O escritor de 1 milhão de eBooks John Locke estaria melhor numa editora? Acho que sim…


Por Mike Shatzkin | Publicado originalmente em Publishnews | 29/06/2011

Mike Shatzkin

A experiência do mais bem sucedido autor autopublicado que conheço, como descrito em seu mais novo livro, defende bastante, mesmo sem querer, a ideia de que autores que querem realmente ganhar dinheiro podem conseguir isso sem uma editora.

Descobri o escritor John Locke há poucos meses, quando estava aprendendo um monte de coisas sobre o mundo da autopublicação com Joe Konrath e Barry Eisler. Comprei um dos seus livros de US$0,99 e adorei. Agora, já li quatro. Ele me conquistou por ser um cruzamento entre o já falecido Jim Thompson e o bem atual Carl Hiaasen. Leitores mais sofisticados do que eu me disseram que seus enredos não são nada originais. Não percebi isso em nenhum dos livros, mas poderia acontecer que editores com mais conhecimento dispensassem seus livros se não houvesse nenhuma prova de apelo comercial.

Locke acabou de publicar um novo livro explicando [e intitulado] How I Sold One Million e-books in Five Months. Ele revela um trabalho de marketing duro, bastante focado, muito sofisticado com um plano claro e a disciplina para segui-lo. Todo autor autopublicado deveria ler, claro. pois esse é o mercado com o qual Locke se identifica. Um de seus princípios centrais é realmente entender para quem um livro está dirigido de forma que o próprio conteúdo e o marketing sejam sempre dirigidos com precisão aos alvos.
 
Um dos problemas que Locke vê ao trabalhar com editoras é que elas estão sempre querendo ampliar o apelo de um livro, o que, segundo ele, diminui seu apelo entre o nicho central de sua audiência, algo que vê como a chave para a construção de uma marca autoral bem-sucedida. Estou a ponto de reforçar este estereótipo porque é óbvio para mim que ele realmente deixou de identificar uma audiência chave com seu novo livro. Editores e marqueteiros em editoras deveriam lê-lo. Eles têm muito a aprender com as ideias e técnicas de John Locke.

Seu livro vai ajudá-los a tomar melhores decisões editoriais e de marketing. E pode ajudá-los a ganhar mais dinheiro.

Mas se John Locke também está interessado em ganhar mais dinheiro, deveria repensar se publicar seus livros a US$0,99 sem uma editora é realmente a melhor estratégia comercial

Vamos fazer as contas. Locke vendeu 1 milhão de e-books a 99 centavos de dólar cada. Ele ganha 35% da renda, então isso chega a pouco menos de $350.000 [taxas de cartão de crédito são deduzidos do valor bruto]. Há alguns custos de produção envolvidos [ele contrata um designer para a capa e é ajudado na formatação de seus livros], então diminuímos outros 10 ou 15 mil. Isso significa que ganha por seus nove romances uma média de uns $35.000 com cada um. Ele não está ganhando, aparentemente, nada com livros impressos e não está tendo nenhuma exposição em livrarias que poderiam estimular ainda mais as vendas online. A US$0,35 por cópia ele está ganhando menos do que os direitos por unidade que receberia de uma editora vendendo seus livros por $2,99, o ponto a partir do qual o pagamento de 70% do valor passa a valer nas lojas que vendem e-books pelo modelo de agência, mesmo se a editora não concordasse com o padrão atual de 25% de direitos. E se os livros custassem $9,99, ele estaria ganhando $1,75 por cópia de uma editora ou umas cinco vezes o que está ganhando agora.
Claro, se o próprio Locke vendesse os livros a $2,99, estaria recebendo seis vezes mais por livro, ao redor de $2,10 por cópia.

Assim que, dessa forma, ele parece estar abrindo mão de muito dinheiro. Sem os esforços de uma editora, ele certamente está deixando de lado muito marketing também. E os livros impressos nas lojas são uma das partes mais importantes disso. Vender até modestos 10.000 exemplares de capa dura daria mais de $20.000 em direitos autorais, ou mais da metade do que conseguiu até agora com cada um de seus livros.

