O manuscrito secreto de Arquipélago Gulag e a página do livro digital


Por Roney Cytrynowicz | Publicado originalmente em PublishNews | 04/03/2011

O que têm em comum a história de um manuscrito levado secretamente para fora da União Soviética nos anos 1970 e que se tornou um dos mais impactantes livros de denúncia das prisões políticas naquele país, o futuro do livro digital na Rússia e, ainda, uma inusitada e surpreendente concessão do Kindle, o livro digital da Amazon, em relação ao design do livro impresso?

As três histórias/notícias envolvendo livros e o mercado editorial foram publicadas em dois cadernos encartados na última segunda-feira na Folha de S. Paulo: o The New York Times, que é publicado regularmente em parceria com a própria Folha, e a Gazeta Russa, encartado ocasionalmente. Não deixa de ser irônico receber notícias norte-americanas e russas lado a lado, ainda mais com uma história que lembra os tempos áureos da Guerra Fria: a publicação de Arquipélago Gulag, de Aleksandr Soljenítsin.

Ambos os jornais traziam artigos sobre o livro digital em seus países. A reportagem da Gazeta Russa, de Rachel Morarjee, informa como a indústria editorial do país não se desenvolveu para acompanhar o interesse da população pela leitura. “Os russos são notadamente ávidos leitores, capazes de ainda hoje render popularidade a escritores românticos como Aleksandr Púshkin, considerado por muitos o maior poeta russo. A sociedade russa é altamente instruída e possui índices de alfabetização semelhantes aos dos mais desenvolvidos países da Europa Ocidental”, escreve a repórter. Na época do regime comunista, tiragens de livros populares atingiam facilmente 1 milhão de exemplares e custavam um valor simbólico e efetivamente acessível a toda a população.

Um total de 80% dos livros publicados na Rússia estaria concentrado em Moscou e São Petesburgo, já que o país não conta com uma rede estruturada de livrarias. Frente a esta demanda potencial, os e-books poderiam ser uma saída para responder ao interesse pela leitura, ainda mais que o país desenvolveu um leitor digital próprio para o mundo russo, o Pocketbook, que tem 43% do mercado local.

O artigo do NYT traz, por sua vez, um interessantíssimo ensaio de Joshua Brustein contando que o Kindle, o leitor eletrônico da Amazon, de longe o mais popular nos EUA, inserirá nos livros eletrônicos – além de outros números de localização digitais – a numeração de página correspondente à do livro em papel…

Há algo de absurdo nisso”, escreve o autor, pois “os e-books, por definição, não têm páginas. Dependendo do tamanho da fonte, a tela pode ser avançada muitas vezes antes de ‘virar a página’. E há livros com muitas edições físicas ou textos que só existem no espaço digital”, escreve Brustein. Haveria, por parte dos leitores, uma necessidade psicológica de reconhecer, mesmo no formato digital, o design do livro em papel; a tela sem esta referência do livro impresso parece um “lugar nenhum” aos leitores…

Brustein faz uma comparação interessante, lembrando que na passagem do transporte a cavalo para as máquinas a vapor, a potência passou a ser medida em “cavalos” e os projetistas dos automóveis desenharam raios nas rodas em alusão às rodas de madeira das carruagens. Interessante comparação, já que neste caso o que mudou não foi apenas a velocidade ou a sua escala, mas a própria concepção de velocidade e deslocamento humanos, introduzindo, no caso do motor e do automóvel, uma dimensão de tempo e de espaço antes inexistentes. Ou, poderíamos acrescentar no caso do livro, a leitura não é uma questão apenas tecnológica, mas uma complexa somatória de habilidades, hábitos e tradições que não podem ser simplesmente rompidos. O próprio NYT publicou tempos atrás uma outra reportagem sobre a falta que capas e orelhas faziam aos livros e aos leitores.

Mas, voltando à história de manuscrito secreto de Arquipélago Gulag, este foi levado para fora da Rússia clandestinamente, conforme conta Natália Soljenítsina, viúva do escritor, em Gazeta Russa: “Nos primeiros anos de 1970, o escritor franco-suíço Sasha Andreie, acompanhado de uma delegação da Unesco, articulou um esquema para tirar o livro da Rússia. Foram dias de tensão. Se a obra fosse descoberta na fronteira seria o fim para o livro, para o autor e para o portador”.

O manuscrito denunciava os campos de trabalho forçados onde ficaram presos dissidentes e opositores do regime, como o próprio autor, preso em 1945, quando ainda servia o Exército, por escrever uma carta com críticas a Stálin. Depois de uma pena de oito anos de trabalhos forçados, o autor publicou O primeiro círculo e O Pavilhão de Cancerosos. Em 1970 recebeu o prêmio Nobel de Literatura, mas 1974 todos os seus livros foram oficialmente banidos do País [embora cópias clandestinas continuassem a circular] e ele acusado de traição. Mas ele já era lido e celebrado na URSS e em outros países, nos quais se tornou um símbolo da resistência contra a falta de democracia no regime soviético, para além do clima da Guerra Fria. Nas palavras de Natália, Soljenítsin “se tornou o cronista e confidente da tragédia popular russa”; sua obra acabaria relançada em russo nos anos 1990.

