O Google está com a cabeça nas nuvens?


Por Ednei Procópio

Google Books é uma plataforma excelente, muito boa, mas ainda tomando forma.

Forma de uma nuvem, pois, dependendo do vento que nela bate, uma hora ela é uma coisa, outra hora é pode ser outra coisa.

Quanto mais as plataformas móveis, os tablets e o sistema Android em especial avançam, mais a gente percebe que o mercado de eBooks no Brasil é realmente uma nuvem. Literalmente uma gigantesca e tempestuosa nuvem.

Se não, vejamos. Todos nós sabemos que a nuvem é a união de partículas em suspensão que se apresenta de diversas formas e que pode variar em suas dimensões, números, distribuição espacial, etc. Aliás, conforme descrito na Wikipédia, a forma da nuvem aparecer lá no céu depende também dos ventos atmosféricos.

A forma e cor da nuvem depende da intensidade e da cor da luz que a nuvem recebe, bem como das posições relativas ocupadas pelo observador e da fonte de luz [sol, lua, raios] em relação à nuvem.

Entendeu?

Eu penso que, essencialmente, este é o verdadeiro problema do Google quando ele chega ao Brasil, de novo, dizendo as mesmas coisas sobre a sua solução para eBooks. Me parece que as editoras talvez ainda não tenham entendido a forma.

Agora, o Google nos trás o conceito da tal da nuvem, em sua solução para a circulação de eBooks, que não nasceu dentro da empresa e que portanto não faz dela uma pioneira na área.

Com a cabeça nas nuvens

O conceito da cloud computing começou lá atrás, com alguma coisa na área da telefonia. Se eu não estiver enganado, o termo foi criado na década de 1960 por um cientista da computação chamado John McCarthy [falecido recentemente]. Amazon, Apple, AT&T, HP, IBM, Microsoft e Yahoo são apenas alguns exemplos que me lembro, de cabeça, de empresas que entraram nesta onda de “tentar convencer o mercado a utilizar os meus serviços usando um termo da moda”.

Eu chamo isto de “vapoware”, ou seja, uma novidade tão efêmera que se desmancha com uma leve brisa, tal a sua força em comparação às tentativas de convencimentos anteriores.

O programa de parceiros do Google foi lançado em 2004. Portanto, já faz algum tempo que o Google vem tentando convencer o mercado editorial a utilizar a sua ferramenta como forma de comunicar livros.

Ou o mercado editorial brasileiro ainda não entendeu qual é a do Google [não é possível!] ou me parece que, depois de estar presente em mais de 100 países, com 40 mil editoras parceiras e com 2 milhões de títulos, o Google já deveria ter aprendido que, no Brasil, as coisas são bem diferentes. Cafezinho e tapinha nas costas não resolve a questão.

Às vezes brinco com meu filho de ver formas nas nuvens. Aí eu digo pra ele: “Olha, estou vendo um chapéu”. E ele me responde: “Não, ‘c’ tá maluco. Aquilo não é um chapéu, aquilo é uma jiboia engolindo um elefante. Então talvez o problema do Google seja este: pra uns o Google Books tem a forma de um chapéu, customizado dependendo do tamanho do seu catálogo, pra outros talvez seja uma jiboia engolindo um elefante.

“As jiboias engolem, sem mastigar, a presa inteira. Em seguida, não podem mover-se e dormem os seis meses da digestão.

Eu sou nuvem passageira

Aqui, no Brasil, a expressão “céu de brigadeiro” quer dizer um céu sem nuvens. E eu penso que isto de certo modo reflete nos números do Google no país: são apenas 200 editoras e 30 mil livros presentes na plataforma.

No Brasil, não é a primeira vez que o Google reúne o mercado para tentar vender o projeto Google Books e para tentar esclarecer as inúmeras dúvidas que norteiam não a plataforma, mas que norteiam a quase histórica descrença de um mercado cercado de vícios.

Hoje, quinta-feira, dia 8 de dezembro, na parte da manhã, o Google reuniu, mais uma vez, o mercado editorial brasileiro para [puts, como é que eu explico isto?] reapresentar a plataforma Google Books, agora em formato de nuvem.

Mas onde está a novidade? Usando uma frase que li hoje num newsletter, o que o Google disse aos livreiros e editores brasileiros?