Seria superficial, e acho que até um erro, atribuir o sucesso de Locke principalmente ao preço de seus livros. Na verdade, o próprio Locke fica arrepiado com essa ideia. Ele afirma em seu novo livro “how-to” que muitos autores vendendo por US$0,99 não conseguiram as mesmas vendas que ele. Minimiza o grau em que isso acontece por causa do apelo de sua escrita, e atribui suas vendas mais aos esforços sistemáticos e inteligentes de marketing.

Concordo que esses esforços sistemáticos e inteligentes de marketing são mais importantes do que os 99 centavos [Essa é a ideia central de todo esse post!]. Mas não tem nada no que ele faz que não poderia ter sido feito muito melhor por uma editora para apoiar um livro de capa dura vendido a US$20,00 ou mais, sem falar num e-book a US$9,99. Ele venderia uma média de 100.000 exemplares ou mais por título dessa forma?

Ninguém sabe com certeza, mas com o mesmo esforço de sua parte e o marketing adicional, exposição e acessibilidade que ganharia com uma editora, meu palpite é que venderia mais. Eu li quatro dos seus livros com seu principal personagem, Donovan Creed e não estou nem um pouco cansado ainda. Sou cauteloso como todo mundo sobre generalizar a partir da minha própria experiência, mas sei que se o próximo livro custasse 10 dólares em vez de um, isso não me impediria de comprar. Pago dez dólares ou mais na maioria dos livros que leio, assim como muita gente.

Uma das coisas que as livrarias de e-book sabem com certeza, mas que as editoras só podem adivinhar é até que grau os compradores de livros de 99 centavos são um mercado separado daquele formado por compradores de livros com preços de US$9,99 para cima. Muitos acreditam, e eu sou um deles, que são grupos separados de compradores e que pessoas como eu, que compram os dois tipos, são a exceção. Se isso é verdade, haveria algum risco para Locke [e para o editor que o contratasse] se ele decidisse mudar. Poderia não ter o mesmo sucesso com um grupo diferente de clientes e não ser seguido pelo seu grupo atual de leitores.
Mas se os mercados são diferentes, há alguns grandes potenciais de recompensa. Se há pessoas que somente compram livros baratos, também há pessoas que querem escolher livros validados profissionalmente, aqueles das grandes editoras. Quanto mais você acreditar que os mercados são diferentes, maiores oportunidades poderiam haver para Locke usar o que ele fez para se lançar de forma independente como trampolim para uma carreira como autor publicado por uma grande editora.

Amanda Hocking conseguiu sucesso com publicação independente, mas depois assinou com uma grande editora. Barry Eisler tentou deixar as editoras para trás e se autopublicar, mas logo descobriu que o programa de publicação da Amazon – quanto tempo demorará a começarmos a nos referir às Sete Grandes? – na verdade era melhor do que fazer sozinho. Agora fazemos uma conta rápida com a história de Locke e descobrimos que constitui um argumento fraco para os benefícios econômicos da autopublicação.

É importante para todos nós, lembrarmos que ainda estamos num mundo onde a maioria dos livros é vendida impressa, em livrarias, que isso é mais verdade fora dos EUA do que aqui; e que vai permanecer assim fora dos EUA por um pouco mais de tempo do que aqui. Os desafios da era digital para as editoras são bem reais e a opção da autopublicação é muito mais viável do que há uma década; ou até há três anos. Mas ainda existe muita vida no modelo de anos. Me surpreenderia se algumas grandes editoras não estiverem preparando ofertas para o Sr. Locke, que ele seria obrigado a considerar seriamente se seu objetivo for ganhar mais dinheiro com sua escrita do que ganha agora. Se Amanda Hocking pode conseguir US$2 milhões por quatro livros, como podemos achar que John Locke está bem financeiramente conseguindo menos de 20% disso por nove?

O argumento mais persuasivo que posso pensar para a autopublicação é a velocidade para o mercado, principalmente para alguém de fora que ainda nem tem agente. Encontrar um agente demora. Conseguir uma proposta de padrões profissionais demora. A análise das editoras e a negociação de contrato depois da oferta demora. Tudo isso pode levar um ano ou mais; é raro conseguir em seis meses. E depois a editora vai precisar de persuasão para colocá-lo ao mercado em menos de seis meses [Isso não é irracional por parte do editor; maximizar as vendas em livros impressos ainda exige um longo caminho porque o planejamento no mercado de massa exige designar títulos específicos para locais com meses de antecedência. Essa é a realidade do mercado, não uma invenção das editoras].

