De Frankfurt: o mundo está ficando menor


Mike Shatzkin

No final de mais uma Feira de Livros de Frankfurt – minha trigésima alguma coisa – aqui vai uma coisa que eu já sabia mas encaro agora de uma nova maneira: tem uma diferença enorme entre os Estados Unidos e todos os outros países do Mundo Ocidental [pelo menos] de recepção e aceitação do consumidor de e-book.

O que eu penso: isso não pode ficar assim para sempre.

O que eu deduzo: o resto do mundo está no que será, para muitos, uma viagem que os vai deixar tontos, enquanto tentam chegar neste ponto.

Parece óbvio porque os Estados Unidos estejam tão adiantados: 300 milhões de pessoas em uma única economia com uma moeda única e com um único idioma. Esses mesmos fatores explicam porque os Estados Unidos estão muito à frente também em compras de livros impressos pela internet [Há outra grande causa em jogo: a infra-estrutura dos serviços prestados por nossos atacadistas nacionais, Ingram e Baker&Taylor, sem os quais teria sido necessário um investimento inicial muito maior para começar a Amazon.com, 15 anos atrás].

Uma coisa leva à outra. Porque a Amazon havia construído, no final de 2007 quando lançou o Kindle, uma base de leais consumidores compradores de milhões de livros, eles tinham os pilares para desenvolver um e-reader. Isso realmente exigiu duas coisas que ninguém mais em nenhum outro país tem hoje: uma base de consumidores grande o bastante para alcançar uma massa crítica de consumidores sem qualquer apoio ou parcerias e proporciona grande influência junto às editoras para fazer com que elas disponibilizem seus livros em sua plataforma.

Uma coisa leva à outra. O Kindle, da Amazon, com uma seleção de títulos muito mais ampla e um caminho mais suave do arquivo do servidor para o dispositivo do que os dispositivos anteriores [o Sony Reader para alguns e leitores de PC ou dispositivos portáteis como Palm Pilots para outros; e eu estava no grupo dos portáteis], teve uma rápida aceitação. Isso levou a Barnes & Noble, que também tinha influência junto às editoras para que elas levassem seus títulos às suas lojas e acesso e credibilidade da marca com milhões de leitores, a seguir o mesmo caminho com o aparelhinho similar ao Kindle, o Nook, quase dois anos depois do Kindle. Como a maioria de nós sabe, o iPad seguiu o Nook pouco depois, entrando no mercado norte-americano em abril de 2010.

Tudo isso resultou nos Estados Unidos chegando ao ponto de, na Feira de Frankfurt 2010, uma editora norte-americana lançar um livro comum de ficção e esperar que as vendas em e-books sejam uma boa porcentagem da venda total de livro, com relatos ocasionais ainda mais dramáticos.

Uma coisa leva à outra. Como já escrevi muitas vezes, todas essas vendas baseadas na internet colocam grande pressão sobre as lojas físicas. Nós vemos os espaços nas prateleiras diminuírem e há até aqueles que acreditam que nos próximos dez anos esse espaço pode realmente desaparecer.

O Kindle não teve nem de perto o mesmo impacto dramático no exterior que teve nos Estados Unidos, por uma série de razões. A Amazon não tem a mesma audiência. Eles não têm fora dos EUA o mesmo vasto número de títulos disponíveis. E eles não tinham duas outras grandes e influentes companhias [B&N e Apple] levando a experiência com o dispositivo de leitura ao público. Parece que a chegada do iPad e do Nook serviu apenas como catalisador para a Amazon vender ainda mais Kindles e para acelerar ainda mais a absorção do e-book no mercado norte-americano.

Então nós nos vemos hoje com essa enorme lacuna entre a penetração de e-books no mercado norte-americano e a penetração deles nos mercados de outros países fora da Ásia [eu não falei com nenhuma editora asiática na Feira, e não conheço a situação lá]. Certamente [Atenção! Pressuposto: um argumento não baseado em dado algum] essa é uma situação que não pode durar para sempre. Em cinco, dez ou quinze anos a porcentagem de livros digitais e a porcentagem de livros impressos vendidos online será praticamente a mesma em todos os países desenvolvidos.

Se essa suposição estiver correta, então outros países – começando com os falantes de inglês – vão experimentar as mudanças que nós temos sentido nos Estados Unidos em um prazo muito menor.

