Do papel ao suporte digital


Galeno Amorim

Apaixonado por livros desde a infância, o jornalista e escritor Galeno Amorim é, desde o início do ano, presidente da Fundação Biblioteca Nacional. Ainda menino e dotado de grande imaginação, pensou que a Casa de Livros, em sua cidade natal, Sertãozinho, no interior de São Paulo, era toda feita de livros. “Achei que poderia levar comigo pedaços dessa casa. Depois, era só devolver”, recorda. Esse foi o seu primeiro contato com uma biblioteca pública. A paixão foi imediata e definitiva. Autor de 16 obras, entre ensaios e literatura infanto-juvenil, o leitor/escritor faz do amor aos livros uma trajetória profissional e política, exemplo seguido em casa pelos filhos, que são hoje dois jovens leitores. “Li para eles até a adolescência. É bem verdade que, em seus primeiros dias de vida, eu lia para mim mesmo – gostava de ler Neruda em espanhol. Mas, ao fazer isso, estava criando uma cumplicidade, um vínculo afetivo muito forte e poderoso através da leitura“, conta.

Ex-Diretor do Observatório do Livro e da Leitura e especialista em políticas públicas do livro e leitura há mais de 20 anos, Galeno Amorim já foi também secretário da Cultura em Ribeirão Preto. Criou e dirigiu diversas instituições ligadas a essa área, presidiu o Comitê Executivo do Centro Regional de Fomento ao Livro na América Latina e no Caribe [Cerlalc/Unesco] e foi ainda consultor de políticas públicas do livro e leitura da Organização dos Estados Íbero-Americanos para a Educação, Ciências e Cultura [OEI], com sede na Espanha.

No trabalho e na vida, ele pode conciliar sua paixão pelos livros de papel e as novas ferramentas tecnológicas. Blogueiro entusiasmado, com 80 mil leitores no blogdogaleno.com.br e milhares de seguidores no Twitter e no Facebook, tem sempre fôlego para falar de livros.

Pátio – Sabemos que há hoje poucas bibliotecas públicas bem-aparelhadas e que elas são inexistentes em grande parte das escolas públicas. Qual é a estrutura de disponibilização de livros pelo Estado à população brasileira?

Galeno – Nos últimos 8 anos, o Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas [SNBP], da Fundação Biblioteca Nacional/MinC, distribuiu cerca de 4,5 milhões de livros para bibliotecas públicas do país. À Fundação Biblioteca Nacional cabe distribuir somente para as bibliotecas atendidas pelo SNBP, o que não inclui as escolares, que estão vinculadas ao Ministério da Educação.

O que deverá ser feito a curto e médio prazo nesse sentido?
Tenho conversado com os dirigentes do MEC sobre a importância de se criar no país, no âmbito do SNBP, um sistema de bibliotecas escolares e também sobre como podemos cooperar com esse ministério para que o Brasil possa cumprir, até 2021, a lei assinada pelo presidente Lula, que obriga todas as escolas a terem pelo menos uma biblioteca escolar. Acredito que faremos grandes progressos nesse tema.

Uma recente pesquisa mostrou que os estudantes brasileiros têm, em média, menos de 10 livros em casa, enquanto os de países mais bem-colocados em exames internacionais têm mais de 100 livros. O que é preciso para que os brasileiros leiam mais?
Hoje, o índice de leitura por habitante é de 4,7 livros ao ano. Existem no mínimo 95 milhões de pessoas que leram ao menos um livro nos últimos três meses. Precisamos ultrapassar a marca de 100 milhões de leitores. É importante que o Estado brasileiro crie ações para que isso se efetive. O Plano Nacional do Livro e da Leitura funciona com base em quatro eixos que, integrados, formam o motor para estímulo à leitura no país. Estamos estimulando a abertura de milhares de novos pontos de venda de livros, negociando novas linhas de crédito e também preparando editais de compra de livros populares para as bibliotecas municipais e comunitárias. A Fundação Biblioteca Nacional está implementando uma série de mudanças para acelerar os processos de acesso à leitura no país. O Programa Nacional de Incentivo à Leitura [PROLER], por exemplo, terá um papel importantíssimo no enraizamento do PNLL através da sinergia com os vários projetos do governo federal na área da leitura. A principal sinalização desse processo é o montante de recursos a ser anunciado para os próximos 12 meses: será algumas vezes maior do que o valor investido nos últimos anos.

