Facebook muda nome de Salman Rushdie e revolta escritor


O escritor Salman Rushdie usou o Twitter para publicar uma série de posts exasperados. Segundo ele, o Facebook havia desativado sua conta, requerendo provas de identidade, e o transformou em Ahmed Rushdie, o nome utilizado pelo autor em seu passaporte. Porém, ele nunca usou seu primeiro nome, Ahmed; o mundo o conhece como Salman.

Salman questionou: será que o Facebook transformaria J. Edgar Hoover em John Hoover, ou Scott Fitzgerald em Francis Fitzgerald?

Onde você está se escondendo, Mark?“, disse, fazendo menção ao executivo-chefe do Facebook, Mark Zuckerberg. “Volte aqui e devolva meu nome!

O universo do Twitter abraçou a causa. Em duas horas, Rushdie declarou vitória: “O Facebook afrouxou! Eu sou Salman Rushdie novamente. Eu me sinto MUITO melhor. Uma crise de identidade na minha idade não é divertido“.

Os pontos discutidos por Rushdie são algumas das noções mais complexas da era digital: você é quem você diz ser on-line? Quem trabalha por isso – e o que ganha com isso?

Como a internet se transformou em um local para todos os tipos de transações, de comprar um tênis a derrubar ditadores, um debate vital vem crescendo sobre como as pessoas se representam e se revelam nos sites que visitam. Um lado vê um sistema em que cada um usará um tipo de passaporte digital com seu nome real e expedido por empresas como Facebook, para viajar pela internet. Outro lado acredita no direito de usar chapéus diferentes –e, às vezes, máscaras– para você poder consumir e expressar o que quiser, sem medo de repercussões off-line.

O escritor Salman Rushdie, que teve seu nome modificado pelo Facebook

O argumento contra os pseudônimos mostra como a internet do futuro deverá ser organizada. Grandes empresas de internet, como Google, Facebook e Twitter, têm participação importante no debate – e, em alguns casos, filosofias completamente diferentes, que sinalizam suas próprias ambições.

O Facebook insiste no que chama de identidade autêntica, ou nomes reais. E isso tem se transformado em um passaporte em vários sentidos, permitindo que seus usuários entrem em mais de 7 milhões de outros sites e aplicativos com seu nome de usuário e senha do Facebook.

A rede social do Google, o Google+, que abriu suas portas para todos os usuários em setembro, também quer os nomes que seus usuários usam no mundo off-line, e chegou a banir algumas contas por isso.

Mas o Google indicou recentemente que deverá permitir o uso de apelidos. Vic Gundotra, executivo do Google responsável pela rede social, disse em uma conferência no último mês que quer criar uma “atmosfera” confortável mesmo para aqueles que usam nomes falsos. “É complicado fazer isso de forma correta“, disse.

Em contraste total, o Twitter segue a teoria do cada um por si, permitindo o uso de pseudônimos de pessoas desde apoiadores do WikiLeaks até a perfis falsos de famosos. Mas ele considera a representação enganosa como motivo para suspender usuários.

O risco real para o mundo será se a tecnologia da informação criar um sistema de identificação para todos“, diz Joichi Ito, diretor do Media Lab, do instituto MIT. “Nos EUA, talvez isso não seja um problema. Mas se cada criança na Síria for identificada a cada vez que usar a internet, ela poderá correr risco de vida“.

O problema é que a internet é usada para razões diferentes por pessoas diferentes.

Pode ser vital para uma pessoa usar sua identidade real para encontrar um trabalho em sites como o LinkedIn, diz Ito, mas também pode ser arriscado usar seu nome real para expressar opiniões políticas na internet. Ito diz ficar preocupado com a possibilidade de serviços extremamente populares e ubíquos, como o Facebook e o Google, insistam em uso real de identidade, criando uma espécie de regra para o uso da internet.

As pessoas sempre usaram pseudônimos. Várias delas são mais conhecidas por seus nomes falsos; pense em Lady Gaga ou Mark Twain. Outros que usam pseudônimos para se proteger: fontes anônimas e dissidentes. Há ainda aqueles que usam nomes falsos para perturbar outras pessoas ou enviar spams.

A política de nomes reais pode representar problemas na vida real. Wael Ghonim, famoso blogueiro egípcio, usou um nome falso para criar uma popular página contra o ditador Mubarak. Isso fez com que o Facebook desligasse brevemente a página em árabe no meio da revolta popular no país, até que uma mulher americana concordasse em administrá-la usando seu nome real.

Sobre o caso da conta de Rushdie, a empresa não explica o que aconteceu, mas admite que houve um engano. “Nós pedimos desculpas pelo inconveniente que causamos a ele“, disse o Facebook.

