Especialista faz ressalvas ao uso de tablets em escolas


Paulo Blikstein

Em entrevista à Folha, ele defende a exclusão de conteúdos curriculares, especialmente nas áreas de matemática e ciências, e diz ser positivo o fim da obrigatoriedade do ensino da letra cursiva nos EUA.

Formado em engenharia pela Escola Politécnica da USP, mestre pelo MIT Media Lab e doutor pela Northwestern University [Chicago], Blikstein estará no Brasil nos dia 17 e 18 de agosto, quando participa da Sala Mundo Curitiba 2011 -encontro internacional de educação que reúne educadores do mundo todo.

Folha – Você conhece experiências com o uso de tablets em sala de aula?

Paulo Blikstein – Aqui em Stanford teve um projeto com o apoio da Apple onde eles queriam substituir livros didáticos na faculdade por iPads. Foi feita uma pesquisa com professores e a conclusão geral é que a tecnologia ainda não está à altura do que se precisa numa escola.

O tablet é muito pequeno, é muito difícil de fazer anotações, de visualizar várias coisas ao mesmo tempo. Por enquanto, o livro didático, pelo menos para nível superior -onde muitas vezes você trabalha com várias fontes ao mesmo tempo, precisa fazer anotações e cruzar informações de várias fontes – você precisaria de um equipamento muito mais avançado para isso poder realmente substituir o livro didático.

E em níveis mais básicos de ensino?
Em todos os programas que eu conheço, todo mundo sempre subestima a questão logística e a questão do custo de propriedade. Por exemplo, uma empresa que tem 1.000 funcionários e 1.000 computadores tem um departamento inteiro para cuidar daquilo.

As pessoas acham que você vai dar 1.000 computadores para as crianças, e não tem ninguém para tomar conta disso, para consertar, atualizar, dar orientação. A questão logística é importante.

As pessoas acham que o problema da educação é falta de acesso a tecnologia, e não é. O problema é que querem usar os tablets exatamente do jeito que se usa um livro didático. Querem que as crianças sentem nas cadeiras e, em vez de o professor chegar lá e falar “abram seus livros”, é “abram seus tablets”. Usar um tablet, que é um material que custa caro, que é difícil de dar manutenção, que quebra, que tem uma série de problemas, do mesmo jeito que você vai usar um livro é um desperdício enorme de dinheiro.

O que você precisaria é pensar quais são as novas formas de aprendizado que os tablets, os computadores permitem.

Algumas empresas dizem que haverá gráficos, tabelas dinâmicas e toda uma interatividade com o conteúdo e que isso seria diferente do livro didático. Mesmo nesse caso, você não vê uma mudança significativa?
Já tem muita interatividade em materiais online que já existem e nem por isso eles melhoraram significativamente o aprendizado. Você pode olhar uma animação num computador e entender aquele fenômeno de uma forma errada. A gente tem a ideia de que o visual é melhor do que o textual. Mas isso não é necessariamente verdade. Tem muitas pesquisas mostrando que às vezes o visual confunde mais do que o textual. Agora, tem coisas que são boas. Você pode demonstrar vários conceitos em ciência, física ou química melhor quando se tem essa ferramenta.

O que muda para o professor com o uso dos tablets?
A aula tradicional fica cada vez mais difícil de ser dada com esse tipo de tecnologia. Para o professor, os tablets vão trazer uma grande mudança de mentalidade porque você precisa dar aula de um outro jeito. Se não, vai ser como em várias escolas brasileiras, em que a aula na sala de informática às vezes é mais repressora do que na sala de aula, porque os professores ficam preocupados porque as crianças podem quebrar [o computador] ou começar a jogar um jogo.

Como deveria ser uma aula nesse novo formato?
Eu conheço, por exemplo, um projeto na Tailândia que um colega meu coordenou. O jeito que ele usou essas tecnologias lá foi: primeiro criar projetos relevantes para as crianças. Projetos ambientais ou urbanos. Ele levava as crianças, por exemplo, para um estudo do meio onde você tinha um problema ambiental, ou uma espécie que estava sendo extinta, ou uma espécie invasora que estava chegando, ou um problema de qualidade da água.

