Amazon lança nova versão com Wi-Fi do Kindle por R$ 280 nos EUA


A Amazon lançou, nesta quarta-feira [28] o Kindle Wi-Fi, nova versão do leitor eletrônico com rede sem fio como única opção de conexão. O preço do aparelho é de US$ 139 [R$ 280].

A empresa revelou, também, a terceira geração do Kindle tradicional.

Apesar de aproximadamente 21% menor e 15% mais leve que a versão anterior, o produto manterá o preço de US$ 189 [R$ 333].

Novo Kindle Wi-Fi anunciado hoje pela Amazon; preço do aparelho é R$ 280 nos Estados Unidos

A Amazon não forneceu previsões de venda para o novo Kindle, mas afirmou, na última semana, que o mercado triplicou após a redução de preço da versão anterior, que custava US$ 259 [R$ 457].

Com esse nível de preços, estamos começando a ter evidências suficientes para afirmar que esse é um produto de massa“, disse o executivo-chefe Jeff Bezos, em entrevista.

Segundo ele, o sucesso de vendas do Kindle permitiu que a Amazon baixasse os preços mesmo enquanto concorrentes entravam no mercado.

Vendemos milhões de Kindles da geração anterior, e venderemos milhões desta versão“, afirmou.

Os aparelhos, que estão disponíveis em pré-venda, serão enviados a partir do dia 27 de agosto.

A Amazon melhorou o contraste da tela de seus novos Kindles, mas o tamanho de 6 polegadas continua o mesmo.

As páginas também viram mais rapidamente e cerca de 3.500 livros podem ser armazenados, o dobro da versão anterior. Os dois modelos apresentam bateria com um mês de vida útil.

O analista da Forrester, empresa de pesquisa em tecnologia, James McQuivey, afirmou que não esperava um novo Kindle antes do final do ano.

Isso sugere que a Amazon está falando sério quando diz que entrou nesse mercado para ficar“, disse ele.

Folha.com | TEC | 29/07/2010 – 12h58 | DA REUTERS, EM SEATTLE

Wylie ameaça expandir a Odyssey


Andrew Wylie, o agente literário cujo acordo exclusivo com a Amazon na semana passada chacoalhou o mundo editorial norte-americano, ameaçou expandir seus negócios de publicação digital caso os editores tradicionais se recusem a incrementar os royalties dos e-books. Em entrevista, Wylie disse que prefere negociar com editroes que tratem ao mesmo tempo dos direitos para os livros impressos e para os digitais, mas depois de nove meses de discussões não conseguiu chegar a um acordo satisfatório com nenhuma das grandes editoras. “Se não chegarmos a um acordo, a Odyssey vai crescer. Não serão vinte títulos, mas dois mil. E a editora terá investidores e estará aberta para outros agentes”, afirmou Wylie ao Financial Times. “Estou apenas tentando deixar claro o meu ponto de vista, com o objetivo de ressaltar a importância de conseguir bons acordos que juntem os ganhos das duas origens [digital e impresso].” Editoras como a Penguin, que pertence ao grupo Pearson, acreditam que o agente tem um poder de barganha limitado porque os direitos para e-books foram incluídos nos contratos dos escritores desde meados dos anos 1990. Os vinte livros incluídos no acordo com a Amazon são anteriores a esse período. A criação da Odyssey Editions, que transformou o senhor Wylie em agente e editor, foi amplamente criticada por autores e editores, devido ao conflito de interesses que pode haver.

Financial Times | 29/07/2010 | Kenneth Li e John Gapper

O que acontece quando uma mentira é contada várias vezes?


Reza a lenda que a Amazon teria vendido mais livros digitais que livros impressos.
Mas s
erá que é realmente verdade isso?

Eu trabalho com livros eletrônicos há muito tempo, sou especialista no tema a mais de dez anos. Neste site aqui, no eBook Reader, eu não costumo colocar a minha visão sobre as matérias que estão sendo veiculadas na imprensa. Procuro evitar, porque sempre que eu falo algo, alguém do próprio mercado editorial torce o nariz. Portanto, este espaço aqui seria apenas um trabalho de clipping que realizo e que me ajuda a saber o que está rolando no universo dos livros digitais. E eu compartilho isso com os leitores deste espaço.

Mas é tanta asneira que eu ouço e leio sobre os livros digitais que, chega uma hora, irrita e não dá pra segurar.

