Por que você não vende eBook?


Por Camila Cabete | Texto publicado originalmente em PublishNews | 30/06/2011

Tenho escutado agora uma discussão sobre livrarias e, lógico, não poderia deixar de escrever a respeito me metendo onde nem sempre sou chamada…

Fico feliz com vários movimentos de modernização de sistemas e sites de livrarias, que foram os últimos da cadeia a se movimentarem rumo ao e-book [com exceção da Amazon].

Num encontro que tive com profissionais de livrarias e editoras, onde o “digital” era assunto da pauta, adorei a declaração do Rui, dono da Travessa, ao pedir que parem com o bulliyng nos livros! Realmente, na sociedade, tudo o que é diferente ou tem uma imagem sensível acaba sofrendo algum tipo de bulliyng, e o livro está em evidência, sensível e em transformação, o que faz dele presa fácil nas mãos dos brutamontes digitais. Mas vejo, com tudo isso, um movimento positivo: os sofridos livros dando a volta por cima e levando em suas costas as livrarias, sãs e salvas.

Vamos pensar juntos. O Brasil já possui tecnologia para que qualquer livraria digital venda livros com segurança e tecnologia DRM. Por que você, livreiro, não embarcaria na tecnologia e correria na frente para lançar sua loja de e-books? E se eu antes comprava na livraria da Travessa, por que não continuaria comprando e-books lá?

O grande diferencial para mim, no livreiro, é a sua seleção. As megastores não me atraem, e acredito que também não aos leitores inveterados. No digital, isso continuará.

Então qualquer um poderá abrir uma loja digital, vendendo e-books, correto?

Correto!

Eles podem ter o mesmo acervo? Sim!

Porém, as lojas poderão se especializar mais e mais. Não é porque uma loja é especializada em obras jurídicas que ela vai precisar vender romances em seu site. Esse site não atrairia pessoas que se interessam por romances, não naquele momento em que foram até lá procurar uma obra sobre direito do consumidor, por exemplo.

Por que um site ou blog de culinária vegana venderia o “Guia de cozinha da carne vermelha”?

O que vai garantir a sobrevivência das livrarias, além do espaço cultural, ponto de encontro, café gostoso e [por que não?] e-books via Wifi será a seleção, especialização, site seguro e amigável, serviço bom, sistema de busca inteligente, inovação, desenvolvimento de conteúdo, integração com mídias sociais e por aí vai.

Não vejo perigo para as livrarias. Não consigo admitir inovação tecnológica como previsão apocalíptica na cadeia do livro, sorry!

Como o José Grossi disse neste encontro que tivemos, os transportadores sim vão sair perdendo com a inovação e popularização dos e-books. E não há lentes rosas que evitem que se chegue a esta conclusão.

Gostaria de agradecer o apoio e ótimos e-mails que me divertiram e emocionaram a respeito de minhas últimas colunas. Continuo às ordens: camila.cabete@gmail.com

Por Camila Cabete | Texto publicado originalmente em PublishNews | 30/06/2011

Camila Cabete [@camilacabete] tem formação clássica em História, mas foi responsável pelo setor editorial de uma tradicional editora técnica por alguns anos [Ciência Moderna]. Hoje, é responsável pelo setor editorial da primeira livraria digital do Brasil, a Gato Sabido [@gatosabido]. É ainda consultora comercial da Xeriph, a primeira distribuidora de conteúdo digital do Brasil e sócia fundadora da Caki Books [@cakibooks], uma editora cross-mídia que publica livros em todos os formatos possíveis e imagináveis. Vive em Copacabana e tem uma gata preta chamada Lilica.

A coluna Ensaios digitais é um diário de bordo de quem vive 100% do digital no mercado editorial brasileiro. Quinzenalmente, às quintas-feiras, serão publicadas novidades, explicações e informações sobre tecnologias ligadas a área literária.