As crianças usavam os computadores para documentar o lugar, tirar fotos onde tinha o problema. Usavam sensores para medir as coisas e tentar entender cientificamente o que estava acontecendo. Depois levava tudo isso para a sala de aula e discutia com os alunos as hipóteses. Esse é um tipo de protótipo de projeto que acho superinteressante de fazer com tablets.

Você acha que o uso dos tabletes pode melhorar o aprendizado dos alunos?
Isso é mais ou menos como se eu perguntasse assim: “será que o uso de canetas na sala de aula pode melhorar o aprendizado?”. Sem dúvida que pode, mas eu posso também usar as canetas de um jeito tão ruim que não faça nenhuma diferença.

Agora, colocar o tablet numa aula tradicional, sem nenhuma adaptação do jeito que se ensina, sem nenhuma adaptação do material didático -que seja um pouco melhor do que simplesmente colocar umas animações dentro de um livro didático – é um desperdício. Não vale a pena.

A questão fundamental é desenvolver atividades em sala de aula e conteúdos que efetivamente usem as novas qualidades desse material. Isso é o que vai fazer os tablets valerem a pena. A questão é que essa é a parte difícil de fazer e é a parte que sempre não é feita.

Como você vê o Brasil em relação ao uso de tecnologias na educação?
Tem uma tradição no Brasil que vem desde o Paulo Freire de ouvir o aluno. Isso é uma coisa importante que em outros países simplesmente não existe. Eu tenho vários alunos de pós-graduação que vêm da Coreia, por exemplo, ou de outros países da Ásia, onde a preocupação com o aluno é muito diferente.

A questão [nesses países] não é se o aluno está feliz aprendendo, se ele está gostando do que aprende, se está se interessando; é muito mais um regime de alta pressão para resultados, mas resultados que muitas vezes são vazios. O Brasil tem essa grande vantagem, que eu acho que a gente realmente se importa com o aluno, com o interesse do aluno, muito mais do que em outros países.

O problema é que muitas vezes você não tem as ferramentas e o treinamento para fazer isso acontecer na sala de aula. Em relação a tecnologia, a minha percepção é que o foco ainda é muito no hardware, no equipamento, e muito pouco em treinar os professores para usar isso de uma forma interessante na sala de aula.

Publicado originalmente em Folha de S.Paulo | 26/07/2011

Digitalização barateia compra de livros didáticos


EUA: Há um debate muito grande acontecendo agora nos Estados Unidos sobre se o livro em papel vai desaparecer da sala de aula, afinal muitas escolas já estão usando os tablets. Além de aliviar as costas dos jovens, ao mesmo tempo é um material mais interativo, conectado à internet.

Uma empresa criou recentemente o que está sendo considerado uma das maiores inovações em termos de produção de livros didáticos. Eles trabalham especialmente com universidades e colocaram um livro de Biologia, com mais de mil páginas, em um aplicativo. O mais interessante dessa experiência é que você pode comprar o livro por capítulos, o que acaba barateando o material.

Além disso, eles desenvolveram um software onde você consegue anotar ao lado desse livro e, com isso, passa a fazer parte de uma rede social com professores e alunos que estão debatendo em tempo real aquele conteúdo. Ou seja, o livro se transforma imediatamente em uma plataforma interativa conectada a uma rede social com professores e alunos. Algumas faculdades de Medicina já estão solicitando que os alunos comprem apenas esse aplicativo.

Gilberto Dimenstein | Portal Aprendiz | 26/07/2011

Internet lenta e tablet caro travam crescimento do eBook no País


A má qualidade da internet em banda larga e o alto preço dos computadores portáteis em forma de prancheta [tablets] são os principais problemas que dificultam o acesso dos leitores aos livros digitais [e-books]. Essa é a opinião da presidenta da Câmara Brasileira do Livro [CBL], Karine Pansa, que abriu hoje [26] o 2º Congresso Internacional do Livro Digital, promovido pela entidade, em São Paulo.

