Lucia Riff sobre o ‘affair’ Wylie: agente não é editor


O mercado editorial americano foi sacudido na semana passada por um terremoto que promete se desdobrar em novos abalos no futuro próximo, à medida que as placas tectônicas se ajustarem num ambiente de negócios que o revolucionário livro digital, até ano passado pouco mais que uma curiosidade e uma promessa, começa finalmente a redesenhar na marra. No epicentro do fenômeno está o agente literário Andrew Wylie, de Nova York, um peso pesado que representa autores como Philip Roth e Martin Amis e, entre as obras de escritores mortos, as de Vladimir Nabokov e Jorge Luis Borges.

Wylie anunciou a criação de um selo próprio, o Odyssey, para lançar versões digitais de títulos que, presos a editoras tradicionais por contratos de edição em papel, não tinham a seu juízo – por terem sido contratados antes de 2000, quando o e-book não existia no horizonte – seus direitos digitais cedidos a ninguém. Só que as grandes editoras pensam diferente. A Random House divulgou uma nota violenta declarando que não fechará nenhum novo contrato com a Wylie Agency “enquanto essa situação não for resolvida”. O que, tudo indica, só ocorrerá nos tribunais [mais sobre o caso aquiaqui, em inglês].

A Odyssey tem contrato de exclusividade de dois anos com a Amazon, que venderá todos os títulos na Kindle Store por 9,99 dólares, e pagará direitos autorais acima da faixa de 25% que vem sendo praticada para e-books pelas casas tradicionais – especula-se que a fatia do autor possa chegar a 50%.

E nós com isso? Que lições o digitalmente atrasado mercado brasileiro pode tirar do furdunço? Quem responde é Lucia Riff, a principal agente literária do país, cuja empresa – representante de Rubem Fonseca, Luis Fernando Verissimo, Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto, entre outros – completará duas décadas de atividade em janeiro do ano que vem. [No interesse da transparência, aquilo que na terra de Andrew Wylie chamam de full disclosure, convém acrescentar que também sou representado pela Agência Riff.]

Lucia conversou com o Todoprosa por e-mail:

1. A nova fronteira digital deixou o agente Andrew Wylie e as grandes editoras americanas em guerra aberta. É possível dizer quem tem razão, se é que alguém tem razão?

– Os dois lados têm razão e não têm. A questão é supercomplexa, e é provável que, infelizmente, acabe sendo decidida nos tribunais. O que está em jogo são os direitos digitais dos contratos assinados antes de 2000: foi há mais ou menos dez anos que os contratos nos EUA passaram a incluir direitos digitais de forma clara [nem todos, mas a maioria, pelo menos]. Como os contratos americanos são leoninos, abrangentes e duradouros, o que se discute agora é se as cláusulas que listavam os diversos formatos que seriam explorados pela editora nos contratos anteriores a 2000 já incluíam implicitamente formatos novos ainda por serem descobertos [como o é caso do e-book] ou não. Se discute ainda se e-book é um novo formato para um público distinto – assim como pocket book, book-club ou audiobook –, podendo então ser negociado livremente [caso não esteja citado no contrato de edição da obra], ou se entra diretamente no mesmo segmento de mercado da edição do livro trade, ficando portanto dentro da área de atuação da editora original. Além de definir quem vai poder explorar os direitos digitais, estão discutindo as bases: o mercado acordou com um padrão de 25% sobre as vendas líquidas, mas as editoras novas, que estão surgindo apenas para explorar a publicação de e-books, acenam com royalties maiores, chegando mesmo aos 50%. As editoras tradicionais, de modo geral, estão concordando que este modelo dos 25% terá que ser repensado quando o mercado de livros digitais estiver mais estabilizado. As editoras precisam pensar no front list e no back list – é todo um catálogo com centenas, às vezes milhares de livros que precisam ser preparados para serem lidos como e-books… Não é fácil, não basta um simples apertar de teclas. Além disso, temos o grande e complicadissimo problema da distribuição entre as Amazons e Apples e Barnes & Nobles da vida, cada uma com seu pacote de exigências, discussões sobre exclusividade, etc. E temos também os e-readers, que ainda estão sendo testados, aprimorados… No momento é tudo muito novo, mesmo para o mercado americano, que, de um jeito discreto mas consistente, já trabalha com e-books há pelo menos cinco anos e pensa no assunto há dez.

