Brasileiros descobrem livros digitais durante a Bienal


Leitores têm o primeiro contato com o novo formato de leitura durante o evento

Muitas pessoas que andavam pelos corredores da Bienal do Livro ontem, em São Paulo, se depararam com um espaço com diversos leitores de livros digitais e tablets em exposição. Muitos se aproximavam dos aparelhos, olhavam os detalhes cuidadosamente e, só depois, decidiam tocá-lo. “Já li sobre o assunto, mas nunca vi nenhum ao vivo”, diz Vanderson Aranha, 26, que é contador de histórias na cidade de Americana, interior de São Paulo.

Bienal do Livro: leitores se encontram pela primeira vez com e-readers

Tanto os leitores de livros digitais [e-readers] como os tablets permitem que o usuário armazene e leia milhares de arquivos de livros digitais [e-books]. Assim, em vez de carregar diversos livros, o usuário só carrega o dispositivo e pode ler em qualquer lugar.

Qualquer visitante da Bienal do Livro pode experimentar os aparelhos no Espaço Digital, onde a Imprensa Oficial colocou quase 30 dispositivos, entre eles o Kindle, da Amazon; o Reader, da Sony; o Cool-er, vendido pela Gato Sabido no Brasil; e o iPad, tablet da Apple.

Muitas empresas já vendem e-readers em outros países há alguns anos [o Kindle, por exemplo, foi lançado nos Estados Unidos há cerca de três anos], mas poucas pessoas conhecem essa nova forma de ler no Brasil. “Vim à Bienal para conhecer esses aparelhos para ler livros digitais, porque eles estão sendo mostrados pela primeira vez aqui, né?”, diz Mário Milani, 60, diretor de uma livraria na cidade de Marília, no interior de São Paulo.

A tecnologia é muito nova”, diz Rosely Boschini, presidente da Câmara Brasileira do Livro. Para ela, o livro digital terá que se tornar tão prático para manusear e com preço tão atrativo quanto do livro impresso, para que os consumidores optem pelo novo formato.

Sobrevivência

Em outros países, a situação é diferente. Muitos leitores estão trocando os exemplares impressos de livros por esses aparelhos. Em julho, a Amazon, uma das maiores livrarias virtuais do mundo, anunciou que já vende mais livros digitais do que impressos. No segundo trimestre de 2010, para cada 100 livros impressos, a livraria vendeu 143 livros digitais. O ápice foi em junho, quando vendeu 180 livros digitais a cada 100 impressos.

Jean Paul Jacob, da IBM: Jornais acabarão antes que os livros impressos

É por isso que há quem diga que o livro impresso será substituído em breve pelos livros digitais. Em palestra durante o Fórum Internacional do Livro Digital realizado na semana passada, Jean Paul Jacob, pesquisador emérito da IBM, afirmou que os jornais impressos desaparecerão antes dos livros impressos. “Em 2017, ninguém mais lerá jornais impressos nos Estados Unidos.

No Brasil, será um pouco mais difícil, diz Rosely, da CBL. “O livro impresso está bastante arraigado na nossa cultura e continuará existindo.” O livro digital, no entanto, terá seu espaço, principalmente entre os jovens. “Trata-se de mais uma alternativa de acesso à leitura.” Lívia Ronchi, 17, por exemplo, baixa muitos e-books, por causa do vestibular. Apesar da tentativa, ainda não troca o impresso. “Comecei a ler ‘Vidas Secas’ no computador, mas meus olhos ficaram irritados, então minha mãe comprou o livro impresso.

Desafios do mundo digital

Como existem diversos tipos de aparelhos e de formatos de arquivos para e-books, por enquanto, esses aparelhos são mais acessíveis aos usuários frequentes de tecnologia. “Diferentes opções criam barreiras psicológicas para os consumidores, que têm medo de tomar uma decisão errada ao optar por um aparelho que não oferece conteúdo suficiente”, diz Youssef Mourad, CEO da Digital Pages.

A falta de livros em português no formato digital é outro aspecto que os interessados em comprar um e-reader devem observar. Cerca de 98% dos livros digitais ainda estão em inglês. “Não adianta ter o aparelho, se não existirem livros que você possa ler”, alerta Eduardo Melo, fundador da Editora Plus.

Por Claudia Tozetto | Publicado originalmente em iG | 18/08 – 11:51hs