No encontro, que termina amanhã, representantes do mercado editorial discutem maneiras de estimular o acesso aos livros digitais no Brasil e no mundo. Segundo Pansa, vários desafios ainda terão de ser vencidos para que a produção, distribuição e venda dos livros digitais no país cresçam. Mas antes que as editoras e os leitores abracem os livros em formato digital, as conexões de internet precisam tornar-se mais rápidas e eficientes. “Se eu não tenho internet adequada, não consigo fazer com que o consumidor obtenha um livro de maneira fácil e fique satisfeito”.

Sobre os tablets, ela acredita que a redução dos preços é uma questão de tempo, pois a produção desse tipo de computador só tende a crescer no Brasil. Ainda mais agora, que o governo decidiu desonerar a produção doméstica de tablets justamente para forçar a queda dos preços do produto nacional.

De acordo com uma pesquisa da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas [Fipe], feita a pedido da CBL, foram lançados 52 mil livros convencionais e vendidos 386 mil exemplares em 2009. No mesmo ano, o número de livros lançados ou vendidos em formato digital foi tão pequeno que nem constou do levantamento.

Na Europa e nos Estados Unidos, entretanto, o formato digital já é o preferido de muitos leitores. Dominique Raccah, presidente da editora norte-americana Sourcebooks, disse que 35% das vendas da empresa em junho deste ano foram de livros digitais.

Bob Stein, diretor do Instituto para o Futuro do Livro, dos Estados Unidos, também acredita que o mercado de livros digitais no Brasil vai crescer muito e que as oportunidades já estão surgindo nesse mercado. Karine Pansa disse que as editoras estão cientes dessas oportunidades e querem aproveitar o momento para oferecer aos clientes um serviço que muitos ainda desconhecem.

O grande benefício do livro digital é a portabilidade. É você ter dentro de um aparelho simples e leve uma quantidade de conteúdo sem fim”, disse ela.

Por Vinicius Konchinski | Agência Brasil | 26/07/2011 | Edição: Vinicius Doria.

eBook não é assunto de editor


Por Cindy Leopoldo | Publicado originalmente em Publishnews | 26/07/2011

Alguém já me falou há anos que e-book não é assunto de editor, mas só agora confirmo. Faço zilhares de buscas por dia sobre o assunto e não é comum achar alguém de dentro das editoras usando com propriedade as novas palavras editoriais, tais como tablet, ePub, DRM etc.

Vejo que alguns amigos meus acham que as editoras estão inventando isso para lucrar ainda mais, mas, na verdade, assim como a indústria fonográfica queria continuar vendendo CDs, as editoras no geral queriam [e algumas ainda querem] continuar fazendo apenas os impressos. E-book é assunto de sites e revistas de tecnologia, se localiza mais ou menos entre a seção de smartphones e a de games, e é curioso ver a lista de tablets e e-readers à venda no mercado, porque, no Brasil, parece haver mais e-book readers do que e-books para serem lidos. Por quê? Simples, os e-readers são feitos por livrarias e por grandes empresas de tecnologia, e os e-books são feitos pelas editoras [pelo menos enquanto a pirataria não entra no jogo…]. E esse assunto pertence tanto à indústria mundial de tecnologia que o próprio ePub foi criado pelo consórcio IDPF [International Digital Publishing Fórum], formado por empresas como Google, Adobe etc.

Há quem compre a ideia de que a tecnologia melhora o mundo, e eu acho que ela o torna mais prático em muitos aspectos mesmo, mas sinceramente o mundo continua a mesma aristocracia de sempre. Um grupinho decide como a vida dos outros vai mudar para melhor, quando, através de que aparelho e por qual valor. As revoluções ocorridas no mundo da música e do livro são financiadas por empresas que querem vender seus iPods, Kindles etc. Essa aristocracia do moletom quer o mesmo que as outras quiseram: vencer. De alguém. Contabilizando essa vitória em dólares.

