Amazon começa a vender Kindle Fire um dia antes do previsto


A Amazon, fabricante do popular leitor de livros eletrônicos Kindle, começou a vender, nesta segunda-feira [14], seu novo tablet Kindle Fire, um dia antes do previsto.

A própria Amazon anunciou a antecipação da distribuição do Kindle Fire, que deve enfrentar a partir desta semana a concorrência do Nook Tablet, da livraria Barnes & Noble.

Os dois aparelhos – que custam US$ 199 [Kindle Fire] e US$ 249 [Nook Tablet] – estão destinados ao mercado americano, fortemente dominado pelo iPad, da Apple, que custa US$ 499.

Jeff Bezos, executivo-chefe da Amazon, apresenta o tablet Kindle Fire | Photo Emmanuel Dunand, France-Presse

O Kindle Fire se transformou rapidamente no item mais vendido de toda a página Amazon.com e, em vista da reação dos consumidores, vamos fabricar outros milhões além dos que tínhamos previsto“, destacou em um comunicado Dave Limp, vice-presidente da Amazon, encarregado da família de produtos Kindle.

A Amazon não divulgou os números de vendas.

DA FRANCE-PRESSE, EM WASHINGTON | Publicado por Folha.com | 14/11/2011 – 18h13

Kindle Fire, da Amazon, merece sucesso, mas precisa ser refinado


Se você acha que o ritmo do progresso tecnológico já anda rápido demais, evite olhar para os leitores eletrônicos ou poderá sofrer um choque.

Os fabricantes de leitores eletrônicos estão repentinamente inundando o mercado com novos modelos, todos ao mesmo tempo. Dá quase para pensar que estamos chegando a alguma grande temporada de compras.

A maior manchete entre os leitores eletrônicos cabe sem dúvida ao novo tablet colorido e equipado com tela de toque da Amazon, o Kindle Fire. [Um trocadilho com “kindle” – alumiar – e “fire” – fogo -, percebe?] Na verdade, a grande notícia não é o aparelho, mas sim seu preço de US$ 200. Como os demais tablets custam por volta de US$ 500, um modelo vendido por US$ 200 é realmente importante. Voltaremos ao assunto em breve.

A Amazon lançou um total de três novos modelos de Kindle. Os dois mais baratos certamente atrairão menos atenção, devido à fumaça do Fire, mas é uma lástima, pois são realmente espetaculares.

KDa esquerda para a direita, os aparelhos Kindle Fire, Kindle Touch e Kindle, da Amazon

E INK

O Kindle padrão, chamado simplesmente Kindle, tem uma versão melhorada da tela E Ink padrão de seis polegadas, que mostra texto nítido, preto, e imagens em tons de cinza sobre um fundo cinza claro. O clarão irritante de branco-preto-branco que surge quando se vira uma página de tela E Ink agora só acontece a cada seis páginas. A tela está se tornando espantosamente semelhante ao papel. E, como o papel, ela não brilha; para ler com um Kindle, você precisa de luzes.

O novo Kindle é pequeno a ponto de caber no bolso da calça. Mas, de novo, a verdadeira notícia sobre ele é o preço: US$ 80.

Você faz ideia de como esse número espanta? O primeiro Kindle, lançado em novembro de 2007, custava US$ 400. O novo modelo pesa 40% menos, ocupa um terço menos de espaço e armazena sete vezes mais livros – e por 20% do preço original.

Se as coisas continuarem assim, dentro de um ano, a Amazon vai nos pagar para ler com o Kindle.

Há alguns benefícios adicionais que elevam um pouco o preço. Por exemplo, o modelo de US$ 80 exibe publicidade. Não durante a leitura –apenas na tela de “repouso” e em uma faixa na porção inferior da tela de menu. A maior parte dos anúncios oferece descontos, o que os torna bem mais palatáveis. Mas o mesmo Kindle está disponível sem publicidade ao preço de US$ 110.

O segundo modelo novo, o Kindle Touch, é quase idêntico -mas, no lugar de navegar usando um controle direcional mecânico, você usa uma tela de toque. O sistema funciona com perfeição. O modelo está disponível com anúncios por US$ 100 e sem eles a US$ 140.

Todos eles são conectáveis a redes Wi-Fi – para baixar novos livros, por exemplo. Mas o Touch também oferece conexão 3G, onde quer que você esteja. [O modelo 3G custa US$ 150 com anúncios e US$ 190 sem.] O acesso à internet é gratuito.

Kindle Fire, tablet da Amazon, é exibiado em coletiva de imprensa em Nova York | Photo Emmanuel Dunand, France-Presse

FIRE

Bem, quanto ao Kindle Fire.

É um objeto espesso, preto e reluzente, com tela de sete polegadas. Opera com o Android, software do Google que aciona diversos celulares e tablets de outras empresas, mas isso é imperceptível, porque a Amazon alterou o design do Google a ponto de quase soterrá-lo.

A página inicial é colorida e exibe uma estante de madeira. O conteúdo que essa tela oferece é acessado por meio de pequenos cartazes que mostram livros, discos, programas de TV, filmes, documentos em PDF, aplicativos e páginas de preferências na internet. Na prateleira inferior da estante, você pode colocar os ícones que usa com mais frequência.

Mas, se você sentir um sobressalto e exclamar que “é como um iPad – e por US$ 200!”, estará fazendo uma comparação perigosa.