Com todo o respeito a classe jornalística ainda profissional e ética, mas para mim é realmente muito difícil acreditar que algumas matérias estejam sendo produzidas. O Bom Dia Brasil [que é um dos programas matutinos televisivos mais visto e importante do nosso país], por exemplo,  veiculou recentemente uma matéria que é, ao mesmo tempo, de uma falta de informação inacreditável e lastimável.

Antes de continuar a ler este meu artigo, por gentileza, confira a matéria ao qual eu me refiro.


Agora que você conferiu a matéria, vamos lá:

PRIMEIRO: Quem fez o anúncio dos tais números veiculados pela matéria foi a Amazon. Mas Amazon nunca foi nem nunca será uma das maiores livrarias dos Estados Unidos. A Amazon é o maior e-commerce especializado em livros [principalmente impressos] vendidos pela Internet. A Amazon é uma livraria online. Se alguém tiver o endereço de alguma livraria Amazon física, por favor, me avisa que eu gostaria de conhecer. A maior cadeia de livrarias físicas, cujas imagens são mostradas na matéria é, na verdade, da Barnes & Noble. Quem escreveu o texto da matéria sequer foi dar uma olhada na fonte.

SEGUNDO: O texto da matéria diz que “nos últimos três meses as vendas de livros eletrônicos ultrapassaram as dos livros de papel“.

A qual livro eletrônico a matéria se refere? Ao aparelho, hardware, e-reader, ou aos títulos digitais que circulam também nos aplicativos?

De qualquer modo, mesmo assim, isso é simplesmente impossível. Tecnicamente impossível. Matematicamente impossível. O anúncio feito pela Amazon definitivamente não foi esse. O que a Amazon disse, quando divulgou os números é que, a venda de títulos digitais em versão Kindle agora ultrapassa, de certo modo, a venda de títulos em acabamento capa dura [lá fora chamados de harcovers]. Ou seja, títulos em versão Kindle está vendendo mais do que esses títulos específicos.

A saber: no mercado editorial existem vários tipos de acabamento de livros. Os livros de capa dura [espero não ter de explicar ao jornalista o que seja isso] são, digamos, uma modalidade, e os livros impressos em papel flexível, chamados de brochura, são outra.

Os números da Amazon se referem, ou são comparados, às vendas de livros de capa dura. E não aos livros em brochura [cujas vendas até hoje nunca foram ultrapassadas].

Mas, mesmo assim, e daí? Que notícia mais medonha! Será que isso tem relação com o anúncio de faturamento da Amazon em comparação com o valor de sua marca e de suas ações, anunciada também recentemente? Nem vou me adentrar na questão.

TERCEIRO: O texto da matéria do programa Bom Dia Brasil diz que: “São, em média, 143 livros digitais para cada cem unidades tradicionais”. Não. Não é isso. O livro em capa dura não é tradicional, é excessão para o mercado. O tradicional é o livro brochura e, nos Estados Unidos o capa dura é menos popular até que os livros de bolso [que ganham em audiência exatamente por conta dos preços populares].

Quando é que as vendas de livros digitais [eu digo da cópia do arquivo mesmo] vai ultrapassar as vendas dos pockets?

É claro, é óbvio que se venda mais eBooks do que livros em capa dura na Internet. Os livros em capa dura são caros e comprados por leitores muito específicos em livrarias físicas, pois, ou são table books ou são livros infantis, ou edições especiais de best-sellers para um público muito específico.

informação da matéria está, portanto, errada. Completamente distorcida. Um erro brutal no jornalismo. Não foi isso o que foi dito pela Amazon. Embora tenha sido essa a intenção da empresa.

É a mesma coisa que aconteceu com a notícia no último final de ano.

A Amazon dizia que o Kindle batia todos os recordes de venda no Natal. Ok, mas recordes de venda comparado ao que ou a quem? Eu gostaria que alguém comparasse todo esse recorde de vendas do Kindle com as vendas do iPhone naquele final de ano. Porque é muito fácil dizer que há recorde de venda em comparação a si mesmo, quando sabemos que toda a mídia estava com os olhos voltados para o tal produto.

Naquela ocasião, a Amazon dizia que o produto era o preferido dos clientes da loja para dar de presente. A imprensa entendia que o produto dela era o mais vendido no Natal. A Amazon dizia que de cada três exemplares, ou cópias digitais vendidos para o Kindle, um era em versão papel. Ou seja, a informação era muito clara, de um determinado título específico havia três exemplares vendidos em versão digital e uma versão impressa.