E como as editoras ficam no meio disso? Reféns? De certa forma. Mas são também uma grande indústria, baseada há anos nas também aristocracias cultural e / ou artísticas. Sabendo avaliar e usar bem as potencialidades da tecnologia e buscando ouvir seu consumidor, pode até vender mais que antes e alcançar novos patamares de lucro, vencendo até mesmo a considerada mais poderosa e destrutiva aristocracia da pirataria.

Por Cindy Leopoldo | Publicado originalmente em Publishnews | 26/07/2011

Cindy Leopoldo é graduada em Letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro [UFRJ] e pós-graduada em Gerenciamento de Projetos pela Universidade Federal Fluminense [UFF]. Trabalha em departamentos editoriais há 7 anos. Escreve quinzenalmente para o PublishNews, sempre às terças-feiras.
A coluna Making of trata do mundo que existe do lado de dentro das editoras. Mais especificamente, dentro de seus departamentos editoriais.

Por uma leitura compartilhada


Bob Stein, diretor do Institute for the Future of the Book, fez a primeira conferência do 2º Congresso Internacional do Livro Digital

Gosto de visitar livrarias quando viajo e a Cultura [da Av. Paulista] é a melhor livraria que já vi no mundo. Não digo isso só pela seleção de títulos, mas pela energia de todas as pessoas na loja, olhando os livros. Mas isso não continuará sendo assim”, comentou Bob Stein na primeira conferência do 2º Congresso Internacional do Livro Digital. E começou a falar e a mostrar imagens da Borders de 10 anos atrás e de hoje, com todos os cartazes que confirmam o fechamento das lojas. Apoiado em uma apresentação em Powepoint em Comic Sans, o fundador do Institute for the Future of the Book acredita que pelo fato de a Amazon, Apple e Google ainda não terem chegado ao Brasil, e porque o país ainda está atrasado em relação aos outros que já vendem, e com sucesso, livros digitais, este seja um bom momento para o mercado editorial brasileiro. “Amazon, Apple e Google construíram um modelo de loja on-line baseado no modelo tradicional e isso não é o que vai funcionar. “O Brasil e alguns outros países têm a oportunidade de passar por cima dessas empresas e criar novos modelos e plataformas”.

Em sua palestra “A hora da geração digital”, Stein contou que editores aprenderam que o valor do conteúdo se encaminha para zero, que as pessoas vão pagar pelo contexto e pela comunidade e que a ideia não é apenas mudar a forma de trabalho, ou seja, só fazer o livro eletrônico, por exemplo, mas o que se deve, neste momento, é repensar todo o ecossistema.

Ele aproveitou para explicar como vai funcionar o SocialBooks, sua editora de livro digital [ou melhor, social] que está em formação. Segundo ele, a equipe não está reinventando a forma, mas criando uma plataforma de livro social, onde será possível comentar a obra que está lendo e ler comentários deixados pelos outros leitores. Assim, a experiência não ficará mais restrita apenas aos membros de um grupo de leitura. Durante a leitura, ele também poderá sair do livro e ir para a página da pessoa que deixou ali um comentário e convidá-la para participar do seu grupo.

Essa nova proposta de edição também diz respeito a ter acesso à opinião de experts e dos autores “dentro do livro”. Tudo cobrado, claro. Stein disse que as editoras terão mais visibilidade, já que será possível imprimir sua marca nas páginas. Ficará a cargo das próprias editoras o gerenciamento dos conteúdos e das comunidades de leitores e autores em torno de seus livros. Ele também quer socializar a venda de livros, otimizando compras por grupo [dentro ou fora da sala de aula].

Quanto à tecnologia e aparelhos de leitura, o diretor do Institute for the Future of the Book disse que o futuro está no browser, e não em apps.

Por Maria Fernanda Rodrigues | Publicado originalmente em PublishNews | 26/07/2011