Editoras ainda estudam como implementar formato no Brasil


Apesar das mudanças radicais no cenário americano, o formato de venda de HQs no Brasil ainda será o mesmo pelos próximos anos.

A Panini, que publica quadrinhos da DC no país, informou, por meio de sua assessoria, que estuda o formato digital, mas não tem nada a declarar no momento.

Se nos quadrinhos semanais o processo será mais lento, as graphic novels, obras mais complexas e vendidas em formato de livros, devem ser digitalizadas com maior velocidade.

Existe um caminho novo, que ainda estamos estudando. A possibilidade de unir os leitores por meio de aplicativos, comentários e redes sociais é algo muito interes-sante“, diz André Conti, da Companhia das Letras.

Segundo ele, os artistas também têm interesse na transposição, e há poucas dificuldades em transformar os quadrinhos de papel em obras digitais.

A Conrad, primeira editora a lançar quadrinhos no iPad, confia no formato. “Ele não vem para substituir o papel, e sim para complementar e trabalhar como uma nova forma de divulgação de vários artistas“, diz Rogério de Campos, diretor editorial da empresa.

POR LEONARDO MARTINS | COLABORAÇÃO PARA A FOLHA | São Paulo, quarta-feira, 31 de agosto de 2011

HQs digitais precisam ser aperfeiçoadas, diz Fábio Moon


Ao lado de seu irmão Gabriel Bá, Fábio Moon é um dos artistas brasileiros mais conceituados nos EUA. Eles acabam de lançar sua nova obra, “Daytripper”, que já está disponível no aplicativo Comics.

Moon, que também assina quadrinhos para a Folha, falou sobre a movimentação das publicações digitais.

Leia abaixo os principais trechos da entrevista.

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Folha – O que muda no processo digital dos quadrinhos para os artistas?

Fábio Moon – Por enquanto, para o artista, pouco muda. Nós ainda desenhamos pensando no mesmo formato, o papel.

Então, para vocês, o digital não muda muita coisa?

Não. Até piora. Eu acho que o formato digital ainda tem baixa resolução; então, se você dá zoom na imagem, é possível ver os pixels. O bom do iPad é que ele tem o tamanho do gibi. Mas o zoom não tira proveito do tablet. Acredito que o processo precise ser aperfeiçoado. Por enquanto, é só um jeito de colocar na internet.

”]Você acredita que há um futuro para esse formato de publicação?

Acho que tem um futuro, mas não em quadrinhos. Se eu tivesse que fazer algo para internet, para tablets, em um mundo onde tudo tem musiquinha e barulhinho, eu não faria um quadrinho, e sim alguma coisa interativa.

As redes sociais podem substituir a troca de informações entre fãs de HQs?

É maior medo, o digital eliminar as lojas de publicações mensais. Não é um formato fácil para compartilhar um gibi. Eu compro o meu, você compra o seu. Não dá para emprestar.

POR LEONARDO MARTINS | COLABORAÇÃO PARA A FOLHA.COM | 31/08/2011 – 12h29

As editoras de livros impressos e eletrônicos vão publicar o mesmo conteúdo?


Por Mike Shatzkin | Publicado originalmente em Publishnews | 31/08/2011

Mike Shatzkin

Recentes relatórios de desempenho da Simon & Schuster e da Penguin, que podem ser tomados como indicadores, de alguma forma, do que está acontecendo com as outras “Big Six” nos EUA [além de serem também instrutivos sobre o que está acontecendo em todo o mercado editorial norte-americano], mostram que a receita está estável ou caindo, os lucros estão crescendo e que a parte dos e-books na receita está aumentando. Os relatórios mais recentes mostram que os e-books alcançaram 14% da receita na Penguin e na Simon & Schuster.

Primeiro, algumas observações sobre o que esses números realmente significam. Depois, alguns pensamentos sobre as implicações que terão no futuro próximo.

Devemos lembrar que estamos comparando maçãs e laranjas quando falamos sobre a porcentagem de vendas que representam e-books versus livros impressos. Chega-se a esta porcentagem, supostamente, somando as vendas dos livros impressos [que são envios sujeitos a devoluções] às vendas de e-books [que são compras reais de consumidores com devolução zero ou mínima] e depois dividindo os números da receita de e-books pela receita total.

Isso explica a aparente anomalia apontada no relatório da S&S, que mostra uma porcentagem maior do e-book no primeiro trimestre do que no segundo, o que já ocorreu em vários anos. Isso não é realmente difícil de entender. Um relatório que vi recentemente apontava uma explicação: as pessoas que ganharam e-readers no Natal compram mais livros em janeiro, um efeito que é menor no segundo trimestre. Mas também é o caso de que as vendas de impressos no primeiro trimestre [que são envios das editoras às livrarias, devemos lembrar] diminuem por dois fatores: incluem as devoluções das promoções de Natal e o primeiro trimestre não é onde se concentram os lançamentos de novos livros.

Então, enquanto há maiores envios de impressos sob consignação acontecendo antes das vendas de Natal e um grande número de novos donos de aparelhos final das festas, podemos esperar que os números do primeiro trimestre sejam aumentados artificialmente e os números do segundo trimestre mostrem um aparente declínio.