Para começar, o Fire não é nem de longe tão versátil quanto um verdadeiro tablet. Seu design serve para consumir conteúdo, especialmente conteúdo comprado da Amazon, a exemplo de livros, jornais e música. Ele não conta com câmera, microfone, função GPS, entrada para cartão de memória ou conexão Bluetooth. O programa de e-mail é funcional, mas o aparelho não oferece agenda ou bloco de anotações.

O mais problemático é que o Fire não funciona com a elegância e a velocidade do iPad. O preço de US$ 200 se faz sentir a cada vez que você move os dedos na tela. As animações são lentas e instáveis – mesmo as viradas de páginas que, seria de imaginar, a equipe de designers do Fire está acostumada a simular. Os toques na tela ocasionalmente não são registrados. Não existem ícones de espera ou de progresso de tarefa, e por isso você muitas vezes fica sem saber se a máquina registrou sua instrução. O timing das animações não foi calculado corretamente, o que deixa tudo meio irascível.

As revistas deveriam ser uma das melhores experiências do novo aparelho. A maioria oferece duas formas de ver páginas. O modo Page View mostra o layout original da revista – mas pequeno demais para que você possa ler, porque o zoom é limitado. O modo Text View oferece apenas texto sobre um fundo branco. É ótimo para leitura, mas você perde o design e o layout, que são metade da alegria na leitura de uma revista. E o Text View às vezes come palavras, legendas de fotos e quadrinhos, etc.

Livros infantis, para os quais a cor é importante, nunca funcionaram bem nos tablets com tela E Ink, e por isso fazem com o Fire sua primeira aparição na família Kindle. A contribuição da Amazon para isso é que tocar a tela permite ampliar um bloco de texto para leitura –uma escolha peculiar, porque livros infantis já tendem a ter letras grandes.

O sistema de vídeo funciona bem, mas filmes e programas de TV não se enquadram nas proporções da tela e não é possível usar zoom para remover as faixas pretas nas laterais da tela. Reflexos também são problema, nessa tela de alto polimento.
O navegador de internet incluído supostamente acelera o download de páginas ao transferir parte da tarefa a servidores da Amazon. Além disso, se você visitar, por exemplo, a home page do “New York Times”, a Amazon tenta adivinhar que link você procura com base na popularidade dos links, e encaminha certas porções de página automaticamente ao Kindle, o que pode tornar o processo ainda mais rápido.

Na prática, a vantagem não é perceptível: o site do “New York Times” demora dez segundos para ser carregado; o do eBay, 17 segundos; e o da Amazon, oito segundos. No caso do iPad, a demora é 50% menor. Por outro lado, o Fire pode executar vídeos em Flash [ainda que aos trancos], o que o iPad não faz.

Aplicativos criados para tablets equipados com o Android precisam de adaptação para funcionar no Fire. Os essenciais já estão disponíveis – Angry Birds, Netflix, rádio Pandora, Facebook, Twitter, Hulu Plus -, e a Amazon promete milhares de outros.

Mistura de Kindle e iPad, o Fire merece ser uma força gigantesca e perturbadora, mas precisa ser refinado | Stuart Goldenberg/The New York Times

ESCOLHA

A escolha de um leitor eletrônico é decisão importante. Os livros eletrônicos de cada empresa são distribuídos em formatos fechados, e o comprador não pode vendê-los ou doá-los. Assim, se você escolher um Kindle em vez de um Nook, da Barnes & Nobles, mudar de ideia pode custar caro.

O argumento em favor da Amazon é que ela domina o mercado. Conta com lojas on-line de música e filmes. E 11 mil bibliotecas públicas nos Estados Unidos emprestam livros para o Kindle.

Tudo o que for comprado ficará armazenado em um arquivo pessoal on-line pela Amazon, e por isso você conta com backup permanente e pode acessá-lo com qualquer outro aparelho da Amazon. Se você estiver assistindo a um filme com o Fire, seu Roku ou TiVo caseiro saberão em que ponto você parou e permitirão que retome a partir dele.

O pacote Amazon Prime, que custa US$ 80 ao ano, oferece transmissão ilimitada de 13 mil filmes e programas de TV, entrega gratuita de produtos em dois dias para suas compras na Amazon e um livro grátis para empréstimo no Kindle a cada mês [mas de um acervo bastante limitado].

A Barnes & Noble, por outro lado, oferece a conveniência de assistência técnica pessoal em sua rede de 700 lojas. E também prepara um tablet baseado no Android, que resenharei assim que for lançado.

Caso a leitura seja seu interesse primário em um leitor eletrônico, a escolha óbvia é o Kindle ou o Kindle Touch.

O Fire merece ser uma força gigantesca e perturbadora – é uma mistura de Kindle e iPad, um aparelho mais compacto para ver vídeos e acessar a internet, e tem preço ótimo. Mas por enquanto ainda precisa ser refinado; se você está acostumado com o iPad ou um tablet Android “real”, os probleminhas de software vão deixá-lo furioso.

Mas a Amazon tende a remover os defeitos de suas criações 1.0 até que produza um sucesso. Ou, como se diz no mundo da tecnologia, “se a safra atual de leitores eletrônicos não o agrada, basta esperar um minuto”.

POR DAVID POGUE | Publicado originalmente em “THE NEW YORK TIMES” | Tradução de PAULO MIGLIACCI | Publicado no Brasil por Folha.com | 14/11/2011 – 17h50