Rushdie, que já viveu de forma anônima por causa de ameaças de morte, tem ultimamente se revelado no Twitter. E por meio dele, ele lutou por seu nome on-line. Um impostor usava uma conta falsa do escritor no Twitter, e Rushdie pediu para a empresa removê-lo. Agora, sua página tem o símbolo azul de “Conta Verificada”, com direito a frase de Popeye: “eu sou o que sou e é tudo isso que sou“.

Por SOMINI SENGUPTA | Publicado originalmente em NEW YORK TIMES” | Tradução de LEONARDO MARTINS | Folha.com | 15/11/2011 – 12h24

Especialistas falam sobre o futuro das bibliotecas


Seminário Biblioteca Nacional + 200 Anos

Nos dias 24 e 25 de outubro, a Biblioteca Nacional convidou especialistas de várias partes do mundo para discutir o futuro das bibliotecas, com foco especial nas instituições nacionais de cada país. O seminário Biblioteca Nacional + 200 Anos trouxe ao Rio de Janeiro experts e diretores de Bibliotecas Nacionais para apresentarem experiências atuais e discutir perspectivas para o futuro da informação e seu compartilhamento.

Perguntamos para alguns dos convidados qual seria o futuro da “biblioteca” como instituição de preservação de memória e de oferta de conhecimento ao público. Como a biblioteca do futuro vai administrar a informação digital? Ela vai deixar de ser um espaço físico para se transformar em virtual? Veja o que responderam:

Paulo Herkenhoff, crítico de arte
Acho que a era digital é uma era que vai ser determinada pelo leitor e pela leitura, mais que pelo objeto. Estar atento ao leitor me parece uma das chaves para o futuro da biblioteca. Se quisermos permanecer como sociedade, nós precisamos de instituições que sejam capazes de representar simbolicamente nossa diversidade, nossos conflitos, nossas diferenças. Quais são as contradições, quais são os conflitos? Tudo isso deve estar dentro dessa instituição. O futuro da biblioteca poderia ser esse lugar onde uma rede de subjetividades se construa como um processo coletivo. Esse lugar é virtual, mas é um lugar com vontade de ser esse lugar e, por isso, exigirá fineza política para que não seja partidário, mas um projeto de estado.

Maria Inês Cordeiro, subdiretora geral da Biblioteca Nacional de Portugal
Embora caminhemos rapidamente para uma parte do acervo estar disponível na internet, nós não diminuímos o número de leitores. Até temos aumentado o número de consultas localmente. E isso contradiz um pouco aquilo que normalmente as pessoas esperam que é “quanto maior for o acervo digital, menor será a procura física, local, na biblioteca”. Tem sido uma experiência importante para nós verificar que não. Uma coisa não invalida a outra. Penso que isso se deve também à grande variedade do acervo e à dimensão enorme do acervo [da Biblioteca Nacional de Portugal]. Não penso que daqui a 50 anos a biblioteca física vai deixar de existir enquanto tal, procurada pelas pessoas, porque nós continuamos a preservar o patrimônio físico e a sociedade quer que continuem a existir os livros fisicamente. Mesmo que estejam digitalizados, haverá sempre uma procura por razões de investigação.

Marco Streefkerk, diretor da DEN Foundation [Dutch Knowledge Center for Digital Heritage]
Houve uma discussão na Holanda sobre o futuro das bibliotecas e não se chegou a uma resposta. Há muitas opiniões sobre como será esse futuro e acho importante que a biblioteca discuta, mas que abra essa discussão para a sociedade. O que é esperado da Biblioteca? Que serviços especiais ela deve oferecer? Ainda acho que as pessoas gostam de estar juntas. Aprender é uma atividade social, não é algo que se pode fazer apenas em casa, na frente do computador.

John K. Tsebe, diretor da Biblioteca Nacional da África do Sul
Os livros estarão sempre aí, por isso devemos preservar o livro de papel. Ao mesmo tempo, devemos garantir a digitalização e o acesso a conteúdo virtual – talvez no sistema de computação em nuvens. É preciso que esse conteúdo seja acessado da forma mais universal possível. Minha visão é que a Biblioteca Nacional como um objeto físico, como uma construção, sempre existirá, porque se você olhar para qualquer país do mundo, a Biblioteca Nacional sempre será a maior biblioteca daquele país, em termos de espaço físico. É o lugar onde as pessoas podem ir, interagir, compartilhar ideias. O formato digital é importante, mas não vai substituir o livro físico. Acredito que devemos promover um equilíbrio entre as obras impressas e as virtuais – as que são digitalizadas ou as que já nascem digitais.

