Internet transformou a relação de poder entre críticos e leitores


Tecnologia libertou o público do julgamento dos acadêmicos

Cinquenta anos é muito tempo para qualquer literatura nacional, mas, no ambiente extremo da cultura norte-americana, a ficção parece encontrar uma incubadeira que propicia crescimento incomumente rápido.

Mas, nos 50 anos transcorridos desde que Alfred Kazin [1915-1998] lecionou sobre a função da crítica, a crítica literária acadêmica nos EUA possivelmente mudou mais que o romance moderno, enquanto o tipo de crítico que servia de tema a Kazin -um profissional que escreve para o público, “vive a literatura” e tenta criar padrões- agora vê sua função revisada por mudanças tecnológicas.

Nos bolsões solitários de pequenas e grandes cidades“, escreveu Don DeLillo no começo dos anos 80, “um milhar de mentes se move“.

Cerca de uma década mais tarde ou pouco mais, a comercialização da internet formou uma rede que une essas mentes e criou uma espécie de vasta teia neural.

A internet tira as pessoas de sua solidão e as leva a criar “eus” eletrônicos talvez mais nus ou mais estridentes que o “eu” indistinto e repleto de compromissos que se movimenta fantasmagoricamente em suas rotinas.

No início da revolução das redes, o crítico Sven Birkerts catalogou as perdas que um leitor sofreria no milênio eletrônico: divórcio da consciência histórica, senso de tempo fragmentado e perda de concentração profunda.

Do outro lado da divisa, a capacidade de localizar um núcleo de pessoas com ideias semelhantes decerto representaria um ganho real para um leitor que considera o isolamento desconfortável.

Ainda mais acentuadamente, no final do século 20, o romance contemporâneo sério se afastou da linearidade e suas partículas narrativas se agruparam em nódulos semelhantes aos da web e com foco distribuído por diversos personagens.

MENOS NEBULOSA

Para o crítico, essas mudanças tecnológicas criam ecos históricos profundos. Se em séculos passados o leitor comum era, ao menos em parte, uma construção retórica, um não especialista imaginário, para o crítico do novo milênio a audiência da literatura é menos nebulosa. Em 1960, Kazin se queixava de que “a audiência não sabe o que quer”; com o advento das resenhas da Amazon e outros sites, a audiência se expressa claramente.

Ainda que as resenhas on-line variem em termos de qualidade e percepção, o fato de que existam já não permite imaginar que não exista uma audiência de interesse geral bastante envolvida.

A era da avaliação, do crítico olímpico como árbitro cultural, acabou. Embora continuem a existir críticos, seus esforços só servem para elevar o ruído na cultura.

A perda de uma crítica mais centralizada e unívoca não é necessariamente ruim.

Certamente a maioria dos leitores já viram resenhas de críticos conhecidos cujo trabalho termina envenenado por preconceitos pessoais.

E embora a remoção ou, mais precisamente, a redistribuição das tarefas de avaliação deva provavelmente diluir os padrões críticos, também pode liberar o crítico para que se dedique a tarefas mais sérias, que talvez influenciem a cultura. Ao abandonar a cultura da opinião e realizar análise mais profunda, o crítico irá desempenhar sua função primordial: localizar obras importantes que nem sempre ficam visíveis em meio às correntes dominantes.

POR STEPHEN BURN | DO “NEW YORK TIMES” | Publicado por Folha de S.Paulo | Sábado, 22 de janeiro de 2011