Acho que autopublicação como caminho para a descoberta por uma editora pode se tornar um novo padrão e, se isso acontecer, as operações de e-book montadas por agências literárias podem acabar sendo vistas sob uma luz diferente.

Minha previsão com Locke é que ele vai acabar recebendo uma oferta irrecusável para criar um novo personagem. A série Donovan Creed e seus faroestes continuarão a ser lançados por US$0,99, mas algo novo será feito da forma convencional. E, a menos que meu palpite esteja muito errado, nos próximos anos, quem publicar da forma convencional vai ganhar muito mais dinheiro do que Locke.

Por Mike Shatzkin | Publicado originalmente em Publishnews | 29/06/2011

Mike Shatzkin tem mais de 40 anos de experiência no mercado editorial. É fundador e diretor-presidente da consultoria editorial The Idea Logical Co., com sede em Nova York, e acompanha e analisa diariamente os desafios e as oportunidades da indústria editorial nesta nova realidade digital. Oraganiza anualmente a Digital Book World, uma conferência em Nova York sobre o futuro digital do livro.

Nos Arquivos de Shatzkin, o consultor novaiorquino aborda os desafios e oportunidades apresentados pela nova era digital. O texto de sua coluna é publicado originalmente em seu blog, The Shatzkin Files [www.idealog.com/blog].

A nova “midlist”: autores de eBooks que ganham dinheiro


Robin Sullivan para o Publishing Perspectives | Traduzido do original publicado pela  por Caroline Aguiar [cdanascimento@gmail.com] | Publicado por PublishNews | 29/06/2011

Hoje em dia já existem grandes estrelas no ramo da autopublicação digital. Mas a verdade é que muitos autores que não aparecem nas listas dos “mais vendidos” [conhecidos como autores “midlist”] estão ganhando mercado

Entre os autores autopublicados na internet que despontam nos rankings de vendas estão Amanda HockingJoe Konrath e John Locke. Estes casos de sucesso merecem destaque, mas devemos levar em consideração que os mesmos representam exceções do novo mercado editorial [tanto quanto Stephen King e Stephenie Meyer são casos atípicos de vendas entre os autores publicados pelas editoras tradicionais]. A maioria dos autores não tem a ambição de atingir a marca dos 100 mil livros vendidos em um único mês, mas podem chegar a vender entre 800 e 20.000 e-books. Em se tratando de publicações tradicionais, esses números são considerados extraordinários. Mas o simples fato de que cada vez mais autores chegam a essa marca hoje em dia [vendendo mais livros a cada mês] nos mostra que os números acima são agora comuns para vendas na internet.

Os autores no ramo da autopublicação não somente estão vendendo bem em formato digital mas também estão recebendo mais por cópia comercializada [o padrão do mercado é de 25% dos direitos sobre as vendas de e-books na internet com base nos contratos das seis maiores editoras americanas]. Para comparar, basta olharmos para os seguintes números: quando um autor autopublicado vende seu livro na Amazon na faixa US$ 2,99 – US$ 9,99, ele recebe 70% do valor da venda [US$ 2,09 – US$ 6,99]. Um livro digital vendido a US$ 6,99 através de contrato com uma editora resultaria em US$ 1,22 para o autor [a ser dividido com o agente]. A combinação do volume de vendas e um retorno mais generoso está fazendo com que autores da internet finalmente consigam ter uma renda compatível com salários pagos em empregos tradicionais. Com isso, agora dedicam-se a fazer o que mais gostam: escrever.

O momento decisivo

Em minhas palestras sobre opções de publicação, costumo enfatizar que os autores passam a ter um maior controle quando decidem autopublicar seus livros. Recentemente tenho acrescentado a possibilidade de melhor retorno financeiro como vantagem, quando o projeto é bem realizado. Há somente um ano esse ponto não estava em questão. Mas mudanças importantes ocorreram entre outubro e novembro de 2010: foi nesse período que as vendas de e-books por autores desconhecidos começaram a disparar.

