Como ganhar a briga pela venda dos e-books?


Eu leio todos meus livros no meu iPhone e costumo ter diferentes livros abertos em vários e-book readers ao mesmo tempo. Essa é uma mudança drástica no velho hábito de ler um livro por vez. Nunca pensei que seria divertido ler dessa forma porque as limitações físicas de carregar vários livros de papel para todos os lados nunca me encorajou a pensar em algo assim.

No momento estou lendo Joe Cronin, de Mark Armour, e Crossing the Chasm, de Geoffrey A. Moore no Google Books; Washington, de Ron Chernow no Nook reader [que agora percebi que não marcou minha última leitura e está me forçando a descobrir em que parte eu estava, o que não é nada bom]; Brooklyn Dodgers: The Last Great Pennant Drive, de John Nordell no Kobo; e The Autobiography of Mark Twain, no Kindle. Tenho o iBooks reader no telefone, mas não compro na loja dele porque nunca vi nenhuma vantagem especial no reader e a loja possui bem menos títulos do que os concorrentes.

Agora, você se importou com os detalhes do que falei? Aposto que a maioria dos leitores não, a não ser dentro do limite de que esperam que eu faça alguma discussão conceitual sobre esses detalhes pessoais que falei no parágrafo anterior [e é claro que vou fazer]. Meu palpite é que a maioria leu o primeiro parágrafo curto e passou por cima do segundo que, francamente, não é realmente necessário para mostrar minha ideia. Mas creio que alguns poucos ficaram bastante interessados. [Mas por favor não me contem seus detalhes, eu faço parte da maioria].

Onde eu compro os livros é algo bem caótico. Minha ordem de preferência para ler [no momento porque isso muda e eu uso todas as possibilidades] é Kobo, Kindle, Google, Nook. Kobo, Kindle e Nook possuem dicionários incluídos; pressione [só tocar não adianta] em cima da palavra e aparecerá uma definição e a possibilidade de criar uma nota, ou então um link para a Google ou a Wikipedia. O problema para mim é que, no iPhone, nem sempre consigo fazer esse recurso funcionar. Minha experiência pessoal mostra que a funcionalidade é mais confiável no Kobo e bem menos no Kindle e na B&N, mas não sei se essa experiência pode ser considerada representativa em comparação com outras pessoas com iPhones, dedos e livros diferentes.

A Google ainda não oferece essa capacidade, nem mesmo simples marcação de página [que todos os outros têm], mas aposto que isso não vai demorar para ser implementado.

Nenhuma das plataformas oferece um desempenho perfeito na minha experiência de uso [e a sua pode ser diferente]. Meu Kobo já “travou”, forçando-me a reiniciar o telefone para que voltasse a funcionar. A formatação do “Mark Twain” do Nook no meu iPhone era um desastre. [Falei sobre isso com algumas pessoas da B&N; talvez tenham consertado. Quando perguntei ao editor da UC Press, a resposta foi que o arquivo funcionava bem no aparelho Nook, mas sei que não funcionava no meu Nook para iPhone. Dá para ler muito bem no Kindle para iPhone.] O Kindle é frustrante para mim porque eu gosto muito de ler com alinhamento à esquerda e, até onde sei, o Kindle sempre mostra as páginas justificadas e não há como mudar. Acho que a navegação do Google e do Kobo são mais intuitivas para mim e me dão mais controle da experiência de leitura. O Nook não parece ter uma forma de travar com a tela na vertical então não dá para ler na cama de lado.

Se penso num livro que quero quando estou lendo outro, é mais provável que compre no reader que estou usando só porque é o que está aberto. Graças à combinação de modelo de agência e monitoramento do preço em tempo integral, é improvável que haja qualquer vantagem financeira de ficar procurando em várias lojas. Se eu sei exatamente qual livro quero, não existe nenhuma diferença especial entre os quatro em termos de facilidade de uso ou velocidade de transação.

