Para autor, pirataria on-line está ‘acabando com a cultura’


Livro de ex-‘Billboard’ sobre apocalipse cultural causado pela web não convence

Em “Free Ride”, Robert Levine, ex-editor-executivo da “Billboard”, apresenta argumentos fortes para profetizar um apocalipse cultural.

Quando a internet surgiu, apanhou o setor cultural de surpresa, escreve ele. As empresas de tecnologia, contudo, estavam mais bem preparadas e aproveitaram para pressionar por leis favoráveis.

Os problemas começaram quando serviços como Napster passaram a ameaçar muitos modelos de negócios, ao permitir que usuários trocassem arquivos gratuitamente.

Pior: um lobby intelectual capitaneado por professores de direito e bancado pelo Vale do Silício passou a racionalizar isso sob o estandarte da “liberdade cultural”.

Levine é um escritor envolvente e instigante, e “Free Ride” tem muito a oferecer.

Sua percepção básica, a de que o apreço do Vale do Silício pela experimentação pode ter prejudicado a indústria da cultura, está certa. Sua explicação da “cultura livre” como subproduto da agenda sigilosa do Vale do Silício também tem muito de inovador.

Mas seu apego a teorias da conspiração -tudo conduz ao Google! – é uma distração.

Embora seja verdade que o Google orienta a formação de política relativa à internet, isso não significa que seus interesses e os do público sempre divirjam. Para mencionar exemplo óbvio, o Google financia projetos cujo objetivo é contornar a censura à web.

Ao montar seu passional ataque, ele muitas vezes distorce argumentos oponentes.

Exemplo: ele alardeia relatório de 2010 segundo o qual 25% do tráfego da web se relaciona à pirataria, mas não diz que o mesmo relatório constatou que filmes que podem ser assistidos legalmente são pirateados menos.

O chamado às armas de Levine -“é hora de perguntar a sério se o negócio da cultura na forma pela qual o conhecemos hoje será capaz de sobreviver à era digital”- ilustra uma má compreensão.

Se nossas leis sempre tivessem sido redigidas de forma a preservar o “negócio da cultura tal qual o conhecemos”, a fotografia, o gramofone, as fotocopiadoras, os gravadores e, sim, a internet talvez nunca tivessem surgido.

CULTURA EM XEQUE

As tecnologias são de fato ameaça tão grande à cultura?

Segundo uma pesquisa recente da BookStats, em 2011 a receita do setor editorial foi 6% mais alta que em 2008 -em parte graças aos livros eletrônicos. O avanço mundial de serviços de locação de vídeo em streaming, como o Netflix, tornou a pirataria menos atraente.

Algumas declarações de Levine enfatizam o perigo de estabelecer a política de internet tendo por base apenas os interesses do setor de conteúdo. Para este, a web é uma espécie de TV em escala maior -e seu impacto sobre os levantes árabes, o desenvolvimento econômico e humano e o futuro do aprendizado não faz diferença.

No entanto, seria irresponsável formular políticas para a internet sem examinar como elas afetarão áreas que nada têm a ver com cultura.

Será que desejamos criar ferramentas que vasculhem o conteúdo on-line em busca de violações de direitos autorais, para descobrirmos um dia que ditadores as usavam para espionar dissidentes?

O que Levine propõe não é novo. Ele quer reformar ou reinterpretar as leis que protegem as empresas de internet da responsabilidade pelos atos de seus usuários e criar novas leis que puniriam os distribuidores e consumidores de material pirateado.

Tudo traria consequências inesperadas -vigilância mais intensa, inovação travada e problemas na arquitetura da web-, mas Levine opta por não mencionar nada disso.

FREE RIDE

Robert Levine
EDITORA Doubleday [320 págs.]
QUANTO £ 9,50

POR EVGENY MOROZOV | ESPECIAL PARA O “GUARDIAN” | Publicado em portugês por Folha de S. Paulo | Tradução de PAULO MIGLIACCI | São Paulo, sábado, 27 de agosto de 2011 | Caderno Mercado, cifras & letras

A leitura no século 21


Desafios dos jornais e da literatura no meio digital foram tema de debate

Pesquisas sobre leitura e internet têm mostrado que o leitor de mídias digitais tem menos concentração e se recorda de menos detalhes após o término da leitura. Como fazer para prender a atenção desse leitor – seja de veículos de comunicação, seja de literatura – foi uma das questões centrais da conferência A Comunicação do Impresso ao Digital, realizada na noite de quinta na 14ª Jornada Nacional de Literatura de Passo Fundo, com participação dos jornalistas Roberto Dias, da Folha, Eduardo Diniz, de O Globo, Pedro Lopes, da Zero Hora, e Rinaldo Gama, editor do suplemento Sabático, do Estado.

O desafio, como mostrou Lopes ao apresentar no telão uma série de gráficos, é contínuo: calcula-se, por exemplo, que em um ano a venda de PCs seja superada pela de tablets, formato no qual tem sido mais explorada a interação. Outra pesquisa retratou um desafio dos jornais e revistas: a leitura destes aparece em 10° lugar entre os motivos mais comuns pelos quais os usuários recorrem aos aparelhos, enquanto o acesso de informações fica em segundo lugar. “Chama a atenção o fato de que as pessoas procuram informação nos tablets, mas não associam isso a jornais e revistas. Isso significa que ainda estamos tateando nesse cenário“, disse Lopes.

Diniz lembrou que, quando meios como a televisão e o rádio surgiram, acreditou-se que o impresso estava perto do fim, o que não aconteceu. “O caso é que a internet trouxe um cenário bem mais radical. Tempos atrás, você passeava pela ecologia da comunicação e via árvores frondosas, os grandes jornais. A internet trouxe uma densidade gigantesca a essa floresta: é muita gente produzindo informação. Isso trouxe de fato um problema para as empresas de jornalismo, que é como se adaptar.

Coube a Rinaldo Gama fazer uma conexão entre a literatura – um dos temas centrais da Jornada de Passo Fundo -, a comunicação e a era digital. “Entre a literatura e os meios de comunicação, há uma cumplicidade de códigos que faz com que ambos andem lado a lado. Não deve ser coincidência que o termo literatura só tenha se consolidado no século 19, no momento em que o jornal passou a influenciar a literatura, não só pela divulgação de folhetins mas também no formato“, disse, exemplificando com o poema Um Lance de Dados, de Stéphane Mallarmé, que “de certa forma inaugura no século 19 a literatura do século 20“, e cuja inspiração é muito próxima do jornal, como constatou Marshall McLuhan.

Gama destacou que, já naquela época, percebia-se uma vocação natural da literatura para uma multiplicidade de discursos que agora, no século 21, pode ser explorada com muito mais meios. Exemplificou com as maneiras como o caderno Sabático faz essa ponte, tanto com reportagens sobre possibilidades da literatura eletrônica quanto com a complementação de material on-line para o que é oferecido na versão impressa.

Por Raquel Cozer | O Estado de S.Paulo | 27 de agosto de 2011 – 00h00