O livro digital já é uma realidade, mas no Brasil ainda não chegamos nem à fase do livro de papel, uma vez que o índice de leitura é muito baixo. O senhor acredita que para a nova geração, a dos chamados nativos digitais, o livro de papel será obsoleto, considerando-se tanto os cidadãos com mais recursos financeiros quanto os de baixa renda?
O livro impresso manterá sua tradição e seu simbolismo. Ele pode conviver com os formatos digitais, que permitem outras possibilidades de uso. O importante é dar acesso ao leitor a boas leituras, seja em bibliotecas tradicionais, multimídia ou através de novos formatos, como os empréstimos de e-books, uma realidade em países da Europa, cuja dinâmica queremos trazer para o Brasil.

As tecnologias digitais podem ser uma alternativa para democratizar o acesso à leitura?
Penso que sim. Hoje, podemos dar acesso a milhões de usuários, com grande facilidade, a um livro da Idade Média existente na Biblioteca Nacional em um formato simples como o pdf. É importante ampliar ações desse tipo. Estamos começando a preparar a Biblioteca Nacional Digital para que ela também possa, em breve, emprestar e-books. Vamos iniciar a digitalização de 4.500 títulos importantes da literatura brasileira que estão em domínio público, dos quais serão selecionados 100 para que sejam, a partir do início de 2012, colocados à disposição dos leitores para empréstimo gratuito.

Há muito tempo se fala que no Brasil não se lê porque o livro é caro e que o livro é caro porque não se lê. Portanto, as tiragens são baixas, o que encarece o processo. Qual é a sua opinião sobre isso e como sair desse círculo vicioso?
É possível fazer com que o livro no Brasil seja vendido a preços mais baixos. Estamos trabalhando para criar as condições necessárias para que as dezenas de milhões de brasileiros que ascenderam socialmente nos últimos anos também passem a consumir livros, assim como já consomem mais eletrodomésticos, serviços bancários ou passagens aéreas. Queremos colocar os livros na cesta da classe C. Estamos estimulando a abertura de milhares de novos pontos de venda de livros, negociando novas linhas de crédito e preparando editais de compra de livros populares para as bibliotecas municipais e comunitárias.

Muitos estudantes não têm a oportunidade de manter contato com a leitura em casa. Vale lembrar que muitos professores também não têm o hábito de ler e, por isso, não podem transmitir o gosto pelos livros. Como virar esse jogo?
A sala de aula deve ser reconhecida como um espaço de leitura. O “professor leitor” é a figura que mostra ao aluno a importância do livro para a formação do cidadão. Uma das práticas do PROLER é atualizar o conhecimento de professores e estimular, por meio de cursos de formação, a inserção de novas ações em sala de aula. O PROLER atua em 71 comitês regionais em todo o país e, desde a sua criação, em 1992, já formou mais de 65 mil mediadores de leitura, beneficiando cerca de 270 mil pessoas. A continuidade e a dinamização desse trabalho é o que nos possibilita crer em uma “virada de jogo”.

Em sua opinião, quais são os principais programas de incentivo à leitura que realmente fizeram ou estão fazendo a diferença no Brasil?
A criação do Plano Nacional do Livro e da Leitura é um marco na história do Brasil e hoje suas ações constituem uma referência para outros países. Os últimos 10 anos certamente entram para a história como os mais importantes na área, pois representaram um grande avanço. A Lei do Livro, o Prêmio Vivaleitura e a desoneração fiscal dos livros são exemplos concretos de incentivo à leitura.

