Publicidade do Nook é corrigida


O Nook não roda vídeo em alta-definição, mas sua tela é mais nítida do que a dos concorrentes. Foto por Brian Snyder, da Reuters. To match Special Report PUBLISHING/EBOOKS

O Nook não joga vídeo de alta definição, mas mostrar o comprimido de vídeo se parece mais acentuada do que seus concorrentes.

Na semana passada, nesta mesma coluna, critiquei duramente a Barnes & Noble.

Destaquei que o slogan do novo tablet Nook é “O melhor em entretenimento HD” e que, no site do Nook, a primeiríssima característica anunciada é “Filmes e programas de TV em HD”. Fui além, dizendo:

Então, na página “Saiba mais”, há nove outras referências à capacidade do tablet Nook de reproduzir vídeos em alta definição. “Exibição fluida de vídeos em HD via streaming.” “Desfrute dos vídeos em alta definição.” “O melhor em entretenimento HD.” “Netflix e Hulu Plus pré-instalados para a exibição instantânea de filmes em HD.” “Vídeos em HD via streaming e mais.” “Suporte a conteúdo HD de até 1080p.” E assim por diante.

Hmm. Não sei quanto a você, mas, no meu caso, ao ler tudo isto, é possível que eu fique com a impressão de que o tablet Nook é capaz de exibir vídeos em alta definição!

Ora, adivinhe só? O Nook não é capaz de fazê-lo.

A resolução da sua tela é de 1024 por 600 pixels. Algo muito distante da alta definição.

Esta não foi a primeira vez que a B&N se equivocou ao anunciar as especificações técnicas do seu Nook. No ano passado, flagrei a empresa roubando algumas gramas do peso anunciado do leitor Nook original. E, neste ano, o tablet Nook é anunciado com capacidade de armazenamento de 16GB – mas apenas 1GB está disponível para os arquivos do usuário; o restante é reservado para os produtos comprados na B&N.

[Ainda acho que o recurso de empréstimo da B&N é alvo de uma empolgação exagerada. As restrições são absurdas: pode-se emprestar um livro a uma pessoa, durante duas semanas, uma única vez por título. E, ainda assim, são poucos os títulos que podem ser emprestados – é necessária a aprovação da editora. É claro que tais restrições são exigidas pelas editoras paranoicas, e não pela B&N – ainda assim, tudo isto corresponde a uma boa quantidade de texto em letras miúdas.]

Enfim. Depois da publicação da coluna da semana passada, recebi um telefonema de William Lynch, diretor executivo da Barnes & Noble. Ele disse que tinha ficado surpreso com a agressividade do meu texto, e perguntou a si mesmo se eu teria outros motivos para falar daquela maneira.

Photo Paul Taggart Bloomberg News

Ele também afirmou que não havia nenhuma tentativa de embuste no anúncio do tablet Nook como plataforma capaz de reproduzir vídeos em formato HD. Em nenhum momento a questão foi formulada em termos de “exibição em HD” e nem “reprodução em HD”. Ele disse que os advogados da empresa aprovaram a terminologia usada.

Lynch disse que, em vez disso, o tablet Nook de fato faz algo de muito útil: o aparelho aceita conteúdo em alta definição transmitido via streaming pela Netflix e os adapta para a tela de 1024-por-600-pixels do Nook, reduzindo assim a qualidade da imagem. O conteúdo deixa de ser exibido em alta definição – mas a resolução é melhor do que aquela exibida pelo principal concorrente, o Kindle Fire, da Amazon. O Fire parte do conteúdo em definição normal da Netflix e então amplia a imagem para fazê-la caber na tela de 1024-por-600-pixels.

O método do Nook pareceu ser um recurso legitimamente atraente. Que motivo haveria, portanto, para exagerar as coisas? Eu disse que o material publicitário dá a entender que o usuário obterá imagens em alta definição – e não é isto que ocorre. “Suporte a conteúdo HD de até 1080p”? Ora, vamos!

Desde a nossa conversa telefônica, dois fatos novos entraram em cena.

Primeiro: a B&N finalmente concordou que alguns consumidores poderiam ser iludidos por tantas referências ao “vídeo em formato HD”. A empresa finalmente eliminou todas as referências ao “formato HD” no seu site. Em vez das nove instâncias nas quais o termo aparecia, agora não o encontramos em parte nenhuma da página.

Isto me parece ser a atitude certa, independentemente do que digam os advogados.

Segundo: comparei o Nook Tablet ao Kindle Fire. Coloquei-os lado a lado, exibindo um mesmo filme em perfeita sincronia a partir do mesmo stream da Netflix.

Não há espaço para dúvidas: o vídeo da Netflix exibido pelo tablet Nook parecia ter qualidade muito superior.

Ora, na ausência de uma comparação lado a lado, seria difícil queixar-se da qualidade de vídeo exibida pelo Fire. Mas, numa comparação direta com o Nook… podemos esquecer o Fire. A clareza e a definição da imagem exibida pelo Nook a partir do streaming da Netflix torna-se imediatamente óbvia. [Quando o vídeo original é de definição padrão, como no caso do material do Hulu, a diferença de clareza é imperceptível.]

Como escrevi na semana passada, acho que esta vantagem é motivo de orgulho. Trata-se de algo que a B&N deveria anunciar. “Desfrute dos filmes da Netflix via streaming exclusivo em alta resolução”, ou algo do tipo. Simplesmente não há motivo para implicar que a exibição seria em alta definição quando isto não é verdadeiro.

Quanto à queixa de Lynch, que me acusou de ser mais mordaz ao escrever sobre a B&N do que sobre a Amazon – descobri onde estava o problema.

Se uma empresa se esforça ao máximo, mas fracassa… bem, isto acontece.

Mas, se ela tenta vencer por meio da tapeação… ora, eis aí algo que não posso tolerar. Minha função é fazer o papel de defensor do consumidor e, por isso, empresas que tentam passar a perna na freguesia me causam péssima impressão. [Lembra-se de quando a Verizon cobrava US$ 2 por cada vez em que pressionávamos o botão ‘Para Cima’ do celular por engano? Aquilo me irritou profundamente, e o governo americano
concordou comigo.]

Na opinião de Lynch, isto não é tudo que está ocorrendo neste caso. Não há cultura de tapeação corporativa. Ele diz que o erro no peso do Nook foi um equívoco como qualquer outro; as limitações de recursos como o empréstimo de livros eletrônicos são claramente enunciadas na rede; e, ao menos agora, não existe mais nenhuma possibilidade de confundir os consumidores quanto às capacidades do tablet Nook referentes à exibição de material em HD.

Por David Pogue | TRADUÇÃO AUGUSTO CALIL | Post publicado originalmente em 1/12/2011 | Publicado no Estadão 2 de dezembro de 2011, 19h10