E se cada livro publicado tiver um exemplar online?


Ao contrário do que se pensa, ter uma cópia online vai gerar mais dinheiro do que não ter, pois tende a aumentar a base de interessados em outros produtos.

Coloquei a polêmica no ar, ao defender o fim do livro impresso. [Comentários entusiasmados aqui e aqui.]

Provocar é bom.

Um blog é um espaço de provocação para tirar as pessoas do conforto e extrair o que pensam sobre determinado assunto.

Ajudamo-nos todos a pensar juntos e ir avançando sobre o que pensamos, já que a realidade não existe, apenas nos aproximamos dela. E quanto mais nos aproximamos, mais ampla fica.

Defendi que cada livro publicado deve ter um exemplar de graça na internet.

E acho que isso, ao contrário do que se pensa, vai gerar muito mais dinheiro do que não colocá-lo, pois tende a aumentar a base de interessados, leitores, que serão consumidores de outros produtos, que gerem valor.

Os mais reticentes vêem nesse movimento do DE GRAÇA mais um gesto oportunista do brasileiro que não quer pagar nada, da pirataria, de não respeitar o trabalho alheio.

Têm motivos, pois há muito disso, porém não é o caso por aqui. Sugiro mentes abertas para separar o mouse do teclado.

Então, como vai sobreviver a indústria [e seus trabalhadores] que produz hoje os livros impressos?

O problema é que o dar de graça para gerar valor não é algo que surgiu com a Internet.

Veja que o modelo do rádio e da televisão foram baseados justamente nessa lógica: de graça, para vender anúncio. Na época, muito capitalista achou que era um modelo fadado ao fracasso.

Como já nasceu assim, ninguém estranha. E se montou uma mega-indústria em torno dessa lógica aparentemente ilógica de se ganhar dinheiro.

E quem diria tempos depois que haveria uma tevê paga, como a do cabo? E todos pagaríamos por ela!

[De volta, o sabonete do valor, que escorrega na “banheira” social…]

Não seria um absurdo imaginar que se pagaria para ver tevê?

[Se fosse algo estatal diria-se que se caiu a qualidade para justamente vender depois algo que era de graça].

O valor, entre outras coisas, é dado por alguém que quer comprar e outro vender.

E quando se têm novas tecnologias cognitivas pela frente, o que gerava valor informacional ontem pode não gerar mais amanhã. Vide a indústria do som, incluindo a da música, que empacotava e distribuía, com seu monopólio – hoje não faz mais sentido algo assim.

O valor migrou, não a vontade de ouvir música.

O Google é o exemplo disso. É tudo de graça e é uma das marcas mais valiosas do mundo.

Vendem anúncios personalizados, que será um dos caminhos das editoras.

Se o de graça fosse loucura, teríamos que repensar o modelo da TV Globo. E ninguém pode dizer que a TV Globo é um hacker do mal, ou que está falindo por que adotou aquele modelo.

Ou seja, hoje vivemos com a cabeça que um livro custa para ser feito e deve ser pago para ser consumido.

Mas se for para a rede direto, o custo da produção será muito menor do que é hoje, certo?

Há um custo, mas o grosso do investimento – que era imprimir e distribuir – acaba. Vira-se para a outra opção, o livro de mercadoria final, passa a chamariz, para vender o que estava lá dentro: conteúdo, de outra maneira, podendo na versão de graça na rede, ter anúncios personalizados.

Livro sobre jardinagem?
Mecânica? Aeromodelismo?

Imaginem só!

Pessoas vivem dessa lógica atual de geração de valor e associam que acabar com ela é colocar gente desempregada, por causa de um “malandros que não querem pagar.”

Pior que se acha que são as editoras que resistem, mas são os próprios leitores que se sentem violentados na sua relação amorosa com o suporte que muda.

É um paradigma cognitivo que envolve quem faz e quem consome!

Porém, já se viu que há momentos em que o de graça/chamariz gera negócio, dá emprego e pode sustentar muita gente.

Ou não?

O que se deve passar agora é tentar compreender aonde está o valor dessa indústria baseada na venda de textos? [Pois não acredite no mito de que uma editora vende livros, pois isso é falso. Ninguém compra papel, mas conteúdo, ideias, informação.]