No âmbito mundial, o senhor conhece exemplos de países que conseguiram aumentar seus índices de leitura, com repercussão na qualidade da educação, que poderiam servir de modelo para o Brasil?
O Ministério da Cultura ajudou a construir no Rio de Janeiro, em 2010, a Biblioteca Parque de Manguinhos, nos moldes das existentes na Colômbia. Medellín e Bogotá, naquele país, são exemplos de cidades marcadas pelo narcotráfico e pela violência. Com a inauguração de equipamentos que integravam leitura e programas culturais em apenas um lugar, essas cidades conseguiram diminuir os índices de violência e aumentar os de educação. Um belo exemplo a ser seguido em programas de leitura mundo afora.

Qual a situação do Brasil em termos de leitura se comparado a outros países emergentes e aos vizinhos latino-americanos?
Apesar dos avanços dos últimos anos, ainda há muito a fazer para melhor a posição do Brasil no ranking de leitura. Em 2010, ficamos em 53º lugar no Programa Internacional de Avaliação de Alunos [Pisa], realizado pela Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico [OCDE], que avaliou o conhecimento de cerca de 470 mil alunos em leitura, ciências e matemática no ano anterior. Os melhores resultados foram apresentados por alunos de Xangai, na China. Na América Latina, ficamos à frente de países como Argentina, Panamá e Peru, mas vizinhos como Chile, Uruguai e Colômbia apresentaram índices melhores. Já com relação aos índices de leitura, somente quando os países vizinhos realizarem suas pesquisas utilizando a metodologia do Brasil, desenvolvida pelo Cerlalc/Unesco, é que teremos condição de estabelecer essas comparações na América Latina.

Como é ser presidente de uma das bibliotecas mais importantes do mundo?
Dirigir a Fundação Biblioteca Nacional é uma dupla responsabilidade. Primeiro, porque a instituição é responsável pela gestão da Biblioteca Nacional, que tem 200 anos e nove milhões de peças. Passaram por seus cargos de direção nomes importantíssimos da literatura e da intelectualidade do Brasil. Segundo, porque a fundação tem sob sua responsabilidade o comando da formulação e execução das Políticas Públicas do Livro e da Leitura do país. Mas eu me sinto preparado levar adiante esses desafios.

No dia 9 de junho, o senhor teve um encontro muito importante com o presidente do Senado, José Sarney, ao qual pediu apoio às Políticas Públicas do Livro e da Leitura. Esse encontro foi produtivo?
O presidente José Sarney assumiu alguns compromissos. O primeiro deles foi reapresentar um projeto de lei que estende às pequenas livrarias e editoras a desoneração fiscal para aquelas empresas que são optantes do simples. Para as outras editoras, livrarias e distribuidoras, a desoneração acontece desde 2004. Nessa época, estava no governo e já havia conduzido esse processo com a ajuda do senador José Sarney. O Senado fará uma sessão solene no Congresso para homenagear os 200 anos da Biblioteca Nacional. Estaremos lá com uma exposição de obras raras na sede do Congresso Nacional. O presidente do Senado também assumiu o compromisso de apoiar os projetos de lei de interesse da nossa área no Congresso Nacional, como, por exemplo, a criação de uma nova instituição para gerir as Políticas Públicas Setoriais, a criação de um Plano Nacional do Livro e da Leitura e a criação do Fundo Nacional Pró-Leitura. Discutimos outras questões, como o apoio ao Programa do Livro Popular e a criação das Livrarias Populares. Contaremos com o apoio do Senado para a Lei das Biografias. Vamos tentar dar fim a essa onda de proibições de biografias não autorizadas que, infelizmente, assola o país.

Com tanto trabalho e responsabilidade, ainda sobra algum tempo para a leitura?
O volume de trabalho é significativo. Em geral, começo a trabalhar às 9 horas da manhã e vou até as 21 horas, mas eu leio muito. Sempre publico no Twitter o que estou lendo. Este ano, já li cerca de 14 livros. Preciso da leitura e da literatura para viver.

Pátio | Revista Pedagógica | 30/08/2011