Para ilustrar o aumento significante nas vendas de livros digitais por autores “midlisters”, podemos analisar um caso que tenho acompanhado de perto. Michael J. Sullivan é meu marido e autor das série Rivya Revelations. Cinco dos seis livros da série foram publicados pela minha pequena editora, a Ridan Publishing. As datas de lançamento foram: The Crown Conspiracy [outubro de 2008], Avempartha [abril de 2009],Nyphron Rising [outubro de 2009], The Emerald Storm [abril de 2010] e Wintertide [outubro de 2010]. Durante um período de nove meses – de janeiro a setembro de 2010 – sua renda variou em torno de US$ 1.500 por mês ou US$ 10.700 no total [em vendas apenas pela Amazon Kindle US]. Certamente uma renda insuficiente. Após o estouro de vendas de livros digitais em outubro/novembro do ano passado, seu retorno foi de mais de US$ 102.000 em apenas cinco meses. Para detalhes de sua renda mensal veja o gráfico abaixo.

Lendo comentários no Writer’s Cafe [fórum da Kindle Boards], percebi que muitos autores tiveram aumento semelhante nas vendas de seus livros na internet, ou seja, o caso de Michael não é o único. Veja a tabela e gráfico abaixo [dados disponíveis no fórum Kindle Board]:

Tabela: número de autores e quantidade de livros vendidos nos meses de agosto de 2010 a fevereiro de 2011

Os autores informaram números de vendas e preços de livros no fórum da Kindle Boards e assim pude calcular as receitas no mês de março:

•    Michael J. Sullivan — US$ 16.648
•    Ellen Fisher — US$ 3.915
•    Siebel Hodge — US$ 15.425
•    N. Gemini Sasson – US$ 4.222
•    David McAfee — US$ 6.085
•    David Dalglish — US$ 12.132
•    Victorine Lieskie — US$ 7.281
•    M. H. Sergent — US$ 4.211
•    Nathan Lowell — US$ 9.296

Entre esses autores, apenas Victorine Lieskie entrou na lista dos 100 mais vendidos da Amazon [Amazon Top 100 Bestseller List]. A maioria dos autores que vendem mais de 800 livros fica entre as posições 300 e 6.000 no ranking dos mais vendidos.
 
Sim, você pode negociar direitos internacionais

Críticos apontam que ao optar pelo modelo de autopublicação digital os autores não podem negociar direitos internacionais ou ter seus livros vendidos nas estantes das livrarias. Isso era verdade no passado; hoje em dia ser um autor bem sucedido no mundo virtual pode abrir portas para a negociação de direitos internacionais e aumentam as chances de contrato com as editoras tradicionais – desde que existam leitores fiéis, que são o fator de maior importância para o mercado editorial.

A série Riyria Revelations é um exemplo para o qual tenho dados reais. Nos últimos seis meses foram negociados US$ 154.000 em direitos internacionais para tradução na República Checa, Rússia, Alemanha, França, Polônia e Espanha e estão em andamento acordos para publicação na Holanda e na Itália. Mais uma vez os dados no Writer’s Café apontam que, como autor, Micheal não é um caso atípico. Estes autores também anunciaram que estão assinando contratos internacionais ou estão em negociações com agentes ou editoras estrangeiras: David Dalglish, Shelley Stout, M.G. Scarsbrook, Tina Folsom, Melanie Nilles, Dawn McCullough White, Victorine Lieskie, Imogen Rose, Lucy Kevin, Margaret Lake, Terri Reid e Beth Orsoff.

À frente das novas mudanças

Quanto ao tema das livrarias… é verdade que a maioria das lojas físicas não costuma vender livros impressos autopublicados por seus autores. Porém, hoje em dia as editoras estão interessadas em contratar autores que já tenham conquistado leitores na internet e, nesses casos, oferecem adiantamentos maiores do que aqueles pagos a autores estreantes. Isso porque um autor autopublicado já tem uma boa idéia de quanto irá ganhar se optar por seguir trabalhando de forma independente. Segundo pesquisas, um autor de livros de ficção estreante pode vir a receber de US$ 5.000 a US$ 10.000. Assim, um contrato de três livros totalizaria em US$ 15.000 a US$ 30.000 de adiantamento. No caso de Michael, a Orbit [selo da Hachette Book Group] ofereceu um acordo acima de US$ 100.000. Outros autores autopublicados que assinaram contratos recentemente foram: H.P. Mallory [Random House], D.B. Henson [contatada pelo agente Noah Lukeman, teve os direitos do seu livro Deed to Death vendidos em leilão], Stephanie McAfee [Diary of a Mad Fat Girl], Jerry McGill [Dear Marcus], R.J. Jagger e Quentin Schultze & Bethany Kim.

