Rede deve ampliar a produção de livros acessíveis


A última pesquisa sobre o mercado editorial brasileiro, divulgada em julho deste ano pela FIPE – FIPE – Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas da Universidade de São Paulo [Relatório_Anual_2009 ], revela que, em 2009, foram produzidos no país cerca de 386.367.136 livros, com um faturamento equivalente a R$ 1.030.792.120,38. Uma cifra que, se comparada com a do mercado europeu pode parecer irrisória – a pesquisa do Datamonitor de 2008 aponta um volume de vendas de 110,3 bilhões de dólares. No entanto, quando comparamos essa mesma produção brasileira com a de livros publicados para deficientes visuais, estatística que não integra o estudo da FIPE, verificamos uma diferença abissal, que revela a restrição que esta parcela da população sofre com relação ao acesso à informação e à literatura no país.

Segundo o Censo Demográfico 2000, realizado pelo IBGE, o Brasil possui 148 mil cegos. Mas, para suprir a necessidade de informação destas pessoas, existem apenas duas instituições editando livros em Braille, hoje, com destaque para os didáticos, a Fundação Dorina Nowill para Cegos [SP] e o Instituto Benjamin Constant [RJ]. A Fundação Dorina, por exemplo, edita 1200 livros por ano, o que representa cerca de 0,12 livros por deficiente visual.

Para reverter esse panorama, ampliar o acesso da população à leitura e descentralizar a produção e distribuição de livros, a Organização Nacional dos Cegos do Brasil – ONCB concebeu a Rede Nacional do Livro Acessível, que pretende editar livros acessíveis em todas as regiões do Brasil. “Começamos a conversar com o Ministério da Cultura –MinC, no ano passado, sobre a possibilidade de investimento em novas estruturas de produção editorial para ampliar o acesso à leitura e fomentar a distribuição fora do eixo Rio-São Paulo. Como resultado dessa conversa, no início deste ano, o MinC financiou um projeto piloto, em Porto Alegre, para a edição de livros acessíveis. A experiência deu certo e o Ministério lançou um edital para selecionar instituições interessadas em publicar este tipo de livro”, conta Moisés Bauer Luiz, presidente da ONCB.

Rede Nacional do Livro Acessível

No último dia 19, em Brasília, enquanto o Encontro Nacional do Livro, Leitura e Literatura definia diretrizes para políticas públicas na área, a serem entregues aos ministérios da Cultura e da Educação do próximo governo, acontecia um evento paralelo que firmaria um compromisso importante para o avanço da democratização da leitura no Brasil: a implantação da primeira Rede Nacional do Livro Acessível. A ideia da Rede é, justamente, possibilitar a produção, difusão e distribuição de livros em formatos acessíveis, que beneficiem portadores de deficiências visuais.

Para compor a Rede, o Ministério da Cultura selecionou, por meio de um edital público realizado em junho deste ano, 6 instituições que atuam junto a portadores de deficiência visual: Instituto de Cegos da Paraíba Adalgisa Cunha, Instituto Sul Mato-Grossense para Cegos Florivaldo Vargas, Instituto dos Cegos do Brasil Central, Associação de e para Cegos do Pará, Fundação Dorina Nowill para Cegos, Associação de Cegos do Rio Grande do Sul – ACERGS.

A Rede, coordenada pela ONCB, conta com o apoio do MinC para fortalecer a cadeia produtiva do livro acessível. O Ministério destinou ao projeto um montante superior a R$1 milhão, que será utilizado para estruturar a produção dos livros e para qualificar o capital humano que desenvolverá e implementará as tecnologias necessárias ao acesso dos deficientes à cultura. Segundo Moisés Bauer Luiz, a Rede deve dobrar a produção atual de livros acessíveis. “Com os novos centros de edição estruturados, teremos potencial para ampliar a capacidade de produção atual, de 1200 livros/ano para cerca de 2500 livros/ano”, elocubra.

O primeiro encontro da Rede reuniu representantes das seis instituições e das diretorias de Direitos Intelectuais e do Livro, Leitura e Literatura do MinC que deliberaram, entre outras questões, sobre os formatos dos livros acessíveis: escritos em Braille; audiolivros; e versão digital, construído por meio do formato Dayse, específico para auxiliar o acesso de portadores de deficiências ao texto e áudio do livro.

Segundo o presidente da ONCB, Moisés Bauer Luiz, a Rede deverá entrar em funcionamento em meados de 2011. Também para este período está previsto o lançamento do portal da Rede, que deve disponibilizar os livros já existentes nos formatos definidos, além daqueles que virão a ser produzidos.

Por Priscila Fernandes | Publicado originalmente em Blog Acesso | 23/11/2010