro livro, e o anterior será apagado de seu Kindle. Os livros ficam brevemente em posse do leitor [no Kindle] — mas não são sua propriedade.

Um dos argumentos a favor da empreitada é a comparação com a bem-sucedida Netflix, empresa de assinatura de filmes que funciona nos mesmos moldes. Há de se considerar, porém, que o hábito de comprar filmes é bem recente. Começou com as fitas VHS nos anos 1980, passou para o DVD, e sempre conviveu com as locadoras. Já os leitores têm o peso da tradição de seis séculos de livros comprados e enfileirados nas estantes.

Assim, o que foi de fácil acepção pelo cinéfilo pode ser um choque para o leitor. A Amazon tenta anular ceticismos ao dizer que pagará às editoras, por livro “emprestado”, exatamente o que paga por livro vendido. Em resumo, ela “comprará” o livro da editora a cada vez que ele for “emprestado”. Na ponta do lápis, isso faz sentido, uma vez que uma assinatura anual de U$ 79 representa, no máximo, a venda de 12 livros ao custo unitário de U$ 6,58, o que, por sua vez, no modelo de distribuição com margem de 35%, significa preços de capa em torno de U$ 10 — não muito longe do patamar atual.

Mesmo com essa conta, as editoras continuam desconfiadas. Das grandes, somente a Houghton Mifflin Harcourt aceitou participar, porém “com oito títulos, para fazer um teste”. As Big Six, ainda ressabiadas com a pressão para abandonar o sistema de agenciamento, não querem nem ouvir falar em empréstimos.

Mais enfáticos são os agentes e escritores, que acusam a Amazon de “emprestar” livros sem a devida autorização, já que a prática não está prevista nos contratos com as editoras. A Guilda de Autores[organização de escritores] e a Associação dos Representantes de Autores [que reúne os agentes] querem que seja acordado, antes de tudo, um novo mecanismo de royalties — ou que sejam eles a negociar com a Amazon, não as editoras. [A fórmula de pagamento de direitos autorais também é uma questão a ser resolvida no projeto Nuvem de Livros, da Gol editora, como se viu em recente debate na Primavera dos Livros].

Negociação direta com os autores talvez seja exatamente o que quer a gigante de Jeff Bezos. Afinal, boa parte do que está disponível para empréstimo foi autopublicado, através das plataformas da Amazon para o escritor individual, Kindle Direct Publishing e Create Space. Outra parte veio dos selos próprios da Amazon, onde o acordo entre escritores foi fechado sem a intermediação de editoras tradicionais.

A estratégia de atrair o autor individual, no entanto, foi o que suscitou a reação mais colérica. E não foi entre as editoras tradicionais, mas entre plataformas de publicação, como a SmashWords. Tudo porque a Amazon acaba de lançar o KDP Select, um fundo de pelo menos U$ 6 milhões de dólares anuais para distribuir entre os autores que publicarem diretamente [leia-se: sem editoras ou agentes] na Amazon e liberarem seus livros na Lending Library. Pela regra, o bolo vai ser dividido entre os escritores na proporção que seus livros obtiverem no número total de empréstimos.

Considerando que, no momento, há cerca de cinco mil títulos, cada autor começa, potencialmente, com um quinhão de U$ 1.200. Segundo o próprio exemplo da Amazon, quem mantiver ao longo do ano meros 1,5% do número de empréstimos levará respeitáveis U$ 90 mil.

Mark Coker, em artigo inflamado no Huffington Post, alerta para graves riscos na iniciativa do KDP Select, e faz insinuações sombrias sobre as reais intenções da Amazon.

Aqui está a pegadinha. Na verdade, há muitos ardis no lista de Termos e Condições do programa. Alguns deles trazem implicações anticoncorrência e práticas anticomerciais. Assim que o autor inscreve seus livros no programa, ele não pode distribuir ou vender seu livro em qualquer outro lugar. Nem na Apple iBookstore, nem na Barnes & Noble, nem na Smashwords, nem na Kobo, nem na Sony — e sequer em seu blog ou site pessoal. O livro tem que ser 100% exclusivo da Amazon.

Segundo Coker, a intenção da Amazon é, em última análise, reduzir todos os papéis da indústria editorial para apenas três: os autores, os leitores e, entre eles, a Amazon. Nada de livrarias concorrentes, nada de editoras ou agentes, nada de sites de autopublicação. É o fim daquilo que ele chama de editoras e livrarias indie [independentes]. Dramático, o criador do Smashwords alerta que podemos estar nos encaminhando para uma versão editorial da Grande Fome da Irlanda, que, no século 19, matou um quarto da população morreu desnutrida depois que o país inteiro apostou em uma única fonte de alimentação: a batata.

Muitas páginas serão escritas, impressas e baixadas sobre o assunto, até que se estabeleçam as novas práticas comerciais e novos papéis. Iniciativas como a Amazon Lending Library e a Nuvem de Livros parecem indicar que o livro deixará de ser uma mercadoria para tornar-se um serviço, como a água ou a eletricidade. Pode-se apostar, porém, que, ao contrário do livro-fogo de Voltaire, o livro-Fire não será “propriedade de todos”.

Por Julio Silveira | Publicado originalmente em PublishNews | 22/12/

Julio Silveira é editor, fundador da Ímã Editorial e autor do blog AUTOR 2.0.

