O ritual literário de Georges Simenon


Exposição na França mostra os objetos usados pelo escritor

blog da L&PM publicou curiosidades sobre Georges Simenon, para falar de uma exposição sobre ele que tem início da França. Para o criador do comissário Maigret, o maior crime que se podia cometer era incomodá-lo enquanto estava trabalhando. “Não perturbe”, dizia uma plaquinha na porta de seu escritório. Outra condição sine qua non para ele começar a escrever um romance incluía pelo menos quatro dúzias de lápis recém apontados, um bloco novo de folhas amareladas, um envelope com nomes, idades e endereços de seus personagens e uma lista com possíveis itinerários de trem, além da máquina de escrever a postos e devidamente higienizada, as cortinas fechadas e café em boa quantidade. Ao todo, Simenon escreveu cerca de 250 mil páginas, que ligadas ponta com ponta chegariam aos 6km de extensão.

PublishNews | 24/11/2011

Conceito atual de plágio divide especialistas


Para o professor de teoria literária Alcir Pécora, achar que ‘copia e cola’ refresca métodos de criação é inocente

DJ e produtor conhecido por ‘samplings’ diz dar crédito a autores, que ‘agradecem por divulgação’

O que o ator e diretor Sylvester Stallone, os músicos Rihanna, Beyoncé, Lady Gaga, Coldplay e Lil Wayne, a TV Globo e o estúdio que produziu o filme “Kung Fu Panda” têm em comum?

Todos eles são autores de obras acusadas de plágio. E isso somente no ano de 2011.

Seria o fim da originalidade? Ou será que o processo criativo contemporâneo consiste justamente em citar obras já produzidas, como defende Kenneth Goldsmith no livro “Uncreative Writing”?

Alcir Pécora, professor de teoria literária da Unicamp, é partidário da primeira ideia.

Vejo que há um esgotamento da produção literária atual. Os grandes modelos de prosa dos romances estão muito esgotados“, avalia.

Para ele, o aumento na quantidade de obras que pegam “emprestado” trechos de outras é uma das marcas do século 21. “Nada parece muito fecundo hoje em dia, como era no século 18 ou 19.”

Hoje em dia, tudo é ‘ready-made’ [conceito criado por Duchamp no século 20 pelo qual objetos cotidianos são transformados em arte]“, afirma Pécora. “Ninguém mais parece uma fonte positiva.

O advogado Caio Mariano, especialista em direito autoral, enxerga uma mudança de comportamento na cadeia de produção da nova geração de autores. “Muitos artistas acabam infringindo direitos autorais, achando que podem ‘samplear’, por exemplo, sem pedir autorização dos titulares. Mas a lei é clara. Citações devem ser nominais“, diz.

Um dos principais nomes brasileiros para a cultura do “sampling” e dos “mashups”, o DJ e produtor João Brasil discorda de Mariano.

Nunca tive problema com isso, pois sempre dou crédito ao artista original e nunca vendi os mashups. Vários artistas já me agradeceram pela divulgação“, conta o DJ.

A posição de João Brasil está correta, de acordo com o advogado Thiago Mendes Ladeira, também especialista em direito autoral.

Ele afirma que é importante que os artistas defendam sua propriedade intelectual.

Se as obras não fossem protegidas pela lei de direitos autorais, qual seria o incentivo do autor para criar? E como ele lucraria com isso?“, questiona Ladeira.

O advogado atribui o aumento de casos de plágio à internet. “É como o aluno que usa o computador para copiar um trabalho de escola“, diz.

Embora a lei nº 9.610/98, que passa atualmente por projeto de atualização, não mencione a internet, Mariano não enxerga isso como um problema. “As regras do mundo off-line são as mesmas que aquelas do mundo on-line”, afirma.

Que há uma crise na produção cultural atual, não há dúvida. Mas achar que esse ‘copia e cola’ pode funcionar como base para um novo método de criação é muito inocente“, opina Pécora.

POR CAROL NOGUEIRA | PUBLICADO ORIGINALMENTE EM FOLHA DE S. PAULO | 24/11/2011

Cenário das livrarias de eBook vai ficando cada vez mais definido


Por Mike Shatzkin | Publicado originalmente em Publishnews | 24/11/2011

Mike Shatzkin

A semana que passo, todo ano, na Feira do Livro de Frankfurt, é sempre a mais estimulante do meu ano de trabalho. A concentração das melhores cabeças e das pessoas mais poderosas no mercado editorial parece me levar a novos níveis de compreensão sobre nosso mundo editorial global, principalmente nesta época de rápidas mudanças.

Também conversei com um executivo de desenvolvimento de negócios de uma das empresas de tecnologia que está convertendo livros impressos e PDFs para ePub. Ele me contou que seu negócio permanece robusto, mas está se espalhando ao redor do mundo, já que novos mercados estão descobrindo que precisam colocar sua propriedade intelectual em formato digital. Concordamos que quem vive da transição digital – e isso certamente me inclui, no momento [afinal, por que você está lendo este blog?] – ainda tem mais alguns anos pela frente antes de precisar pensar em como ganhar dinheiro com a nova realidade [se precisarmos continuar ganhando a vida quando a mudança chegar].

