Preenchendo espaços vazios


POR LULI RADFAHRER | PUBLICADO ORIGINALMENTE EM FOLHA DE S.PAULO | 2/3/2011

O livro eletrônico tem a chance de atrair mais leitores e de transformar a experiência de leitura

A AMAZON anunciou recentemente que o e-book já é o formato de livro mais vendido no site, ultrapassando as edições em brochura, que desde o início foram o principal ganha-pão da rede. Eu trabalho em uma editora, e cada anúncio desses é recebido com um misto de apreensão, cautela e ansiedade.

Num primeiro momento, a relação com o e-book foi de desconfiança: os aparelhos são caros no Brasil, a pirataria é galopante, essa moda vai passar. Mas o sucesso do Kindle e do iPad indica que, em breve, os leitores brasileiros poderão exigir das editoras que seus lançamentos e catálogos estejam disponíveis nesses formatos.

Conforme os números chegam de fora -o e-book já domina 10% do mercado americano, segundo o “New York Times”-, as editoras brasileiras tentam criar um modelo de negócios viável para nós. A Amazon, como se sabe, é muito boa em gerar lucros para a própria Amazon, e diversos autores e editoras não toparam os primeiros acordos draconianos oferecidos pela rede.

O fato é que ainda não há um mercado de livros eletrônicos no Brasil. Sinto que a ansiedade às vezes leva as editoras e lojas a tentar ocupar esse espaço inexistente, em vez de entender como ele vai se configurar num futuro próximo. Para mim, não é o momento de se vender e-books no Brasil, e sim de criar condições para que esse mercado atinja seu potencial em nossas praias.

Basta lembrar que até há pouco ainda estávamos falando em Fim do Livro, discussão que carrega a urgência de uma reunião de condomínio. O livro não vai acabar, pelo contrário: o e-book tem a chance de atrair toda uma nova gama de leitores, de facilitar a circulação de livros fora de catálogo, de transformar positivamente a própria experiência de leitura.

O receio das editoras é natural. Alguns autores já negociam pessoalmente com a Amazon os direitos de suas edições eletrônicas, e publicar um livro independente torna-se uma tarefa cada vez mais fácil. Para além disso, o que está em questão é o próprio papel das editoras, com o perdão pelo trocadilho infame. O que impede os autores de vender seus livros diretamente às redes ou até num site próprio, ficando com uma fatia maior do lucro de vendas?

Uma editora não é uma simples distribuidora de livros. Cada uma tem seu conjunto de critérios para publicação, e com o tempo os leitores identificam esses critérios e confiam [ou não] nos títulos que determinada editora põe na praça. No caso dos livros eletrônicos, acho que ainda precisa surgir uma editora desse porte, pelo menos no que diz respeito à percepção do leitor.

Enquanto brigamos por um espaço de mercado, me parece que estamos deixando de lado uma disputa que é mais do campo ideológico. A virada só se dará quando uma editora -seja das grandes, seja uma novidade exclusiva ao mundo digital- souber preencher esse espaço pensando menos em lucro e mais em ideias. Até porque o e-book só vai dar dinheiro no Brasil quando esse novo leitor puder ter de sua editora eletrônica a mesma percepção [e identificação] que tem das editoras de papel, e isso não se dá apenas transportando o catálogo inteiro para uma loja de internet.

chorume.org | @andre_conti

POR LULI RADFAHRER | PUBLICADO ORIGINALMENTE EM FOLHA DE S.PAULO | 2/3/2011