Livros ilustrados viram eBooks?


Por Mike Shatzkin | Publicado originalmente em Publishnews | 08/12/2011

Mike Shatzkin

Quero deixar claro desde o começo que este texto não tem a ver com “enhanced e-books”, ou seja, com fazer algo multimídia a partir de um livro que começou como sendo apenas texto. Esse problema sempre me deixou cético e acredito que muitos editores, se não a maioria, estão abandonando a ideia como “não comercialmente viável neste momento”. As ruminações de hoje são sobre a passagem dos livros ilustrados de impresso a digital, algo que muitos dos editores atuais sabem que é um problema “que precisa ser resolvido” já que os canais para levar os livros ilustrados aos consumidores – as livrarias – estão diminuindo em número e poder por causa da mudança digital.

A Amazon e a Barnes & Noble estão disputando qual tablet parecido com o iPad é melhor do que o outro. O Vox da Kobo está se juntando à festa, agora que a Kobo foi comprada pela japonesa Rakuten. Podemos ter certeza de que os tablets que podem distribuir livros ilustrados estarão em muitas mãos logo [somados às dezenas de milhões de iPads e muitos milhões de aparelhos Nook Color que já foram vendidos].

Isto apresenta aos editores de livros ilustrados uma oportunidade aparentemente enorme. Mas também apresenta alguns desafios igualmente gigantescos.

Muito trabalho está sendo feito para criar novos padrões chamados HTML5 e ePub 3 e permitir criações mais fiéis às intenções de um editor através de um web browser ou um e-book, diferente do que podemos fazer agora. Mas há dois grandes problemas que persistem independentemente da tecnologia.

Um: livros ilustrados são consideravelmente mais complexos e caros de produzir para aparelhos digitais do que livros somente de texto. [Mesmo se o HTML5 e o ePub 3 conseguirem realizar tudo que seus criadores quiserem e funcionarem com fluxos de XML, converter o catálogo vai custar muito mais por título do que livros só de texto.]

Dois: realmente não sabemos se os usuários de tablet ou dispositivos semelhantes vão preferir consumir livros ilustrados nesses aparelhos. [Eu diria que nós realmente sabemos que as pessoas querem ler e-books de texto em aparelhos; o que parece ser verdade, de acordo com minha experiência, hoje em dia, é que a maioria das pessoas que dizem que “preferem livros impressos” nem tentaram um e-reader ainda.]

Então, enquanto muitas editoras estão vendo a queda das vendas de livros impressos que são apenas texto, mais do que compensada pelas vendas dos e-books, não há nenhuma garantia de que o mesmo será verdade com livros ilustrados.

Os varejistas vendendo tablets e as editoras de livros ilustrados estão animados com as possibilidades. O desenvolvimento do HTML5 e seu primo próximo, o ePub 3, promete recursos e capacidades até agora só disponíveis em apps distribuídos como e-books. Isso é importante porque o mercado de apps possui duas grandes falhas: não permite muito bem a descoberta de livros e está carregada de produtos baratos. Muitas editoras chegaram à conclusão de que vender apps não é uma estratégia comercialmente viável..

Para ser justo, outros [como Callaway Digital Media] acham que as apps funcionam bem comercialmente [apesar de que eu acrescentaria que a Callaway faz principalmente conteúdo infantil, e isso é bem diferente] e há mais e mais ferramentas sendo criadas para fazer apps, cada vez mais baratas e econômicas do que antes. Mas eu ainda concordo com aqueles que duvidam.

Preparando-me para a Digital Book World, tive uma conversa com um editor que faz quase exclusivamente livros ilustrados. Ele confirmou o que acreditamos: ninguém sabe se o cliente vai comprar estes e-books. E depois apontou outro ponto complicado: o tamanho das telas.

A atual solução recomendada para livros ilustrados funcionarem nos aparelhos é “layout de página fixo”, ao contrário do “reflow”, que permite mudar o número de palavras na página para se adaptar ao tamanho da tela e da letra.

O tablet colorido dominante é o iPad, que possui uma tela de dez polegadas [estou falando da medida diagonal]. Mas os aparelhos parecidos possuem telas de sete polegadas. Isso diminui a área de visualização pela metade. E não há realmente nenhuma forma de apresentar uma página que combina texto e imagens e que funcione nos dois tamanhos de tela.

E eu nem mencionei o fato de que o iPhone possui uma tela de 3,5 polegadas. Imaginem a página fixa para um iPad de dez polegadas no iPhone!