Editoras apostam em lançamentos simultâneos


Mais empresas lançam versão física e digital de livros ao mesmo tempo, para aproveitar o buzz da novidade e alavancar a venda de e-books

Se antes as editoras concentravam seus esforços de lançamento na edição de papel e deixavam o e-book para depois, agora já se pode dizer que elas dão atenção especial ao lançamento simultâneo das versões impressa e digital.

LeYa e Intrínseca, que anunciaram recentemente a entrada no mercado de e-books, começam a fazer os primeiros lançamentos simultâneos no início de 2012. Já a Companhia das Letras conseguiu vendas expressivas dos e-books de Steve Jobs e de As esganadas ao lançá-los junto com a versão física das obras. Editoras como Zahar e L&PM também vem experimentando a estratégia.

A iniciativa é muito bem recebida por varejistas que comercializam conteúdo digital e está embasada principalmente no raciocínio de que a venda dos e-books é impulsionada pelo buzz gerado pelo lançamento da versão impressa – por exemplo o destaque nas livrarias, as resenhas na imprensa, os eventos de lançamento etc. Como essas vendas ainda são pequenas, não há canibalização do mercado de livros físicos.

É no lançamento do título que conseguimos a maior visibilidade, então a ideia é aproveitar essa onda e ganhar exposição, tanto no ponto de venda quanto nos e-commerces”, afirma Pascoal Soto, diretor editorial da LeYa. “O lançamento simultâneo é uma tendência mundial e nós vamos começar a fazer em breve.” A editora anunciou em novembro o lançamento dos primeiros 40 e-books e acordo para vendê-los na Livraria Cultura. O plano é iniciar 2012 com 80% do catálogo digitalizado e mais parcerias comerciais.

A Intrínseca, que na semana passada começou a vender seus primeiros 20 e-books, faz em janeiro dois lançamentos simultâneos: A visita cruel do tempo, de Jennifer Egan, e Silêncio Para Jorge Oakim, editor da Intrínseca, essa é uma forma de dar mais opções aos leitores. “O nosso objetivo é facilitar a vida do leitor permitindo que ele escolha entre e-book e papel já no lançamento do livro”, afirma. , continuação da série Hush, Hush de Becca Fitzpatrick.

Para José Henrique Guimarães, presidente da distribuidora Acaiaca, que dá os primeiros passos no mercado digital, o lançamento conjunto das versões impressa e eletrônica é “um tremendo incentivo para o mercado de e-books”. Segundo ele, 25% das vendas em livraria são de títulos novos. “Oferecer as novidades em e-book dá um impulso muito grande a esse negócio”, afirma.

Duda Ernanny, presidente da Gato Sabido, plataforma de venda de livros eletrônicos e games, concorda. Na opinião do executivo, e-books de obras como Cleopatra [Zahar] e Steve Jobs foram muito beneficiados pelos lançamentos simultâneos.

No caso de Steve Jobs, o sucesso da versão eletrônica é incontestável. Com 4.834 cópias vendidas nesse formado, ele é o e-book best-seller no Brasil até agora. As esganadas, de Jô Soares, que também teve o e-book lançado junto com as cópias em papel, registra venda de 1.726. Os dois são editados pela Companhia das Letras e encabeçam a lista de mais vendidos do PublishNews há oito semanas.

Matinas Suzuki, diretor executivo da editora, afirma que o leitor de e-books quer ser o primeiro a ler e, por isso, a publicação simultânea tende a impulsionar as vendas eletrônicas. “As vendas de e-books são muito fortes das primeiras 72 horas do lançamento”, conta. É essa avidez do leitor que também favorece estratégias de pré-venda dos títulos.

Segundo Ernanny, da Gato Sabido, as pré-vendas de e-books muito aguardados costumam gerar vendas bem mais altas do que a média de transações. “O Jobs e o Jô nos ensinaram que há imensa oportunidade nesse tipo de estratégia”, afirma Suzuki.

Mariana Zahar, editora da Zahar, também aposta nos lançamentos simultâneos, algo que a empresa já faz há algum tempo e que não pretende parar. “Já temos cerca de 600 e-books, um dos maiores catálogos do país”, diz. “Mas, mesmo com lançamento simultâneo, as vendas ainda representam muito pouco, menos de 0,5%”. Ela destaca os livros Andar de bêbado e Cleópatra entre os e-books que registraram boas vendas. Estima-se que os livros eletrônicos gerem entre 0,3% e 1% da receita total de vendas de livros no Brasil.

Ivan Pinheiro Machado, editor da L&PM, conta que a editora realiza lançamentos simultâneos com frequência – fez isso, por exemplo, com Feliz por nada, best-seller de Martha Medeiros. Mas o sucesso da versão impressa, nesse caso, não ajudou muito. “E-book ainda não tem nenhum valor comercial, não passa de 0,5%. Quem fala que é mais tá mentindo”, provoca. “Nós temos 600 e-books e já investimentos uma fortuna! Só que até agora só perdemos dinheiro.” Apesar de tudo, Machado afirma que vai continuar lançando e-books, à espera do momento em que esse mercado decole.

Por Roberta Campassi | PublishNews | 22/12/2011