Com a internet, o mercado editorial certamente está mudando com a velocidade da luz. Antes os autores tinham apenas uma opção se quisessem ganhar algum dinheiro escrevendo livros: passar meses [ou até anos] contatando agentes, esperar meses [ou anos] até que o projeto fosse elaborado pelo agente, e, se aceito, esperar até dois anos para que o livro chegasse às livrarias. Se o autor entrasse na lista dos midlisters [o que na verdade ocorria com a maioria dos escritores], menos livros eram impressos e ele passaria a receber uma porcentagem menor sobre as vendas, gerando uma renda insuficiente e impedindo o autor de dedicar-se à escrita em tempo integral.

Houve um tempo em que o sistema de autopublicação gerava pouco ou nenhum retorno financeiro. Em geral, era uma opção para o autor somente se seu projeto fosse rejeitado por todos os agente e editoras. Após a revolução digital, o jogo se inverteu. Autores publicam e-books vislumbrando um possível retorno financeiro e espaço para divulgação na internet. Nos casos bem sucedidos, as possibilidades de negociação sobre os termos do contrato e valores de adiantamento são bem melhores. Claro que o modelo de autopublicação não é para todos. Mas aqueles que optam por esse caminho já sabem que não serão um caso isolado. Se conseguirem entrar para a nova lista de autores que figuram na “midlist” dos livros digitais, terão boas chances de dizer a seus chefes: “peço demissão, vou ficar em casa escrevendo livros”.

Robin Sullivan para o Publishing Perspectives | Traduzido do original publicado pela  por Caroline Aguiar [cdanascimento@gmail.com] | Publicado por PublishNews | 29/06/2011

O editor da era digital


Pesquisa aponta carência de habilidades técnicas no Reino Unido

Com as recentes mudanças no mercado de livros, entender o mundo digital parece ser essencial tanto para os experientes como para os novos editores. Segundo recente pesquisa da Skillset, empresa especializada em treinamento de profissionais para indústrias criativas, a carência de habilidades técnicas foi apontada em segundo lugar entre as os “skills gaps” para o profissional que trabalha no mercado editorial. Na pesquisa, que contou com a participação de mais de 11 mil empresas em todo o Reino Unido, incluindo editoras de livros, revistas e jornais, 53% dos entrevistados afirmaram sentir falta de habilidades técnicas entre seus colaboradores, atrás apenas de habilidades em vendas e marketing, com 69%. Mais dados podem ser vistos neste link.

É compreensível que marketing seja apontado como a principal carência entre os profissionais, já que as estratégias de venda mudam a todo momento com a Internet”, diz Suzanne Kavanagh, gerente editorial da Skillset, durante o seminário “Digital Skills in Publishing”, organizado pela Society of Young Publishers, na London School of Economics. “No entanto, o fato de a falta de habilidades técnicas estar em segundo lugar só reforça o quadro atual de que um mercado cada vez mais digital precisa de profissionais com capacidades ‘digitais’”.

Já para Alastair Horne, gerente de inovações na Cambridge University Press, a publicação eletrônica é um caminho inevitável para os novos editores. “O digital não será menos importante nos próximos anos do que já é agora”, diz. “Se hoje os e-books são responsáveis por 10% das vendas em sua empresa, certamente amanhã serão 12%, ou seja, a tendência é só aumentar.

Editores versus T.I.

Atualmente, é muito comum entre as editoras britânicas a contratação talentos da área de T.I., principalmente para o desenvolvimento de aplicativos para iPad, iPhone e BlackBerry. “Geralmente os editores chegam com as ideias para os profissionais de T.I. que só trabalham em como aquela ideia será posta em prática”, explica Horne. “No futuro, o profissional que tiver a idea deverá ter a capacidade de executá-la”, acredita.

Mas diante das expressões da plateia, composta por estudantes de literatura e comunicação, Horne se retrata: “Calma, ninguém espera que editor seja um expert em códigos de aplicativos, mas que seja pelo menos bom o suficiente para apontar soluções e sugerir novas ideais. Entender como um aplicativo funciona já é um grande passo.