Há uma dinâmica que claramente favorece o Kindle. Tenho um aparelho Kindle, que comprei nas primeiras semanas em que este saiu ao mercado. Li muitos livros nele no primeiro ano. Dei o aparelho para minha mulher quando o Kindle colocou sua vasta seleção disponível no iPhone. Martha lê muito mais livros do que eu; mas os gostos são muito diferentes. Quando decidi que queria ler Stieg Larsson, ela já tinha comprado para Kindle, então li no aparelho [é tudo a mesma conta.] E quando comprei o novo Ken Follett do Nook, ela o acessou em Nova York enquanto eu estava lendo em Frankfurt usando o iPad que compartilhamos [mas que nenhum dos dois gosta de usar para ler livros porque é muito pesado.]

Tudo isso leva à pergunta conceitual que prometi acima: o que uma loja deve fazer para fidelizar seus clientes? E para responder essa pergunta devemos também ter algo em mente: os pequenos grupos são importantes.

Vamos olhar no passado e dizer que havia um relativamente pequeno grupo de usuários iniciais do Kindle que foram os principais catalisadores de cada vez mais profundas mudanças na edição de livros [mudanças que ainda estão começando]. A Amazon estava numa posição única para entregar uma proposta nova e com valor para as pessoas que podiam se beneficiar mais dos aparelhos de leitura. E eles capturaram e, por um tempo, fidelizaram um grupo relativamente pequeno de pessoas que leem muito, porque quanto mais livros você lê, maior o benefício relativo do Kindle, em termos de funcionalidade e de economia.

Pode ser que um dia o formato de arquivo [relativamente] fechado do Kindle se torne um problema para as vendas, mas é difícil ver que isso vai acontecer agora, principalmente se a Amazon cumprir com seu recente anúncio de que em breve vai produzir um Kindle baseado em browser. [Eu deveria acrescentar que li relatórios de que o Google books funciona bem num aparelho Kindle através do web browser do aparelho. Como meu Kindle é um dos primeiros modelos, sem wi-fi e com uma conexão muito lenta, não estou em posição de confirmar isso.] Mas, por agora, a Amazon possui muitos milhões de felizes donos de aparelhos para quem comprar um livro de qualquer outra forma seria mais um problema do que uma solução.

Então, de qual outra forma a loja pode fidelizar o cliente? A Google tentou vender o valor de que você será o gerente da sua “estante” onde todos seus livros estarão disponíveis o tempo todo, em qualquer aparelho, etc. A ideia parece ser tirada do conceito do iTunes, mas esse é outro exemplo que nos faz lembrar que “livros não são iguais a música”. É importante ter toda sua música num só lugar. Nunca vou ter nenhum motivo para precisar que “Washington” e “Joe Cronin” estejam no mesmo reader, mas seria importante ter uma música de 1958 e uma de 1992 tocando consecutivamente quando eu quiser.

Então, o importante para a iTunes foi: a] permitir que fosse fácil ripar facilmente seus CDs, e para isso o banco de dados de metadata foi um recurso extremamente importante; e b] permitir que se comprasse qualquer outra música que se quisesse pelo método de download em algum sistema de hospedagem. Posso ser um extremo na desorganização dos meus hábitos de leitura, mas acho que poucas pessoas iriam exigir algo parecido às capacidades de agregação do iTunes para seu material de leitura.

Então, o que mais? A The Copia [nosso cliente durante uma boa parte do ano passado, que estará no meu iPhone assim que o aplicativo deles estiver pronto] possui uma proposta para tentar resolver isso, que é criar um aplicativo de rede social em conjunto com o leitor. Se eu estivesse no The Copia e tivesse todos os livros dos quais estou falando no aplicativo deles, vocês seriam capazes de ver os detalhes que eu apresentei no segundo parágrafo sem que eu tivesse de contar.