Com os novos acordos anunciados em Frankfurt pela Kobo com a loja inglesa WHSmith e a francesa Fnac, junto com o aumento de abertura de lojas da Apple e da Amazon, o futuro cenário das livrarias de e-book está ficando cada vez mais definido. Parece que teremos três concorrentes globais principais que estarão ativos em todos os mercados – podendo ser Amazon, Apple e Kobo – e mais, talvez, um concorrente local em cada mercado. A Barnes & Noble desempenhou esse papel local de forma muito bem-sucedida, até o momento, nos Estados Unidos; a Waterstone’s vai tentar o mesmo no Reino Unido a partir do ano que vem; há competição local na Alemanha; e certamente haverá em muitos outros países, quando a revolução do e-book chegar a suas praias. O Google, sendo o Google, não vai desaparecer, mas permanecerá um concorrente relativamente marginal, pelo menos até colocarem mais energia em sua solução e na promoção do que têm.

Os acordos da Kobo servem para deixar o jogo mais claro, mesmo não mudando a situação no momento. Um observador atento da cena digital parou no meu estande em Frankfurt para discutir o acordo WHSmith-Kobo comigo e se perguntava se esse era o melhor acordo para os dois lados. A Kobo não deveria ter tentado fazer um acordo com a Waterstone’s? É inteligente para a WHSmith fazer um acordo no qual vendem os aparelhos, mas que os conecta com a loja da Kobo?

Mas isso, claro, é a chave para o acordo. A economia do aparelho não funciona, a não ser que você possa vender os e-books que o acompanham [essa é a resposta para todos os gênios que pensam que a Barnes & Noble é meio burra por não implementar o lançamento internacional do Nook!]. Nem a WHSmith nem a Fnac são somente livrarias. Os livros são apenas uma linha de produtos nas lojas que vendem outras coisas e possuem uma identidade mais ampla. Ao vender um e-reader ligado a uma loja de e-books que também serve a seus clientes, eles agregam valor para o consumidor de livros durante a transição e aumentam sua própria “vida útil” como vendedores de livros. Eles reconhecem que construir e manter uma loja de e-book não é algo trivial e, frente a vários concorrentes globais, tampouco é algo que querem empreender a partir de sua posição como livraria específica de um país.

Ao se aliar à Kobo, tanto a WHSmith quanto a Fnac podem entrar no mercado com e-readers quase ao mesmo tempo em que a Amazon entra com o Kindle. E a WHSmith, ao lançar os produtos e a loja para o Natal de 2011, deve deixar a Waterstone’s preocupada por estar alguns meses atrasada e porque quase com certeza terá uma loja menos amigável para o consumidor do que a concorrente.

A Barnes & Noble alcançou um incrível sucesso estabelecendo-se em segundo lugar no mercado de e-books dos EUA, mas sua situação pode acabar sendo única. Primeiro de tudo, estão no maior mercado de e-books [por valor, apesar de que mercados mais pobres podem ultrapassá-los em termos de unidade em algum momento] que veremos em uma década ou mais. Segundo, é uma livraria muito séria que construiu fortes relacionamentos entre as editoras no mundo todo, já há vários anos. E, terceiro, a maneira como executaram o seu plano para o mundo digital foi quase perfeita. Mesmo com este precedente como exemplo, não há nenhuma garantia de que a Waterstone’s, ou qualquer outra, possa repetir em outro mercado o que eles fizeram nos EUA.

Se for um jogo global e você tiver um concorrente global, assim como “todo um eco-sistema” que exige aparelhos ligados a uma livraria de conteúdo digital bem estocado e bem apresentado, podemos ver a briga sendo realizada pelos outros concorrentes tentando competir com Amazon, Apple e Kobo, seja Google, Copia, Sony, Blio da Baker & Taylor, ou os estreantes financiados em colaboração com as editoras: Anobii na Grã-Bretanha e Bookish nos EUA.

Se todo o resto for igual, posso ver um mercado global de e-books que, daqui a alguns anos, será 90-95% controlado por Amazon, Apple, Kobo e concorrentes locais em cada país, com o Google ficando com a maior parte do resto. O Google pode usar sua força nos títulos da cauda longa, porque descobrir conteúdo obscuro ou voltado para nichos poderia ser o seu forte; um editor universitário me contou em Frankfurt que já está vendo algum crescimento real em suas vendas no Google, algo que não ouvi de nenhum outro editor comercial ainda.