Há barreiras legais e institucionais para mudar o que já está “funcionando”. O maior fosso natural do mundo tem protegido o mercado australiano de livros, mantendo os preços de livros impressos altos e o comércio de varejo de livros saudável. Era evidente em conversas que tive com alguns vendedores de livros australianos na última Expo Book America, em maio, que eles estão sentindo os ventos das mudanças que começam a soprar, mudanças trazidas com a chegada dos e-books da Kobo ao mercado [Kobo é um dorminhoco da perspectiva americana: uma pequena – e quase tardia – plataforma de eBook em nosso país, mas uma presença cuidadosa construída ao redor do mundo e com impressionante relação com OEM em todo lugar, incluindo os EUA]. Também a instalação da unidade de POD da Ingram na Austrália vai, certamente, introduzir muito mais títulos no mercado de livros impressos. Isso é importante porque POD leva os consumidores a comprar online ao oferecer mais títulos do que qualquer livraria pode ter em estoque.

Isso é assustador para qualquer livreiro australiano sensível.

A manutenção do preço de venda, restrições territoriais e de idioma, e regras variáveis sobre aplicação de VAT [taxa de venda para nós americanos] para livros complicam seriamente o desenvolvimento dos mercados de e-book na Europa.

Mas a maior complicação de todas, a curto prazo, é a escassez de títulos disponíveis no formato ePub em outros idiomas que não o inglês. O ePub permite fluidez do texto, o que é essencial para entregar um e-book de fácil leitura com multiplicidade de tamanhos de telas. Nós temos centenas de milhares de títulos em ePub, em inglês; nenhum outro idioma do ocidente chega perto. Esse é um assunto que chegou até mim pela primeira vez no Brasil, quando estive lá em agosto.

Uma coisa leva à outra. A consequência da lacuna do ePub levanta outro assunto sério no comércio de livros na Europa quando este procura se aproximar do norte-americano. A maioria das pessoas mais educadas dos países europeus se sente confortáveis lendo em inglês. Uma editora da pequena Eslovênia [ex-Iugoslávia] me disse que um sexto dos livros vendidos em uma grande cadeia de livrarias e na maior livraria online é em inglês. Uma outra pessoa me disse que 25% das vendas na Dinamarca são em inglês. Na Holanda, me disseram, há uma legislação recente que requer uma “janela” para e-books em inglês para títulos que tenham uma edição em holandês, segurando a edição em inglês até que a edição em holandês fique disponível por um período mínimo.

Os maiores ajustes, mesmo para os players do mercado norte-americano de livros, ainda estão por vir. Tanto quanto posso dizer, as grandes editoras não perceberam que as livrarias vão praticamente desaparecer nos próximos dez anos e, uma coisa leva à outra, vão levar as oportunidades de maior valor das grandes editoras com elas. Quase não há percepção visível de mudança do valor da propriedade intelectual para o valor da quantidade de pessoas com que você fala, que eu acredito que esteja acontecendo. Mas a mudança que tivemos e a mudança que estamos enfrentando agora no mundo editorial norte-americano é diminuída pelo que estaremos vendo e sentindo pelos nossos amigos e parceiros comerciais na Europa, e em outros lugares na próxima década.

Alguns dos assuntos tratados nesse post já foram antecipados enquanto nos preparamos para a Digital Book World, que acontecerá dias 25 e 26 de Janeiro. Nós já planejamos um painel sobre os direitos comerciais territoriais e de idiomas, que serão afetados pelo crescimento dos e-books. Agora eu penso que achei alguém que pode explicar o cenário europeu: como editoras e agente norte-americanos deveriam enxergar isso. Estou trabalhando com ela para preparar o que acho ser uma adição significante ao nosso programa cobrindo um tópico que é, como deveria ser, cada vez mais importante para os titulares de direitos norte-americanos.

Outro tópico para outro dia é que o mundo está ficando cada vez menor e editoras de todos os países vão precisar entender melhor o que está acontecendo nos mercados estrangeiros. Nós vamos falar sobre isso apenas em um pequeno seminário e em um painel ou dois na Digital Book World porque achamos que é o máximo que o público está disposto a investir nesse tópico, em relação ao monte de outras coisas que precisam ser discutidas. Em cerca de um ano, a partir de janeiro, eu acho que entender como o mercado de eBook funciona ao redor do mundo será uma das principais preocupações para cada editor e agente nos EUA.

Por Mike Shatzkin | Publicado por PublishNews | 20/10/2010

Este texto foi  publicado originalmente no  The Idea Logical Blog, e o autor muito gentilmente autoriza que o PublishNews o traduza na íntegra.

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