O que os poderosos pensam do DRM e uma explicação do conceito de nuvem


Por Mike Shatzkin | Publicado originalmente em PublishNews | 16/02/2011

Um dos meus últimos posts teve como base só uma coisa: minha frustração com o que sinto ser a tendência daqueles que se opõem ao uso do DRM de afirmar que os defensores da proteção acreditam que ela evita, ou ao menos desencoraja bastante, a pirataria. Sei que não é verdade comigo e suspeito que não seja verdade entre os poderosos da indústria de livros, tanto do lado das editoras quanto dos agentes.

Concordo com a opinião dos oponentes do DRM de que o apoio a esse tipo de proteção não tem muita base em dados significativos apesar de que, na verdade, não existem muitos dados em nenhum lugar. Por alguma razão, parece que o lado anti-DRM acha que você precisa ter provas convincentes para justificar o apoio para manter o DRM, mas não é uma exigência para defender sua remoção. Mas está claro que minha proposta – de que é bastante impreciso acusar todos os apoiadores da DRM de acreditarem que é possível acabar com a pirataria com o uso da proteção – pode ser pesquisada. Então foi isso que fiz.

Nove executivos de alto nível em sete editoras top, mais quatro agentes literários com clientes muito conhecidos [um deles também tem experiência do lado editorial], responderam às três perguntas que mandei por e-mail.

1. Você acha que DRM é necessário para proteger as vendas de e-books dos títulos mais comerciais?
2. Você acha que o DRM é eficiente contra a pirataria?
3. Você acha que o principal benefício do DRM é prevenir a troca informal de livros?

Fui transparente: Falei às pessoas que minha opinião era “sim”, “não”, “sim”. Tenha quase certeza de que minhas opiniões não influenciaram nenhuma dessas pessoas.

Onze dos 13 concordaram comigo que DRM é necessário para proteger as vendas. Dez dos 13 concordaram comigo que DRM não é um método eficiente contra a pirataria. E 12 dos 13 concordaram comigo que o principal benefício do DRM é evitar a troca informal!

Não sei quantos oponentes do DRM tem o interesse ou a paciência para ler esse blog, mas notem. Ou é pouco confiável ou pouco sofisticado [ou os dois] usar “isso não acaba com a pirataria” como argumento contra o DRM. A maioria das pessoas que apoia o uso de DRM sabe disso e concorda. Não é nenhuma novidade. Você poderia também tentar persuadir o outro lado dizendo que DRM não cura o câncer. Concordamos nesse ponto também.

Os dados me deram uma grande surpresa. Dois dos quatro agentes disseram que não acreditam que o DRM é necessário [de nenhum jeito] para proteger as vendas dos e-books. [Nenhum dos editores votaram dessa forma.] Quatro é uma pequena amostra para chegar a qualquer conclusão, mas poderia demonstrar que minha suposição de que editores promovem o uso universal do DRM porque os agentes os obrigam é um pouco exagerada.

Muitos dos que responderam deram, voluntariamente, pensamentos adicionais e detalhes que também continham alguma informação interessante. Um alto executivo de uma das Big Six americanas, que é uma pessoa analítica e que sempre se baseia em dados, informou que “dos principais títulos nossos que foram pirateados, todos foram escaneados, nenhum era de e-books protegido por DRM.” [Acho isso bastante surpreendente. Ele mina a alegação frequente – que sempre tive a tendência a aceitar – que o DRM é uma barreira fútil contra a pirataria por ser tão facilmente quebrada. Se isso for verdade, por que as versões pirateadas que os editores encontram não vem de e-books com a DRM destravada? Algo está errado aqui.]

E outro executivo, provavelmente ecoando a mesma observação a partir de provas em sua editora, disse que achava que eu estava errado e que DRM realmente diminuía a pirataria, mas acrescentou que “DRM precisa começar muito antes na cadeia de produção para ser eficiente.”

Claro, essas observações exigem mais pesquisas como aquelas que o Brian O’Leary defende. Versões pirateadas feitas de manuscritos não podem ser lidas tão bem quanto uma cópia destravada de um e-book preparado a partir da versão final revisada. Será que algumas pessoas que começam a ler um livro pirata depois decidam comprar o e-book legítimo? Essas cópias poderiam estimular as vendas e os editores seriam mais inteligentes se não as perseguissem? Acho que não temos essa resposta.