O Wylie entrou com um anúncio bombástico: ele está montando uma editora de e-books e vai publicar seus próprios autores. Ou seja, a questão não é apenas se o autor deve ficar fiel à sua editora e manter no mesmo selo livros em papel e e-books – ou se deve ouvir as novas editoras de e-book ou mesmo outras editoras tradicionais que possam estar fazendo um trabalho melhor com o novo formato. A questão que incomoda na posição do Wylie é que me parece haver um certo conflito de interesses quando um agente se propõe a ter uma editora. Antes desta crise do mercado com o Wylie, circulou em Frankfurt ano passado uma outra notícia alarmante: que a Simon & Schuster não cederia direitos digitais para nenhuma editora estrangeira, uma vez que traduziria e lançaria seus próprios livros em e-book, diretamente dos EUA. Não sei dizer se essa ideia foi adiante ou não. De todo modo, a declaração causou mal-estar e preocupação. O que se nota claramente é que não temos ainda nenhuma estatística confiável, nada em que possamos nos basear para realmente availiar o mercado de livros digitais. O que se vê é muito marketing, muita pressa, muitas informações vazias, dadas pela metade.

Não creio que exista uma única resposta certa para a grande questão de quem deve ter os direitos de publicar e-books: depende da editora, depende do autor, depende da obra, depende de como é o relacionamento entre as partes. Num mundo ideal, faz todo sentido que a editora de livros físicos passe também a publicar os e-books – mas a gente sabe que este “mundo ideal” não se encontra em toda esquina…

2. Entre agentes e autores parece haver a sensação cada vez mais forte de que existe margem para ampliar os 25% de royalties que vêm sendo praticados para edições digitais. Fala-se até no dobro disso. Você acredita que o Brasil também chegará lá?

– Acho que vamos, sim, ver estes 25% aumentarem nos próximos dois anos. Não sei se chegaremos aos 50% para todas as obras, mas é muito provável que a base de 25% seja aumentada quando os números melhorarem e tudo estiver mais estável. Imagino que aconteça com os e-books o que acontece nas vendas de livros em papel: passaremos a trabalhar com uma faixa de royalties que começa em 25% e vai subindo, de acordo com a força do autor, vendas, etc.

3. Que lições podem ser tiradas desse episódio para o mercado brasileiro, que está alguns passos atrás do americano na exploração do mundo digital? No aspecto jurídico da questão, nossas zonas cinzentas são parecidas?

– O mercado brasileiro está muitos passos atrás do americano na questão digital. Poderemos recuperar o tempo perdido, mas não será do dia para a noite. Para nós existe um componente de complicação adicional: ao contrário do mercado americano, que lida com poucos livros contratados de fora, cerca de 50% do que é publicado no Brasil na área de livros trade [não didáticos] é de livros estrangeiros [não sei se chega a tanto, mas de toda forma é um percentual bem alto]. Isso significa que a editora brasileira depende do que o proprietário dos direitos da obra no exterior puder negociar. Se este proprietário tiver os direitos digitais, a tendência é que se negocie um adendo ao contrato original, incluindo os e-books. Se o proprietário não tiver esses direitos, aí fica mais complicado. Nos contratos novos, já existe a preocupação de incluir os e-books [como uma obrigação contratual ou como uma simples opção]. Para os livros já lançados, com contratos mais antigos, o jeito é negociar um por um, à medida que for sendo interessante lançar a versão digital da obra. Como os e-books não têm – por definição – território, nada impede que um livro seja retraduzido e oferecido em várias linguas por uma só editora, como pretende a Simon & Schuster, o que é outra preocupação neste nada fácil mundo digital. Sem contar a pirataria, praga que atinge o mercado editorial como um todo. No mais, se pensarmos nos autores brasileiros, algumas questões são parecidas, mas os contratos brasileiros não são como os americanos, e portanto nossas zonas “cinzentas” são menores. Mas acho que é cedo para pensarmos nas lições desta ou daquela crise. O certo é que a zona de conforto do mercado pré-digital já acabou, ficou no passado. Agora temos que correr para nos adaptarmos a este novo e fascinante mundo dos e-books.

Por Sérgio Rodrigues | Veja On Line | 26/07/2010 às 14:19