Luís Sepúlveda se recusa a aceitar fim do livro de papel


Portugal: Com mais de 40 anos dedicados à literatura, Luís Sepúlveda recusa-se a aceitar o desaparecimento do livro em papel e apresenta-se como um firme defensor do livro, em oposição aos leitores eletrónicos, objetos “frios e sem personalidade”.

Se algum dia se quiser adornar um livro com música ou com publicidade… preferiria não estar vivo quando isso acontecer”, assegurou Luís Sepúlveda.

O escritor mantém-se otimista: “Fala-se muito sobre a mudança do livro, mas acho que, pelo menos nos próximos 30 anos, o livro de papel vai continuar a ser favorito, pela enorme sensualidade que tem o objeto”.

O livro, nas palavras de Sepúlveda, é “algo quente, plenamente manipulável”, enquanto o método eletrónico é “um objeto frio, sem personalidade, que não diz nada”.

Prefiro os velhos livros. Também tenho um reader, mas utilizo-o apenas para consultar o dicionário. Um dia tentei ler um romance e fiquei cansado. Não tinha esse gosto manual, a sensualidade de passar as páginas. Faltava algo”, garante.

Luís Sepúlveda deu um exemplo prático: “É como com a música: podes escutar na reprodução em MP3 um álbum de um grande músico como Chet Baker e soar-te bem. No entanto, falta algo. Falta o que tinha o velho disco de vinil. Os sons que eram parte da música.

O excesso de perfeição, segundo o autor de “O Velho que Lia Romances de Amor”, “mata a originalidade”, por isso prefere continuar a ouvir esses velhos discos de vinil e a ler esses velhos livros.

Há alguns leitores, como eu, que têm costumes específicos. Por exemplo, eu não uso marcador de livro, dobro a página onde estou a ler. E muitas vezes também gosto de fazer anotações. E isso não se pode fazer no formato digital”, exemplificou.

Além dos velhos hábitos, o gosto de Luís Sepúlveda pelo papel mantém-se porque encontra no método eletrónico vários problemas: “Hoje em dia não podes estar ao sol com um reader porque não vais conseguir ver nada, não vais poder lê-lo. Não podes ir à praia com um reader, porque a areia vai estragar o ecrã”.

A paixão pelos seus livros é tanta que, quando termina a leitura de um que lhe agradou, o escritor chileno mantém-no perto de si para se recordar dos “bons momentos” que passou a lê-lo. “É um fetiche bonito”, acrescentou.

Luís Sepúlveda acredita que “é possível que se imponham novas formas de apresentar os livros”, mas que a metodologia de escrita vai continuar igual.

Uma pessoa, sentada, em frente ao papel, a contar uma história”, concluiu.

Agência Lusa | 28/02/2011