E isso me leva à segunda questão: que pequenos grupos são importantes. Porque, claramente, há pessoas que se importam com o que os outros estão lendo e que querem compartilhar suas anotações para que os outros possam ver. E se eu me importar em mostrar minhas experiências de leituras, vou querer que todos meus livros estejam no The Copia. Isso é um método de fidelização. E, quem sabe, pode ser que eu descubra que vale a pena compartilhar informações com outras pessoas loucas pela história do beisebol. [Apesar de que me pergunto se sou a única pessoa que acha o sublinhado sutil do Kindle, que mostra, quando você passa o mouse sobre um item, que “87 pessoas destacaram essa passagem”, ao mesmo tempo inútil e distrativo.]

Fidelizar um pequeno grupo é o que a Kobo está pensando com os novos recursos de leitura social que acabaram de introduzir. Estão disponíveis agora somente na versão iPad do aplicativo, mas eles “acompanham” sua leitura, dão recompensas por terminar um livro e permitem que o mundo saiba em que ponto você está de um livro. As pessoas que acham isso bom, e existem algumas, agora terão um motivo para usar o Kobo e somente o Kobo, assim como as pessoas que possuem um Kindle tem uma razão para usar somente a Amazon e o The Copia espera ganhar as pessoas que gostam de redes sociais e que conseguem ver menos valor no resto.

Por outro lado, espero que as capacidades centrais fiquem mais parecidas com o tempo. A Google vai acrescentar links externos para dicionários e fontes de referência. Todas as plataformas vão melhorar a resposta de seus aplicativos para meus dedos gordos no iPhone. Se as estatísticas sociais da Kobo provarem ser algo que arrasta os consumidores, os outros vão acrescentar algo parecido.

Uma coisa que descobri ser muito legal de fazer no iPhone é a capacidade de copiar a tela como se fosse uma foto, o que me permite enviar por e-mail. Há um fabuloso gráfico no novo livro de Robert Reich, “Aftershock”, que deixa muito claro o fato de que uma coisa que atrapalha muito a economia norte-americana é que o 1% dos mais ricos é dono de uma parte muito grande da renda nacional. Adorei ser capaz de copiar aquela tabela como foto e enviá-la para meus amigos. Acho que uma tela de iPhone de conteúdo é pequena o suficiente para não ser considerada pirataria. [Essa é a minha versão e eu a defendo.]

Mas o que mais me importa é a experiência de merchandising e de compra, que a Kobo parece estar ganhando até o momento, mas que não é excelente a ponto de não poder ser superada. [E, como eu apontei acima, se você sabe qual livro em especial quer comprar, todas as lojas são iguais e é difícil que se destaquem.] Há muitas formas de melhorar a experiência de compra, mas eu vou deixar meus pensamentos para outro post.

Então, a maioria dos cavalos já saiu da linha de largada e a Amazon está claramente na dianteira. Mas qualquer um que acha que a corrida pela venda de e-books terminou deveria pensar nisso: não sabemos ainda nem qual é o conjunto de recursos que irá ganhar, muito menos quem vai conseguir descobri-lo no longo prazo.

Sei que essa análise está incompleta. Não leva em conta os readers exclusivos como o IBIS Reader da Liza Daly nem as lojas de e-book independentes como a pioneira Diesel Ebooks. Não fala da Sony, que pode ainda ter um pedaço maior do mercado do que a Kobo [apesar de que, se possuem, minha previsão é que não será por muito tempo]. Nos dias antes do Kindle, quando eu lia meus e-books em formato Palm num aparelho Palm ou outro PDA, comprava na Diesel. Não descarto as chances de ninguém nesse momento, já que ainda é o princípio do desenvolvimento da infraestrutura da leitura digital, mas acho que meu iPhone e esse post capturam as fontes que oferecem a maior seleção de conteúdo que poderiam me interessar. E estou razoavelmente certo de que estou falando aqui das empresas que fornecem a grande maioria dos e-books lidos nos EUA, no geral mais de 90% e provavelmente perto de 95%.

Texto escritor por Mike Shatzkin | Publicado originalmente em PublishNews | 23/12/2010