Difícil imaginar hoje em dia, na Era digital, a complexidade logística e os riscos envolvidos no simples contrabando de um manuscrito proibido. Quem assistiu o belíssimo filme “A vida dos outros”, viu uma história semelhante que se passa na Alemanha Oriental. E foi assim que muitos manuscritos cruzaram fronteiras e se tornaram livros memoráveis.

O livro digital promete agora eliminar toda barreira entre qualquer pessoa que queira ser autor e seus potenciais leitores, mas o que dizer dos manuscritos digitais que gostaríamos de ler para conhecer o que se passa dos lados de lá de todas as fronteiras e arquipélagos onde a sombra da censura e da falta de informação livre vigora? A internet, sua infinidade de sites e as redes sociais já cumprem este papel, mas onde estão os manuscritos digitais que vão se tornar os Arquipélagos Gulag do século 21? Talvez seja o caso de calçar pequenas ruelas eletrônicas de paralelepípedo para incentivar sua produção e circulação.

Artigo Escrito por Roney Cytrynowicz | Publicado originalmente em PublishNews | 04/03/2011

é historiador e escritor, autor de A duna do tesouro [Companhia das Letrinhas], Quando vovó perdeu a memória [Edições SM] e Guerra sem guerra: a mobilização e o cotidiano em São Paulo durante a Segunda Guerra Mundial [Edusp]. É diretor da Editora Narrativa Um – Projetos e Pesquisas de História [www.narrativaum.com.br] e editor de uma coleção de guias de passeios a pé pela cidade de São Paulo, entre eles Dez roteiros históricos a pé em São Paulo e Dez roteiros a pé com crianças pela história de São Paulo.

A coluna Volta ao mundo em 80 livros, é publicada quinzenalmente – sempre às sextas-feiras – no PublishNews, conta histórias em torno de livros, leituras, bibliotecas, editoras, gráficas e livrarias e narra episódios sobre como autores e leitores se relacionam com o mundo dos livros.

Biblioteca eletrônica brasileira é 1º lugar em ranking mundial


A biblioteca eletrônica SciELO Brasil foi classificada em 1º lugar no ranking mundial de portais de acesso aberto Webometrics, divulgado pelo laboratório Cybermetrics, grupo de pesquisa vinculado ao Conselho Superior de Pesquisas Científicas da Espanha.

Curiosamente, a SciELO Brasil não estava em primeiro lugar em nenhum dos quatro quesitos medidos no ranking: foi a 2º tanto no item tamanho quanto no de presença no portal acadêmico Google Scholar, 3º em número de arquivos em formato pdf e 4º em visibilidade, que é a quantidade de links que remetem a páginas do portal. O somatório, contudo, rendeu-lhe a liderança. “A consistência do SciELO prevaleceu sobre outros competidores”, diz Abel Packer, coordenador da biblioteca.

A segunda posição coube ao portal HAL, do Centro Nacional de Pesquisa Científica da França. Coleções SciELO de outros países também saíram-se bem no ranking, caso do Chile [6º lugar] e Cuba [12º]. A biblioteca SciELO de Saúde Pública, sediada no Brasil, desponta na 9ª posição. Outro destaque brasileiro é a coleção Brasiliana, da USP, em 24º lugar.

A SciELO Brasil, sigla para Scientific Electronic Library Online, abrange uma coleção selecionada de 221 periódicos brasileiros, publicados em acesso aberto na internet. Criada em 1997, é um programa especial da FAPESP, em parceria com o Centro Latino-Americano e do Caribe de Informação em Ciências da Saúde, Bireme, e com a participação do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico [CNPq]. Atribui-se à biblioteca um papel importante na qualificação das revistas científicas brasileiras.

Para ser admitido e depois se manter na coleção, cada periódico precisa cumprir uma série de exigências rígidas, em relação à qualidade de conteúdo, à originalidade das pesquisas, à regularidade da publicação, à revisão e aprovação por pares das contribuições publicadas e à existência de um comitê editorial de composição pública e heterogênea.

Para Abel Packer, o desempenho da biblioteca no Webometrics mostra o acerto da decisão da FAPESP e da Bireme de investir numa coleção de acesso aberto. “O Webometrics é uma iniciativa que começa a adquirir relevância, com toda a complexidade que vem junto com metodologia e estratégias de hierarquizar o desempenho na internet. Ele utiliza um método que consegue avaliar produtos e serviços e sistemas que operam em acesso aberto na web, dividindo-os em repositórios e portais”, afirma.

A conquista do SciELO deu-se na categoria portal. Já na categoria repositório, o primeiro lugar coube ao Social Science Research Network [SSRN]. Um destaque brasileiro nesta categoria foi a Biblioteca Digital de Teses da Universidade de São Paulo, classificada em 14º lugar na lista de repositórios. Criada em 2001, a biblioteca mantém acesso online de teses e dissertações defendidas na USP para consulta ou download. Ainda na categoria repositório do ranking Webometrics, a Biblioteca Digital Jurídica do Superior Tribunal de Justiça desponta na 12ª posição.

Por Fabricio Marques | Portal Fapesp | 04/03/2011

Livraria do Pontofrio.com dá mais um passo


O Pontofrio.com, que no final de janeiro começou a vender didáticos e em setembro de 2010 entrou na onda dos e-books, dá mais um passo na consolidação de sua livraria virtual. Nesta semana, começou a vender 20 mil livros universitários. E o catálogo de e-books está a todo o vapor. De 80, no lançamento, seu acervo pulou para 700 títulos digitais.

PublishNews | 04/03/2011