Porra nenhuma. Sejamos francos, e não precisamos ‘fazer média’. Nada do que nós já não sabíamos.

Já não era óbvio que a ideia do Google era digitalizar os livros para, somente depois, lá na frente, bem lá no futuro, começar a comercializá-los? Então porque é que o Google já não disse isto lá atrás pra economizar o tempo de todo mundo?

Apesar de que, se não me falha a memória, o Google afirmou, categoriamente, que não, que não iria comercializar os livros eletrônicos, que a digitalização ia apenas ajudar na busca pelas obras impressas.

Parece-me que o conceito de nuvem se aplica bem aos negócios que ainda não estão bem, digamos, condensados, só para usar um termo da Física. Pois vejamos: a ideia original do Google Books era digitalizar o conteúdo offline de livros e, através das ótimas ferramentas do próprio Google, ajudar o usuário a encontrar um livro, em versão impressa, em uma estante em uma biblioteca ou livraria [físicas].

Só que vem um vento, soprando, que batizo de iCloud, e muda a direção das nuvens. Aí o Google muda de ideia também. E aí o Google passa a querer distribuir e comercializar o que já estava digitalizado.

Que com o vento se vai

Todos nós sabemos que a missão original do Google era “organizar as informações do mundo e torná-las mundialmente acessíveis e úteis”. Depois, o Google queria ser um indexador. O Google queria ser um buscador. Depois, o Google queria ser um digitalizador de coisas offline. Depois o Google queria ser uma biblioteca digital mundial, queria ser a única. E aí um distribuidor de eBooks comercializáveis. Depois uma plataforma para autores. E, por fim, bem, seria interessante se o Google fosse o seu próprio criador de conteúdos. Sugiro que o Google seja também o seu próprio consumidor e usuário. Já que ele agora pelo que me parece quer fazer de um tudo.

Mas do que eu estava falando mesmo? Ah, sim, do mercado editorial lá reunido, a cúpula, talvez a elite, digamos assim, reunida para que o Google pudesse mais uma vez tentar convencê-los de algo que nem o próprio Google em 2004, nem a Gato Sabido, nem a Xeriph, nem a Minha Biblioteca, nem a Nuvem de Livros, etc., etc., etc., conseguiu. E antes de todos eles a eBooksBrasil, a VirtualBooks, e muitos outros.

Os números

O Google nos diz, em uma das suas telas apresentadas no evento de hoje de manhã, que somos 80 milhões de internautas. Número que eu, mais uma vez, pela enésima vez, aliás, discordo em gênero, número e grau. Na minha percepção, o número é muito menor do que este. Mas tudo bem, eles são o Google, né?

Depois, o Google diz que as pessoas passam 28 horas por semana online. OK, perfeito, legal. Mas quanto deste tempo, as pessoas passam lendo livros?

Segundo a Anatel, nos números apresentados pelo Google, somos 232 milhões de celulares. De novo. OK, perfeito, legal. Mas quantos celulares são pós-pagos e quantos celulares são pré-pagos? E, mais do que isto, quantos têm a conta do tipo 3G? Afinal, para consumir livros digitais é preciso estar conectado. E quantos são smarts com telas pra leitura?

Alguns outros números apresentados, no entanto, foram muito interessantes.

A plataforma Google Books, integrada ao Android, já foi lançada no EUA, Canadá, Austrália, Inglaterra e países da Europa. No total, são mais de 7 mil editoras mantendo seus livros na plataforma.

Mais de 300 livreiros nos EUA e Reino Unido.

Mais de 600 varejistas nos EUA, Reino Unido, Canadá e Austrália.

Os números mostram 112 milhões de eBooks vendidos em 2010. O que soma $ 3,38 bilhões. E são 3,5 milhões de instalações do aplicativo do Google eBooks.

Mais do mesmo

Mas tirando os números acima citados, duvido que alguém ali tenha notado isto, a apresentação começou com algumas telas ensinando o que era o Google. O que demonstra o tom, um indício de com quem o Google achava que estava falando.

Aliás, eu achei sensacional esta parte inicial da apresentação porque eu já havia me esquecido como era o buscador do Google, de tanto usar o Bing.