O desenvolvimento de livros a partir do modelo de aplicativos foi apontado por todos os participantes do seminário como o futuro da publicação eletrônica, pelo menos no Reino Unido. Será esse o caminho para o mercado brasileiro?

Por Taynée Mendes, de Londres | Especial para o PublishNews | 29/06/2011

Tecnologias aumentam nossa capacidade de comunicação, diz autor


Não são as belezas naturais do Rio de Janeiro que trazem o professor e pensador Henry Jenkins ao Brasil, e sim a forma como os brasileiros estão contando suas histórias com a ajuda da tecnologia.

Autor do livro “Cultura da Convergência”, ele participará da 7ª edição do Descolagem, que ocorre no Rio, no próximo sábado. À Folha, ele falou sobre o impacto das novas tecnologias. Leia a entrevista na íntegra:

*

Como você vê o impacto das novas tecnologias na vida das pessoas?

Frequentemente, nós fazemos perguntas sobre como as tecnologias estão afetando nossa vida, mas eu gosto de questionar o que nós estamos fazendo com as tecnologias. Colocando isso em um nível mais simples, estamos usando as novas mídias para aumentar nossa capacidade de comunicação em todos os aspectos da nossa vida. Nós as usamos para aumentar nosso alcance, para que possamos nos comunicar com pessoas do outro lado do planeta.

Também podemos usá-las para acelerar a velocidade da nossa comunicação, o que acaba acelerando o ritmo de certas rotinas diárias. Estamos nos apropriando das novas tecnologias para sermos capazes de compartilhar ideias com uma quantidade de pessoas muito maior.

Assim, um vídeo produzido por um adolescente no quarto dele tem o potencial de atingir milhões por meio do YouTube, apesar de não existirem garantias de que isso irá acontecer. Então, para aqueles que estão mais imersos nas mídias digitais, todas as transações [entre as famílias, com os amigos, com os parceiros de negócios] estão mudando, como resultado do que estamos escolhendo fazer com essa extensão da nossa capacidade de comunicação.

Henry Jenkings, autor de "Cultura da convergência"

Como o mundo visto por meio de várias mídias [no modelo transmídia] mudou o jeito como consumimos conteúdo?

O jeito mais claro de pensar sobre isso é por meio de um exemplo que tomou os jornais na semana passada: o anúncio da autora J. K. Rowling. Ela lançou o Pottermore, uma espécie de rede social voltada para a leitura interativa da série de livros “Harry Potter”.

O anúncio de Rowling tem duas premissas básicas: a de que os leitores são uma parte ativa da experiência de leitura criada por ela e a de que os leitores estão sedentos por mais do que eles podem ter com os livros e filmes que já existem. Ela está criando algo novo, que aumenta os recursos disponíveis para os fãs dos livros — ela prometeu mais de 100 mil novas palavras sobre o mundo em que Potter vive.

Mas esse novo conteúdo estará disperso no tempo, integrado nas margens dos livros originais e disponível apenas on-line. Isso representa uma nova relação entre um autor e seus leitores, um relacionamento que envolve contínuas interações e extensões da ficção criada pela autora e que envolve algum nível de engajamento feito por meio da rede social que ela construiu ao redor do livro.

Isso também dá a Rowling um controle maior sobre a publicação de novas informações e sobre sua relação com os fãs. Essa é a promessa do mundo transmídia. Mas isso fica mais complicado, já que existe uma infraestrutura de fãs que cresceram ao redor desses livros e filmes e que já faz, independentemente, um pouco do que ela está prometendo fazer com o Pottermore. Então, ela vai ter que negociar com as expectativas dos fãs e tentar compreender o jeito com que eles vão lidar com a história. E essa é a luta de se estar entre a web 2.0 e a cultura participativa.

O modelo transmídia, por meio do qual é possível contar histórias com o uso de vários meios, já é visto no Brasil?

Isso é parte do que eu quero aprender mais durante minha viagem. Eu já estive no Rio de Janeiro e em São Paulo e pude conhecer pessoas supercriativas na Rede Globo, um centro importante para a produção de novelas e uma empresa que está interessada no entendimento completo de o que a transmídia pode trazer. Ainda tenho muito o que aprender sobre o papel da mídia no seu país, mas tudo o que eu já aprendi sugere que o Brasil está prestes a se tornar uma superpotência da mídia e da cultura pop.