Mas muitas coisas podem não permanecer iguais. Uma fonte bem informada, da Digerati europeia, me contou que a Comissão de Competição Europeia pode proibir o modelo agência na União Europeia. Se isso acontecesse, seria uma grande ajuda para a Amazon. É irônico que o concorrente maior, mais forte e com mais dinheiro no mercado de vendas de e-books possa ganhar uma vantagem competitiva tão enorme dada por burocratas que ostensivamente querem estimular um mercado mais competitivo. As editoras podem ter suas dificuldades para compreender a transição digital, mas parece que as burocracias governamentais do mundo podem estar bem mais confusas do que as editoras.

Tradução: Marcelo Barbão

Por Mike Shatzkin | Publicado originalmente em Publishnews | 24/11/2011

Mike Shatzkin tem mais de 40 anos de experiência no mercado editorial. É fundador e diretor-presidente da consultoria editorial The Idea Logical Co., com sede em Nova York, e acompanha e analisa diariamente os desafios e as oportunidades da indústria editorial nesta nova realidade digital. Oraganiza anualmente a Digital Book World, uma conferência em Nova York sobre o futuro digital do livro.

Nos Arquivos de Shatzkin, o consultor novaiorquino aborda os desafios e oportunidades apresentados pela nova era digital. O texto de sua coluna é publicado originalmente em seu blog, The Shatzkin Files [www.idealog.com/blog].

Leitor digital com papel eletrônico colorido Mirasol chega ao mercado


DE SÃO PAULO – A Qualcomm anunciou, em parceria com a rede de livrarias sul-coreana Kyobo, o primeiro leitor digital de livros com uma tela de tecnologia Mirasol.

O visor combina características de papel eletrônico – baixo consumo de energia e visibilidade sob luz solar- e de LCD – reprodução de cores e vídeos.

Por emitir menos luminosidade que as telas de LCD, a tecnologia reduz o consumo de energia do aparelho. A Qualcomm afirma que a bateria do novo leitor digital pode durar semanas a uma média diária de uso de meia hora.

A empresa trabalha no desenvolvimento da tecnologia Mirasol desde 2004.

Folha de S.Paulo | São Paulo, quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Copiar e colar


Artista e escritor que fundou o site UbuWeb cria o manifesto da escrita não criativa e garante que a literatura do futuro será feita a partir de novas versões e cópias do que já estava escrito

Kenneth Goldsmith acha que está fazendo arte quando senta e reescreve palavra por palavra a edição do dia do “The New York Times”.

Também anda fascinado com a advogada californiana que publica num blog sentenças de condenações por estupro como se fossem poesia, sem alterar uma única linha.

Ficou claro que a escrita do futuro tem mais a ver com mudar as coisas de lugar do que com criar novos conteúdos“, afirma ele. “Samplear [utilizar trechos de obras já prontas] alguma coisas vale mais do que essa coisa em si.”

Goldsmith, artista e escritor americano que fundou o site UbuWeb, acredita tanto nisso que escreveu um livro-manifesto. “Uncreative Writing”, ou escrita não criativa, ensina como ser um autor em plena cultura do remix.

Essas ideias não são novas, mas não tinham chegado à literatura“, opina. “É um debate ainda muito rudimentar se pensarmos que nas artes visuais a questão de plágio e deslocamento começou com o urinol de Marcel Duchamp, lá atrás, em 1913.

Das artes plásticas à música, em tempos de difusão ultraveloz na internet, o mundo vem redefinindo a ideia de cópia e plágio, dando muitas vezes peso de original a novas versões do que já existia.

Na literatura, a febre do remix causa as distorções que viraram objeto de estudo de Goldsmith, ele mesmo gastando horas do dia em exercícios tediosos como copiar artigos de jornal para ver onde surgem erros espontâneos, frutos de sua desatenção.

Tudo o que escrevo é horrível, impossível de ler“, reconhece. “Mas não estou interessado em leitura, é só um estopim para discussões.

Ao observar falhas de linguagem, Goldsmith concluiu que a raiz disso já estava na poesia concreta dos irmãos Augusto e Haroldo de Campos, na literatura transtornada dos beatniks e na justaposição de tudo, possível só na era da internet.

No ubu.com, por exemplo, é possível ver vídeos dos Beatles e peças de Samuel Beckett. “É um espaço utópico, em que tudo conversa”, diz. “Reenquadro o que existe para criar algo novo, um colapso dos gêneros artísticos.

Seu próximo passo é reescrever o clássico ensaio do alemão Walter Benjamin sobre as galerias comerciais da Paris do século 19, só que transpondo a ação para as ruas de Nova York no século 20.

Nessa versão, personagens trocam de pele -Baudelaire, por exemplo, vira o polêmico Robert Mapplethorpe.

UNCREATIVE WRITING

AUTOR Kenneth Goldsmith

EDITORA Columbia University

QUANTO R$ 168,80 [260 págs.]

POR SILAS MARTÍ | PUBLICADO ORIGINALMENTE FOLHA DE S. PAULO |  24/11/2011