O declínio anual do segundo trimestre é apenas aparente, não é real.

A porcentagem de receita também serve às más interpretações. É uma média. Você conhece o ditado: “o homem de 1,82m se afoga caminhando por um rio que tem em média de 1 metro de profundidade”. Médias podem enganar. Esta porcentagem, tirando o fato de serem maçãs e laranjas, também é enganadora [me apresso a enfatizar que ninguém está querendo enganar de forma deliberada; não há nenhuma sugestão intencional aqui de afirmar que o número não é real ou que existe algum desejo de levar as pessoas a conclusões equivocadas].

Mas 14%, ou ao redor de 1/7, poderia levar as pessoas a pensar que o livro que vende 35 mil cópias está vendendo 30 mil em formato impresso e 5 mil em digital. Não é o caso. Primeiro de tudo, e-books “em média” geram menor receita por unidade do que os impressos porque muitos deles vendem por menos da metade do preço de varejo se comparado com a versão hardcover. Então, se 14% da receita é digital, algo mais do que essa porcentagem de unidades são digitais. Digamos que o número é mais próximo dos 17% ou talvez 20%.

Em segundo lugar, este número é, pelo menos até certo ponto, histórico. Certamente não é uma previsão. A previsão de todo mundo seria que o número subisse. E todo mundo concordaria [se você calcular o fator apropriadamente para o 1º e o 2º trimestres, além das anomalias de envios para vendas] que ele cresceu no período informado no relatório.

Em terceiro, nem todo o catálogo de impressos da S&S ou da Penguin está disponível em e-book. Isso significa que a base de títulos para os 14% de receita e [hipotéticos] 17% das unidades é um número menor de títulos do que a base de títulos impressos. Então para os livros disponíveis tanto como impresso como e-book, a porcentagem de unidades vendidas que são digitais é um número substancialmente maior do que esse. Não tenho tanto conhecimento assim das listas das editoras para fazer um chute razoavelmente bem informado sobre quantos títulos possuem muitas ilustrações ou são livros infantis ou já esquecidos no catálogo a ponto de os direitos para a edição de e-books serem muito confusos. Mas seria razoável assumir que para livros com narrativas comuns [não em termos de conteúdo, mas de forma], a porcentagem de unidades de e-books pode chegar a uns 30% ou mais.

Um relatório recente da Simon & Schuster sobre o primeiro dia de vendas de um grande best-seller enfatizou o poder do e-book nos EUA. O USA Today informou em 13 de julho que a S&S afirmava ter vendido 175 mil unidades totais vendidas no primeiro dia de disponibilidade de A Stolen Life, de Jaycee Dugard, dos quais 100 mil eram e-books [O artigo não deixa claro, mas é provável que sejam maçãs e maçãs, vendas de livros na caixa registradora e audiobooks informados pela BookScan e, como sempre, vendas registradas de e-books. Se eles comparassem envios de impressos com vendas de e-books, o número seria provavelmente uns 40% e não os 57% como indica esse relatório].

Como as vendas de e-books são, no momento, receita dólar por dólar, mais lucrativos do que as vendas de livros impressos, as editoras são capazes de informar receitas estáveis ou menores e lucros mais altos. Com o padrão da indústria de pagar 25% dos royalties dos e-books já prevalecendo nos últimos dois anos, mais ou menos, esta notícia definitivamente chama a atenção de agentes atentos. Mas, deixando de lado o sucesso futuro dos agentes em negociar melhores termos, é provável que isso continue assim?

Uma variável muito relevante que é difícil de prever é como editoras bem-sucedidas poderão manter os preços dos e-books altos se o ponto de referência nos preços dos livros impressos está diminuindo. Será um desafio maior manter os preços e, portanto, as receitas e margens altas – mesmo com o poder de agência, que só seis editoras no mundo hoje possuem realmente – quando o preço do livro impresso não for visto mais como base para comparação.

Na verdade, o atual crescimento no lucro sugere que as grandes editoras conseguiram fazer um bom trabalho no gerenciamento da transição de impresso para digital até o momento. O que está implícito nos números informados, mas que recebeu pouca atenção, é que as vendas de livros impressos está caindo tremendamente. Um editor me contou que a lista média de primeiras impressões de não-ficção caiu cerca de 40%. Uma editora maior sugere que o número de livros impressos que estão saindo de seus depósitos é 35% menor do que há dois anos. Não tenho acesso aos números, mas isso poderia significar que em alguns segmentos a queda pode chegar à metade do que era há dois anos.

Impressões menores significam preços maiores por unidade, mas também significa que unidades menores estão compartilhando o custo do design e da diagramação. Muitos dos custos fixos nas editoras: depósitos, departamento de produção, criação de catálogo e muita TI só são realmente necessários para apoiar o componente impresso do negócio. Nas últimas duas décadas, o sucesso comercial na publicação de livros [e, como a quebra da Borders deixou claro, no varejo também] dependia de uma cadeia eficiente de suprimentos. Ter estoque, mas não exagerado, envios rápidos, ser capaz de fazer reimpressões rapidamente, processar devoluções com agilidade para facilitar as contas e fornecer dados precisos para os clientes, bem como os acionistas, tudo isso exige investimento, mas gera valor que são mostrados nos lucros.