Um dos dois agentes que descartou o DRM e respondeu “não” disse o seguinte [algo que na verdade o coloca mais perto da minha posição, apesar de que a nossa interpretação é que sua resposta foi diferente]: “Devemos também perceber que as trocas informais sempre foram uma prática comum com livros físicos. Os únicos títulos que poderiam valer a pena colocar DRM seriam enormes best-sellers onde poderia existir alguma erosão nas vendas. [Um parênteses aqui: Nós concordamos que a troca informal seria mais complicada entre os livros com maior venda.] Todo o resto – especialmente os menores títulos – na verdade se beneficiaria de trocas informais porque precisam de uma base mais ampla de leitores para construir uma pirâmide decente de vendas. Nos títulos menores, duvido que os “trocadores informais” comprem os títulos, mas eles poderiam recomendá-lo se tivessem um exemplar. Sei que muitos editores agora estão distribuindo [ou vendendo bem mais barato] títulos de autores de seu catálogo com a esperança de construir seus nomes. Se há uma lição em tudo isso, é que o meio digital pode ser usado numa variedade de formas e não deveríamos ficar paralisados pelo DRM, exceto para os grandes autores, como notamos acima.”

Recebi as melhores respostas de um executivo que acredita, como eu, que os problemas de pirataria e a necessidade de DRM vão diminuir quando adotarmos cada vez mais e-books baseados na nuvem sem que seja necessário fazer download. Numa frase bastante provocativa, esse executivo disse que apoiava o DRM para vendas de e-books com download porque “se você lançar o Código Da Vinci sem DRM ele passaria de mão em mão como uma prostituta barata numa festa de estudantes!” Mas sua explicação da nuvem se encaixa melhor para audiências familiares.

“Não existe realmente um problema de pirataria, mas não existe nenhuma alternativa verdadeira ao DRM que não seja a nuvem. A nuvem significa que você compra um produto [PS: Eu pessoalmente diria que você “licencia algum conteúdo”, não que “compra um produto”] e ganha o direito de acessar em todo aparelho que possui – conquanto que forneça as credenciais de propriedade. A nuvem significa que você trabalha somente dentro de uma plataforma e que a plataforma exige suas credenciais para acessar seus trabalhos – então isso é, na verdade, DRM – mas não é, exatamente. Dito isso, para que a nuvem funcione, precisa proteger os arquivos quando são baixados – e isso acaba sendo DRM.

O mundo todo está se afastando do download, então o DRM está se tornando irrelevante – somente os fanáticos de bibliotecas e os digerati se importam com isso. Os caras da biblioteca estão loucos por entenderem que não existe lugar para eles num mundo que torna todo o conteúdo acessível aos usuários em qualquer lugar, em qualquer momento – e acham que o DRM é o inimiga de tudo que é bom. Os digerati odeiam o DRM porque, bem, acreditam que está atrapalhando seu reino digital utópico.

Então, a nuvem nos afasta do “download e posse”. Isso pode funcionar? Bom, se você usa gmail e acha que funciona, aí está sua resposta. Por que não funcionaria para acessar, da mesma forma, o conteúdo que licenciou? E por que não funcionaria para proteger material com direitos autorais se dar acesso a outra pessoa para o que você possui direito a ver seria o equivalente a dar acesso a seu e-mail? Baseando-me nessa experiência, isso seria proteção suficiente para me satisfazer. Qualquer compartilhamento que acontecesse sob essas condições não seria informal.

Por Mike Shatzkin | PublishNews | 16/02/2011

3 pensamentos sobre “O que os poderosos pensam do DRM e uma explicação do conceito de nuvem

  1. Muito muito boa essa matéria. Para mim, o problema do DRM não tem a ver com dificuldade de troca de conteúdo, mas com um cerceamento ao uso daquilo que adquiri. Mas sei que a “culpa” não é somente do DRM. Tenho um kindle, e nenhum dos livros à venda em qualquer outro lugar que não a Amazon é acessível de modo tranquilo no meu aparelho. Então, não considero bom negócio comprar um livro na cultura, na saraiva ou qualquer outro lugar para ter de ler no computador. Aí fico com um livro físico. Por outro lado, não troco o kindle pelos outros modelos que tive acesso porque a qualidade de leitura é superior.

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