Roberto Aguirre Bello, chefe de coleções digitais da Biblioteca Nacional do Chile
As Bibliotecas Nacionais, como espaço físico, vão continuar existindo, sem dúvida. Muitas pessoas vão sempre preferir consultar os livros impressos, mas as bibliotecas virtuais oferecem algumas soluções, sobretudo para aqueles que desejam consultar obras de lugares remotos e a qualquer momento do dia. No Chile, a recepção aos objetos digitalizados tem sido muito boa e estamos fazendo todos os esforços para, cada vez mais, chegar a diferentes segmentos da comunidade com nossos serviços.

Aquiles Brayner, curador da coleção digital da British Library e consultor da Biblioteca Nacional do Brasil
A biblioteca física vai virar um espaço simbólico e o simbólico vai virar quase o real, que é o virtual. A biblioteca vai ter que oferecer serviços para acesso a conteúdos digitais, disso não se tem nenhuma dúvida, e os objetos que a biblioteca retém em seu acervo vão ficar quase como um instrumento de museu, não exatamente nesse sentido, porque ele ainda vai ser manipulado. Mas com a cópia digital, a biblioteca vai ter que trabalhar cada vez mais na prestação de serviços do que propriamente na formação de acervos.

Ascom FBN | 15/11/2011

Romancista pressiona limites da censura na China


Quando o romancista Murong Xuecun apareceu em uma cerimônia no ano passado para receber seu primeiro prêmio literário, ele segurava uma folha de papel com algumas das palavras mais incendiárias que já escrevera.

Era uma meditação sobre o mal-estar causado pela censura. “A escrita chinesa exibe sintomas de um distúrbio mental“, pretendia dizer ele. “Este é um escrito castrado. Sou um eunuco proativo, me castro antes mesmo de o cirurgião erguer o bisturi.

Os organizadores da cerimônia o proibiram de proferir o discurso. Sobre o palco, Murong fez um gesto de quem fecha a boca com zíper, e saiu sem dizer palavra.

Ele então fez com o discurso o que havia feito com três dos seus romances de sucesso, todos eles submetidos a uma rigorosa censura: colocou na internet o texto sem cortes. Os fãs foram atrás.

Murong Xuecun em sua casa em Pequim; o escritor é grande crítico da censura na China | Shiho Fukada/The New York Times

Murong Xuecun é o pseudônimo de Hao Qun, 37, um dos mais famosos numa safra de escritores chineses que se tornaram sensações editorais na última década graças ao uso astuto que fazem da internet.

Os livros de Murong são picantes, violentos e niilistas, com histórias de empresários e autoridades envolvendo-se em subornos, brigas, bebedeiras, jogos de azar e programas com prostitutas nas prósperas cidades chinesas.

O simples fato de seus livros serem publicados na China mostra como o setor, outrora muito controlado pelo Estado, está mais voltado para o mercado.

Mas a prosa de Murong inevitavelmente esbarra na censura. O autor se diz um “criminoso da palavra” aos olhos do Estado e um “covarde” aos seus próprios olhos, por recorrer à autocensura. Ele contou que já abandonou pela metade dois romances que suspeitava que jamais seriam publicados.

O pior efeito da censura é o impacto psicológico sobre os escritores“, disse Murong.

Quando eu estava trabalhando no meu primeiro livro, não me importava se ele seria publicado, então escrevi o que quis. Agora, após ter publicado alguns livros, posso sentir claramente o impacto da censura quando escrevo. Por exemplo, penso em uma frase, e aí percebo que ela certamente será suprimida. Então nem a escrevo. Essa autocensura é o pior.

Suas frustrações o levaram a se tornar um dos mais inflamados críticos da censura na China. Após fechar a boca em novembro de 2010 em Pequim, ele leu publicamente seu discurso proibido três meses depois, em Hong Kong.

Murong Xuecun, popular romancista chinês, autografa uma de suas obras em universidade na China | Shiho Fukada/The New York Times

Murong deve o seu sucesso comercial ao fato de ter encontrado formas de praticar a sua arte e de angariar leitores na internet, fora da indústria editorial, onde o patrulhamento é maior.

Ele aborda questões políticas em um blog e em um serviço semelhante ao Twitter. Conforme escreve os romances, vai colocando-os na internet, capítulo por capítulo, sob diferentes pseudônimos.

Quando o livro está concluído, ele assina contrato com uma editora. As edições impressas, censuradas, rendem dinheiro, mas as versões da internet são mais completas.