Vejamos. Naquela ocasião, havia apenas 300 mil títulos em versão digital. A Amazon não dizia quantos títulos diferentes vendia três vezes mais exemplares que a versão impressa. E a Amazon também não dizia quais eram esses títulos.

Eu vou dizer, a maioria eram ou títulos fora de catálogo e esgotados, ou eram títulos de autores independentes, ou eram títulos cujas editoras estavam testando o sistema. Enfim, não tinha a versão impressa disponível de modo fácil, o leitor comprava no Kindle.

Ora, os títulos vendidos para o Kindle naquela ocasião eram exatamente os únicos disponíveis. Quem tinha um Kindle na mão só poderia comprar aqueles títulos mesmo, não outros. Se todos os títulos em versão impressa também estivessem sendo vendidos simultaneamente em versão eletrônica, aí sim a notícia faria sentido. Aliás, a notícias seria outra.

Mas voltando a matéria do Bom Dia Brasil, porque eu até aceito alguns blogueiros e alguns clipeiros do mercado editorial não saberem analisar a verdade por trás dos pronunciamentos das empresas, mas eu não consigo aceitar isso de um jornal que eu até considerava de qualidade.

QUATRO: São as vendas do produto Kindle especificamente que estão aumentando mês a mês. Essa é a notícia correta a se dar. As vendas do Kindle triplicaram sim desde que a Amazon baixou o preço. Dizer que as vendas de livros digitais, “de certo modo”, quadruplicaram é distorcer completamente a notícia dada porque dá-se a impressão de que estamos falando de títulos. E não é isso. A notícia se referia ao e-reader em si, ao hardware, e não aos títulos.

A Amazon noticiou sobre as vendas do hardware juntamente com a tal comparação das vendas de títulos para Kindle com os livros impressos em acabamento capa dura, exatamente porque ela sabia qual seria a notícia dada lá na frente para os leitores.

QUINTO: O texto da matéria diz que “De modo geral as vendas de todos os e-books, como são chamados, quadruplicaram nos cinco primeiros meses do ano.” Será que alguém se perguntou quantos Kindles foram vendidos antes que houvesse o tal draduplicamento de vendas? Porque se vendeu 1 e, mais tarde, vendeu 4 unidades, aí é claro que houve um quadruplicamento nas vendas.

Outra coisa, nesta “quadruplicagem” nas vendas [eu não sei porque aumentaram o que Jeff disse], soma-se o número de iPads vendidos também que, reza a lenda, vendeu 3 milhões de unidades? Porque veja bem se incluir os números do produto iPad, a informação está ainda mais errada. Caso o jornalista não saiba, o iPad não é um e-reader [ou seja, não é um device dedicado especialmente à leitura de livros digitais], e sim um tablet.

Ah, eu espero não ter de explicar ao jornalista o que seja um tablet.

Será que o jornalista, o pauteiro ou o redator deu uma olhada no tamanho do mercado de livros impressos nos Estados Unidos? Porque se o mercado americano recentemente cresceu 22%, é ainda mais impossível os livros digitais terem vendidos mais cópias que as versões impressas. Alguém já se perguntou o que significa 22% do crescimento americano na venda de livros impressos [apresentados pela Associação Americana de Editoras]? Será que algum jornalista já se perguntou o quanto isto quer dizer? O quanto significa essa cifra?

Eu nem vou perder o meu tempo dizendo ao jornalista quantos livros impressos são vendidos nos Estados Unidos por ano.

Segundo a Idea Logical Company, menos de 25% de todos os livros vendidos serão em versões impressas. Alguém se perguntou porque a companhia, até então desconhecida, resolveu soltar essa também? Qual é o contexto? Se você estivesse no lugar deles, ou seja, se você fosse uma empresa que assessora editoras de livros na mudança para a versão digital, o que você diria?

Eu vou reptir: “…menos de 25% de todos os livros vendidos serão em versões impressas.” Mas afinal  que porra isso quer dizer? Porque inverter a sentença? Porque usar frases indiretas? A que tipo de números estamos sendo expostos [pra não dizer manipulados]? Será que ninguém percebe essas coisas básicas? Será que ninguém sabe ler as notícias?

Penso agora que a imprensa realmente morreu. Mas não por causa da baixa audiência em relação a influência da Internet. E o pior é que toda essa informação é replicada por todo o canto e o mercado editorial brasileiro, coitado, acredita.

Me lembrei daquela música: “É que a televisão / Me deixou burro / Muito burro demais.”

Por Ednei Procópio