O futuro das editoras não será muito diferente do que o Google apresenta, a TV apresentou antes ou o rádio.

Veja o caso da TV Globo. Ela contrata atores, que ganham para serem do “cast” da emissora. Podem até não fazer nada, mas ganham para estar lá, uma novela aqui, um programa acolá.

Eles valem pela sua imagem.

Não é assim?

Os escritores devem seguir a mesma lógica dos atores globais.

Os escritores de best seller já têm algo parecido – só que para produzir livro. Isso vai mudar, como já está, principalmente, os que pensam sobre o mundo dos negócios, da ciência, da vida, etc?

[O caso dos romances, poemas, de arte, etc são casos particulares, que vão se perpetuar por mais um tempo, até que estes primeiros – os mais técnicos e didáticos – consolidem o novo modelo.]

Quem vai financiar estes contratos dos escritores do cast das editoras? Todos nós. As editoras estão baseadas hoje no empacotamento destes escritores em livros, que ainda vão render dividendos, mas cada vez menos.

Cada vez mais as pessoas vão querer ter contato com estes pensadores, seja em uma palestra, em um seminário, em um DVD com um tema específico.

Por vários motivos:

1. A cabeça dessas pessoas vai mudar muito mais rápido [interação, mais inputs, reflexões, etc], os livros estarão desatualizados muito mais cedo, portanto, vão perder o valor muito mais rápido. Vai se querer o pensamento da hora e não do semestre passado!;

2. O livro não permite a interação direta, como o que está pensando agora, ou o que ainda não pensou sobre um tema específico. Um pensador pode dar boas ideias em vários campos e será estimulado a pensar sobre eles, por demanda;

3. O livro pode ser copiado, perde o valor, pois pode circular nos bastidores, o autor será sempre algo sem possibilidade de cópia, ainda mais se estiver num processo de cognição constante e questionado sobre novas questões diante de uma nova plateia.

Tudo que rolar depois dos encontros é sub-produto e pode ser vendido como valor agregado.

  • DVDs para uma empresa circular para quem não foi;
  • Livros personalizados;
  • Audio-books para serem ouvidos no MP3, celulares, etc.

Quando estes “escritores” do “cast” das editoras produzirem de forma personalizada todos vão ganhar dinheiro, pois serão encontros de todo tipo dos grandes ao pequenos.

Veja modelo embrionário da O´Reilly nessa direção, promovendo seminários sobre o mundo 2.0. Já fui em um e eram milhares de pessoas! Quem quiser consumi-lo ao vivo vai pagar.

Na rede será de graça para que possa ser cada vez mais conhecido e ir ganhando status na bolsa dos palestrantes da editora de pensadores.

Se houver demanda para livros impressos, ótimo! A pessoa encomenda e recebe em casa, em dois dias.

E se for algo muito procurado, manda-se uma quantidade boa para as livrarias, que vão se tornar cada vez mais encontros entre pessoas e espaços para palestras, uma tendência, aliás.

Sim, acredito que vai ter espaço para aqueles que não abrem mão do papel [será que vão ser xingados nas ruas como anti-ecológicos?]

Os salários dos palestrantes será definido pelo número de seguidores, de valor de sua área de atuação e do quanto seus textos de graça na rede são baixados.

A rede será a ferramenta de pesquisa – de graça – para as editoras separar o joio do trigo. E tomar decisões estratégicas em quem investir.

Entra a meritocracia. Se a editora quiser apostar em valores novos, que não têm Ibope, continuarão no seu papel de “perceber potenciais”.

O livro impresso passa a ser um sub-produto de tudo isso.

E não o carro-chefe como é hoje.

O que era o único canal, agora vai passar a ser o menos valioso.

O pessoal que está preocupado com as mudanças no livro impresso, deveria, ao contrário, se preocupar com a não-inovação, pois editoras falidas não interessa a ninguém que gosta de ideias circulando!

O que pode nos levar a ver o leitinho das crianças derramado! Que dizes?

Este artigo foi escrito por Carlos Nepomuceno | Publicado originalmente em Webinsider | 31 de agosto de 2010, 17:38