Até o Kindle ser lançado em novembro de 2007, a pergunta sobre e-books era “é possível transformar isso num negócio?” Desde então vimos o share do e-book duplicar ou mais do que isso a cada ano, incluindo 2010. Desde 2008 ou 2009, a pergunta tem sido “por quanto tempo este tipo de crescimento pode continuar?” Quando o share chega aos 30% para a maioria dos livros de narrativa, que acho é o número atual, sabemos que não podemos continuar por mais dois anos porque isso seria uma impossibilidade matemática.

Então, as perguntas sobre os e-books agora são “quando esse crescimento vai diminuir?” e “há um limite no qual o livro impresso continua sendo um negócio sustentável e substancial?” Se a resposta à primeira pergunta não for “muito em breve”, então a resposta à segura pergunta deve ser “não”.

A outra pergunta feita aqui é se a publicação de textos narrativos diretos se torna um negócio separado e diferente da publicação de livros ilustrados. Assim como o componente impresso é comercialmente importante para o sucesso de livros de narrativa, é perfeitamente lógico para uma editora publicar os dois. Os livros de narrativa e os ilustrados, afinal, podem ser colocados na mesma prateleira na Barnes & Noble, Ingram ou qualquer livraria. Às vezes, eles são até manufaturados pelas mesmas gráficas [apesar de que muito menos do que há algumas décadas]. O inventário deles pode realmente ser monitorado com as mesmas capacidades e pessoas [apesar de usarem algoritmos diferentes].

Um fator totalmente imponderável é como será o mercado para e-books fora do texto narrativo, pois foi nesse setor que se concentrou todo o crescimento. Para e-books ilustrados, enhanced ou em forma de apps, as histórias de sucesso são pontuais, não tendências inegáveis. É verdade que os aparelhos corretos ainda não estão distribuídos amplamente, mas é também verdade que não temos uma prova clara de que esses e-books serão tão importantes para o consumidor quanto os de textos narrativos. Sabemos que serão mais caros para criar.

Um executivo de e-books que sabe do que está falando, de uma grande editora, me lembrou outro dia que os seus editores de livros de receitas ainda estão preparando o conteúdo primeiramente para a página impressa e as versões digitais são desenvolvidas depois disso. “Se nossos editores ainda estiverem fazendo isso daqui a dois anos”, disse essa pessoa, “então como empresa teremos feito algo terrivelmente errado.” Essa declaração está correta e abrange a possibilidade de que algo como os pacotes de conteúdo de livros de culinária dentro de outros recipientes não terão um mercado lucrativo mesmo em formato digital, e serão explorados de forma completamente diferente. Não sabemos ainda como um fato empírico que as pessoas vão comprar “livros de culinária” digitais, da forma como temos certeza que as pessoas vão ler textos de narrativa em aparelhos, felizes e sem saudades.

[Culinária? Um candidato perfeito para o modelo de assinatura!]

O que sabemos é que uma alta porcentagem de venda de livros ilustrados é para presentes. Até certo ponto, isto acrescenta uma barreira que não tem nada a ver com design ou funcionalidade para a migração para e-books. E esses livros, supostamente mais do que os livros de textos narrativos, se beneficiam do efeito de showroom que as livrarias podem criar. E sabemos o que está acontecendo com as livrarias.

A taxa de migração de impresso para digital de textos narrativos nos últimos quatro anos nos levaria a acreditar que haveria um mercado pequeno para livros impressos dessa categoria daqui a uns poucos anos, se simplesmente não acabar. Se as editoras virem o rendimento com impressos cair outros 35% nos próximos 18 meses, a maioria dos grandes livros de narrativa vender até uns 75% de suas unidades como e-books, e a maioria do que as editoras enviam de seus depósitos for de títulos que não estão entre os mais vendidos, então o jogo terá mudado completamente.

Poderíamos concluir que os conhecimentos e as exigências organizativas para publicar narrativa, se os impressos se tornarem um componente menor do rendimento, serão bem diferentes do que é necessário para publicar o conteúdo ilustrado para o qual o impresso permanece ainda uma parte importante de rendimentos. Naquele mundo, o que constitui um portfólio sensível de ofertas para o que hoje chamamos de “editora de livros” poderia ser definido de forma bem diferente.

Tradução: Marcelo Barbão

Por Mike Shatzkin | Publicado originalmente em Publishnews | 31/08/2011

Mike Shatzkin tem mais de 40 anos de experiência no mercado editorial. É fundador e diretor-presidente da consultoria editorial The Idea Logical Co., com sede em Nova York, e acompanha e analisa diariamente os desafios e as oportunidades da indústria editorial nesta nova realidade digital. Oraganiza anualmente a Digital Book World, uma conferência em Nova York sobre o futuro digital do livro.

Nos Arquivos de Shatzkin, o consultor novaiorquino aborda os desafios e oportunidades apresentados pela nova era digital. O texto de sua coluna é publicado originalmente em seu blog, The Shatzkin Files [www.idealog.com/blog].