No Brasil, o acesso à internet ainda não é para todos. Acha que vamos nos apropriar da rede de uma maneira diferente do que ocorreu nos EUA?

Nós temos combinado mídias diferentes para contar histórias durante a história da humanidade. No meu país, a internet tem sido uma peça-chave no processo transmídia, mas não há razões para que isso tenha que ser o centro da transmídia no Brasil. O modelo transmídia envolve usar a mistura mais apropriada de plataformas de mídia para uma história particular, para atingir uma audiência em particular. E isso pode ser feito por meio de formas tradicionais como músicas, performances ao vivo, comunicação oral e escrita, arte, transmissão de TV e filmes.

Parte do que torna o Brasil um lugar interessante nesse processo é que vocês têm práticas de cultura popular vibrantes –o samba e o carnaval, por exemplo– que ainda fazem parte da rotina das cidades. Nos Estados Unidos, as práticas populares foram quase que extintas com o crescimento das mídias de massa.

Eu vejo a cultura de participação tomando forma na intersecção entre as culturas populares e a cultura digital, então, enquanto o Brasil se torna mais on-line, é possível que a sua cultura digital tome um formato diferente, por causa da sua forte tradição popular.

Como a organização das pessoas em rede pode ajudar os países em desenvolvimento?

A comunicação feita em rede permite que as pessoas juntem recursos para o benefício de todos. Nós sempre tivemos redes sociais. Em várias comunidades mais pobres, as pessoas sobrevivem cuidando uns dos outros, trocando favores, emprestando recursos, resolvendo problemas de uma maneira coletiva. Essas práticas têm muito em comum com o que começamos a ver com o surgimento das comunidades on-line.

Essas comunidades são, como o antropologista norte-americano George Lipsitz sugere, ricas em rede, mas pobres em tecnologia. Então, com um Brasil mais on-line, poderemos ter os mais pobres ensinando os mais ricos sobre como viver em uma economia de rede.

Pelos seus livros, podemos ver que você é um grande estudioso do comportamento dos fãs. Como você acha que a tecnologia permite que os fãs sejam mais criativos?

Eu não diria necessariamente que a tecnologia permitiu que os fãs fossem mais criativos. Eles sempre foram criativos e foi isso que me levou a estudar o comportamento deles há mais de duas décadas. Os fãs são uma comunidade popular e viva que usa os recursos das mídias de massa para criar e compartilhar o que eles criaram com outros. Eles usam qualquer ferramenta que estiver disponível.

Eles fizeram criações com máquinas de fazer cópias, eles editaram vídeos usando dois videocassetes. Sim, existem novas formas de produção cultural na era do YouTube e do Facebook, mas o que realmente mudou é a natureza com a qual as culturas circulam.

Isso é o centro do meu próximo livro, que estou escrevendo com Joshua Green e Sam Ford. No passado, as pessoas faziam vídeos caseiros que eram domésticos no conteúdo e na exibição, e eles não saiam da esfera privada. Hoje, os vídeos caseiros, na verdade, são filmes públicos –eles se espalham on-line das maneiras mais diferentes. E a mídia criada pelos fãs está coexistindo com a mídia oficial para moldar a percepção do público de um universo ficcional específico. Isso está dando aos fãs uma influência cultural muito maior do que eles tinham antes.

Como podemos lidar com as questões dos direitos autorais quando estamos falando de um mundo constantemente recriado pelos fãs?

Nós precisamos repensar os direitos autorais e o seu uso justo. Nossa estrutura atual de leis foi desenhada para acomodar as necessidades de uma cultura em que um número limitado de pessoas poderia produzir e compartilhar informações. Agora, vivemos em um mundo onde mais e mais pessoas são capazes de participar da cultura nesse nível, e, ao democratizarmos a participação na criação de ideias, nós temos que mudar a propriedade intelectual para um direito que possa ser de todos os membros da sociedade.

Nós temos o direito de participar significativamente da nossa cultura e isso inclui o direito de citar e responder a materiais produzidos pela nossa cultura.