Está bem, talvez eu não devesse escrever isto aqui, mas me parece que é sempre mais do mesmo, um blá, blá, blá sobre internet, redes sociais, compras online, um falatório sem fim, um viés de convencimento que simplesmente me pareceu desnecessário.

Ouvindo estas palestras sobre eBook me parece até que os profissionais do mercado ainda não se convenceram, ou realmente não estão preparados para o mundo digital. Então precisa de um café da manhã para, sei lá, dar um ultimato de quem não convence nem a si mesmo.

Raios e trovões

Uma coisa que o Google não conseguiu explicar direito, fora a questão dos percentuais das vendas para editores e livreiros, vamos dizer que talvez por causa do tempo curto, foi a questão da leitura offline dos eBooks ‘presos’ à nuvem. Me parece que a segurança do arquivo no caso da plataforma envolve um cash em pastas encripturadas. Algo que eu até já estava estudando para a nossa solução na Livrus.

Preciso ver isto mais de perto.

Mas mesmo com o bom crescimento do Android para smarts e tablets, o Google percebeu que existem outras plataformas de hardwares que ainda não utilizam o seu sistema. Com isto, o Google percebeu que haveria a necessidade de integração com outras plataformas. É o que aconteceu com o hardware iRiver Story HD, cuja integração foi necessária por conta desta leitura offline em e-readers. E aí, neste caso, a integração ficou perfeita, muito boa, bem diferente do casamento Adobe CS/Sony Reader.

Em resumo, para o a circulação de eBooks usando o conceito de nuvens, o desafio ainda é a segurança quando se quer ler a obra estando offline. E esta segurança é relativa quando se trata de conteúdo que veio lá da nuvem.

Enfim, creio que o que possam nascer desse cenário todo de nuvem pra cá, nuvem pra lá, sejam raios, relâmpagos e trovões.

Um raio, segundo a página digital do Sr. Jimmy Wales, “é um fenômeno em que para acontecer é preciso que existam cargas opostas entre nuvens”. É uma descarga elétrica que se produz pelo contato entre nuvens, pois “quando isso acontece, a atração é muito forte, então temos uma enorme descarga elétrica”. Disto isso, imaginemos, por exemplo, o que poderia acontecer com iniciativas como a  Nuvem de Livros quando se percebe que projetos como este concorrem diretamente com o Google eBooks?

Temos um mercado que se reúne várias vezes, sem rumo, como se um raio não caísse duas vezes num mesmo lugar.

Entro nessa?

Se vale à pena entrar no Google Books?

Mas é claro que sim. Vale muito à pena.

Ironias à parte, sei que exagero [ é que, às vezes, chega uma hora que é necessário], e levando em conta que o Google faz segredos sobre percentuais, mas assim que eu descobrir eu publico aqui, considero a plataforma do Google, de longe, a melhor de todas. Melhor que a plataforma da Apple. Melhor que a plataforma da Amazon. Não que as outras não sirvam, não é isto, mas levando em conta as nossas especificidades, sem sombra de dúvidas é uma das melhores opções para as editoras no Brasil.

Se o Google realmente trouxer, como prometeu, a plataforma Google eBooks integrada ao Android para 2012 creio que teremos finalmente uma solução inteligente para os nossos negócios.

É isto, testem a API do Google Preview. Que é maravilhoso. E, na boa, foi a única coisa bacana que eu gostei deles terem mostrado hoje.

Mas enfim

Eu saí da apresentação de hoje de manhã com a sensação de que o Google está querendo dizer o seguinte: “Venha para minha plataforma porque afinal eu sou o Google”. Então eu não deveria ter ido lá, eu teria ficado com aquela imagem sóbria que eu tinha do Google, de uma empresa com um motor de inovação sem igual, que não precisa convencer nenhuma empresa editorial brasileira do óbvio.

Mas já que eu fui, eu poderia agora mesmo acessar o buscador Google, que pretende um dia a tudo responder, e perguntar: Porque um usuário compraria um livro digital no Google eBooks se no Google Preview o acesso é gratuito?

Hoje, na apresentação, o Google citou uma música do Red Hot Chili Peppers, mas fico com a canção de Bob Dylan:

The answer, my friend, is blowin’ in the wind. The answer is blowin’ in the wind”.

Por Ednei Procópio

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