Apesar de existirem ferramentas que fazem com que seja relativamente fácil e rápido para um designer ver o tamanho certo da tela e mudar as coisas um pouco, isso não resolve o problema, pois uma editora de livros ilustrados realmente teria de desenhar e fazer o layout de cada livro pelo menos duas vezes e possivelmente três vezes (para se adaptar às telas do iPhone também). Aí estariam os três arquivos diferentes, e não daria para movê-los por seus aparelhos e auto-sincronizar da forma como o Kindle, Nook, Kobo e Apple permitem que você faça com e-books só de texto. Você receberia os arquivos para os três tamanhos quando fizesse a compra?

Há uma forma de criar o livro para telas de tamanho diferente com o mesmo número de páginas, que seria usar mais área para a página do que caberia na tela verticalmente, e depois criar o “scroll down” para conseguir mais espaço. Mesmo assim seria necessário redesenhar cada página para o aparelho específico e, de toda forma, sou um leitor que descobriu que não gosta de e-books que exigem girar e dar “scroll”.

Um conhecido executivo de e-books, me disse que havia uns mil e-books ilustrados disponíveis até um ou dois meses atrás, mas que as empresas de conversão na Índia recentemente começaram a trabalhar cada vez mais para preparar arquivos para os vários tablets e aparelhos que estão chegando ao mercado. Agora, estão fazendo aproximadamente mil e-books ilustrados por semana. Até o fim do ano, poderíamos ter 10 mil e-books ilustrados para escolher entre as muitas plataformas.

Esse ainda é um número desprezível, comparado ao mais de milhão e-books de texto, mas o repentino aumento tanto de títulos dos ilustrados disponíveis quanto de telas para lê-los deve, alguém assume, gerar um verdadeiro aumento nas vendas. Talvez possamos começar descobrindo o que funciona e o que não funciona.

Com a diminuição do espaço nas prateleiras das livrarias, cresce a urgência para resolver este problema. As vendas de livros ilustrados estão crescendo nas livrarias, o que é um bom sinal enquanto isso durar. Mas eu ficaria preocupado de que mesmo as vendas dos livros ilustrados sofrerão, já que cada vez mais os consumidores de livros de texto encontram o que querem sem visitar uma livraria. E uma livraria fechada não vende nenhum livro ilustrado.

Acho que a conversão de livros “how to” [como fazer] para o digital será uma experiência muito frustrante. O e-book não terá a mesma qualidade do impresso, a menos que o mesmo cuidado seja exercido na otimização do conteúdo para cada tela digital diferente, como é feito na criação de um livro. E há tantas coisas que o e-book poderia fazer com vídeo, áudio, animação e interatividade, coisas que fariam sentido na maioria dos casos, que “converter” um livro vai acabar deixando muitas oportunidades passarem.

Mas as editoras precisam tentar. Com milhões de aparelhos nas mãos dos consumidores, alguns ebooks ilustrados vão vender números impressionantes. Vimos o que aconteceu com The elements quando o iPad saiu [mesmo que não tenhamos visto nenhum sucesso comparável com qualquer outro app de conteúdo desde então].

Criar uma experiência digital interativa estilo livro tem sido o objetivo de milhares de horas e de pessoas com muito conhecimento nas últimas duas décadas, desde antes da era do CD-Rom. Ninguém ainda conseguiu acertar, o que quer dizer que ninguém encontrou a fórmula que vai satisfazer de forma repetida os consumidores para que as editoras possam colocar no mercado de conteúdo digital algo que se aproxime da confiança que o consumidor tem nos livros de texto. Como indústria, estamos a ponto de colocar mais tempo e dinheiro na resolução deste problema. Talvez consigamos encontrar uma resposta. Ou talvez não exista uma.

Tradução: Marcelo Barbão

Por Mike Shatzkin | Publicado originalmente em Publishnews | 08/12/2011

Mike Shatzkin tem mais de 40 anos de experiência no mercado editorial. É fundador e diretor-presidente da consultoria editorial The Idea Logical Co., com sede em Nova York, e acompanha e analisa diariamente os desafios e as oportunidades da indústria editorial nesta nova realidade digital. Oraganiza anualmente a Digital Book World, uma conferência em Nova York sobre o futuro digital do livro.

Nos Arquivos de Shatzkin, o consultor novaiorquino aborda os desafios e oportunidades apresentados pela nova era digital. O texto de sua coluna é publicado originalmente em seu blog, The Shatzkin Files [www.idealog.com/blog].