Isso não significa que as empresas ou os autores tenham que desistir de controlar o que acontece com suas ideias, mas significa que eles têm que perceber que o seu controle sobre esses materiais nunca é absoluto.

Os autores sempre criaram a partir do trabalho de outros autores e o que mudou é apenas que agora temos uma classe muito maior de pessoas querendo ser autores da cultura.

*

RAIO-X HENRY JENKINS

PROFISSÃO É professor de comunicação, jornalismo e artes cinematográficas na Universidade do Sul da Califórnia. Integra o conselho da Alchemists Transmedia Storytelling Company
PUBLICAÇÕES Escreveu vários livros sobre mídia e cultura popular, entre eles o “Cultura da Convergência”, lançado no Brasil pela editora Aleph
BLOG www.henryjenkins.org

PROJETO DESCOLAGEM

CONVIDADOS Além de Jenkins, estarão presentes Zach Lieberman, Daito Manabe e Rafael Parente
QUANDO 2 de julho, às 15h [os portões serão abertos a partir das 14h]
ONDE Núcleo Avançado em Educação [rua Uruguai, 204, Tijuca, Rio de Janeiro]
INSCRIÇÕES Os interessados devem responder a um questionário e aguardar a confirmação da inscrição. Encontre em bit.ly/inscdesc
ON-LINE Haverá transmissão ao vivo on-line em www.facebook.com/descolagem

POR AMANDA DEMETRIO, DE SÃO PAULO | Publicado originalmente em Folha Online | 29/06/2011 – 03h37

No Brasil, metade dos alunos não tem acesso a computador


Entre 65 países avaliados, apenas 10 estão em situação pior que a brasileira, indica levantamento do Pisa

Metade dos estudantes brasileiros está “desconectada” e o País soma uma década de atraso em relação aos países ricos no que se refere ao acesso a computadores e internet. Se não bastasse, as escolas brasileiras estão entre as piores em relação ao contato dos alunos com a informática, o que pode comprometer a formação de milhares de jovens.

Esse é o resultado do primeiro levantamento do Programa Internacional de Avaliação de Alunos [Pisa] para analisar a relação entre os sistemas de ensino e a tecnologia. Segundo o documento, elaborado com dados de 2009 pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico [OCDE], as escolas brasileiras não estão equipadas e o Brasil é o último em uma lista de 38 países avaliados em relação ao número de computadores por alunos na escola.

“O aprendizado do uso do computadores é primordial para o futuro desses jovens. Estudos mostram que pessoas com conhecimento de informática têm 25% mais de chance de encontrar um trabalho”, disse Sophie Vayssettes, pesquisadora responsável pelo levantamento, que mediu o acesso ao computador de um estudante de 15 anos em várias partes do mundo.

De um total de 65 países avaliados, apenas 10 estão em situação pior que a do Brasil. Alunos da Romênia, Rússia e Bulgária contam com mais acesso à tecnologia que os brasileiros. No País, em média, 53% dos estudantes de 15 anos têm computadores em casa. Há dez anos, a taxa era de 23%. Apesar do avanço, os números ainda são inferiores à média dos países ricos. Na Europa, EUA e Japão, mais de 90% dos estudantes têm computador. O acesso no Brasil é hoje equivalente ao na Europa no ano 2000.

O estudo aponta ainda a desigualdade do acesso à informática no Brasil. Entre os mais ricos, 86% têm computador e internet em casa – taxa equivalente a dos alunos de países ricos. Entre os mais pobres, apenas 15% têm as ferramentas em casa.

PARA ENTENDER

Prova avalia leitura de textos na internet

Saber ler e calcular já não basta. O Pisa avaliou pela primeira vez a leitura digital de estudantes, para examinar a capacidade de “acessar, administrar, integrar e avaliar a informação” na internet. Ou seja, analisou a capacidade dos jovens de construir novos conhecimentos a partir de textos eletrônicos.

Apenas 19 países participaram – o Brasil não entrou por causa do baixo número de computadores nas escolas. Os que melhor se saíram foram os alunos sul-coreanos, seguidos pelos da Nova Zelândia, Austrália, Japão, Hong Kong, Islândia e Suécia.

Por Jamil Chade, CORRESPONDENTE/GENEBRA | Publicado originalmente em O Estado de S.Paulo | 29 de junho de 2011 | 0h 00