Em 2004, a estatal Rádio China Internacional qualificou o popular romance de estreia de Murong como “um formador de opinião cibernético”. Mas autoridades da cidade de Chengdu, onde a história se passa, denunciaram a obra. A versão sem censura foi traduzida para o inglês [“Leave Me Alone: A Novel of Chengdu”, que significa “deixem-me em paz: um romance de Chengdu”] e indicada em 2008 ao prestigioso Prêmio Literário Asiático Man.

A internet não oferece libertação total aos escritores chineses, já que há monitoramento. Mesmo assim, ela desencadeou uma revolução editorial, permitindo novas vozes. Os editores podem caçar talentos e comprar os direitos para edições impressas.

O site Rongshuxia é particularmente influente, divulgando romances de Annie Baobei, Ning Caishen e Li Xunhuan [pseudônimo de Lu Jinbo, hoje um importante editor que apoia Murong].

A internet criou todas – e digo todas- as tendências literárias que decolaram em 2005 e depois“, disse Jo Lusby, editora-gerente da Penguin China.

Li Xunhuan, que usa o pseudônimo de Lu Jinbo, hoje é um importante editor que apoia Murong | Shiho Fukada/The New York Times

Murong já escreveu quatro romances e um livro-reportagem, baseados nos anos que passou vivendo em grandes cidades chinesas e trabalhando como consultor jurídico e em outros cargos.

Ele escrevia nas horas vagas e enviava os textos para revistas, mas era sempre rejeitado. Até que topou na internet com um fórum interno da empresa de cosméticos onde trabalhava. Ali amadores colocavam poemas e contos.

Vi um romance intitulado ‘Minha Pequim’, que me inspirou“, disse. “Pensei: ‘Também posso escrever esse tipo de coisa’.

Depois que Murong assinou contrato para publicar o romance de Chengdu, foi obrigado a cortar 10 mil palavras. Mas, depois que o livro saiu, ele colocou o original não censurado na web. “A sensação foi libertadora“, afirmou.

Alguns autores são céticos quanto ao efeito dos livros não censurados na internet. Chan Koonchung, autor de “Os Anos Gordos”, romance distópico publicado em Hong Kong e Taiwan, mas vetado na China continental, disse acreditar que apenas um pequeno número de pessoas na China comunista leria o livro na rede, já que ele não pode ser citado na imprensa ou em outros fóruns.

Murong começou a se amordaçar no segundo livro. “Eu já sabia onde estavam os limites“, disse.

Ele originalmente planejou que os protagonistas tivessem vivido os protestos de 1989 na praça Tiananmen. Mas disse que não se atreveu a ultrapassar essa “intocável linha vermelha”. A versão completa da história está on-line.

Agora que estou ciente das minhas tendências à autocensura, tento compensar isso na hora de escrever”, disse Murong. “Posso escrever uma versão e publicar uma versão ‘mais limpa’.

Sua amizade com os editores o leva a se curvar à censura. “Não quero colocar meus amigos em apuros“, afirmou. “Se eles dizem que algo é arriscado, ou que eles podem perder o emprego por causa disso, eu os deixo suprimirem o que quiserem.

Murong Xuecun, autor de romances niilistas, fuma cigarro em Qingtao, na China | Shiho Fukada/The New York Times

A luta mais dolorosa de Murong contra a censura ocorreu quando ele trabalhava com um editor na preparação do seu livro mais recente, “China: Na Ausência de um Remédio“, que documenta os 23 dias que ele passou investigando clandestinamente um esquema de pirâmide. O livro saiu no ano passado e foi aclamado. A revista “Literatura Popular”, fundada por Mao Tse-tung, o premiou.

Mas sua edição envolveu inacabáveis negociações. Até termos como “chineses” tiveram de ser trocados por “algumas pessoas”. Murong gritou com o editor e socou uma parede da sua casa. “Em 2008, a censura foi dolorosa, e pude suportá-la. Mas, em 2010, eu não aguentava mais.

Zhang Jingtao, o editor, disse que queria “tornar o livro mais adequado à nossa sociedade e aos nossos tempos”. “Meu trabalho é ser o controle de qualidade ideológico“, afirmou.

Em novembro do ano passado, na véspera da cerimônia de premiação da “Literatura Popular”, Murong passou oito horas preparando o seu discurso.

Ele escreveu: “A única verdade é que não podemos falar a verdade. O único ponto de vista aceitável é que não podemos expressar um ponto de vista“.

O discurso tinha 4.000 palavras. Mas nem uma só foi pronunciada naquela noite.

POR EDWARD WONG | DO “NEW YORK TIMES”, EM PEQUIM | MIA LE contribuiu com pesquisa | Publicado no Brasil por Folha.com | TEC | 15/11/2011 – 08h11