Galeno diz que web não sufocou livro em papel


O jornalista e escritor paulista Galeno Amorim, de 47 anos, é um brasileiro típico. Assim como o Brasil é um país multifacetado, que abriga a produção de alta tecnologia – em aviões a jato e perfuração submarina – e 77 milhões de cidadãos que jamais leram um livro, Galeno opera, simultaneamente, nas diferentes áreas [algumas bem problemáticas] que orbitam em torno de sua grande paixão: os livros.

E faz isso sem escolher o seu patamar de atividade; sem parar para pensar na amplitude dos benefícios que seu trabalho irá gerar. Ex-Secretário Municipal de Cultura de Ribeirão Preto, em 2003 ele assumiu o Plano Nacional do Livro e da Leitura [PNLL] do governo federal, que atacou frontalmente a deficiência estrutural do país no tocante à oferta de bibliotecas públicas. A ofensiva instrumentada pela ação do PNLL foi um sucesso, e Galeno agora dirige o Observatório do Livro e da Leitura, um site-referência da web para quem se interessa pelo assunto no país. Nesta entrevista exclusiva ao Núcleo Ciência & Vida da Editora Escala, Galeno dá os números que atestam a mobilização nacional em torno da criação de bibliotecas, diz que a internet não conseguiu sufocar a importância, para os jovens leitores, do livro em papel, fala de sua preocupação com os chamados “analfabetos funcionais” e da esperança que tem na aprovação de um projeto de lei de autoria do deputado federal Antônio Palocci [PT-SP], que garante o direito dos pesquisadores à investigação de biografias.

CIÊNCIA & VIDA – Em novembro próximo, alguns dos principais historiadores europeus estarão reunidos em Bruxelas para debater os limites entre a pesquisa histórica e a privacidade dos cidadãos. O senhor assessorou o deputado Palocci na chamada “Lei das Biografias”, cujo objetivo é evitar a repetição de episódios como o protagonizado pelo cantor Roberto Carlos, que mandou tirar do mercado uma biografia não-autorizada a seu respeito. O Brasil já está maduro para discussões desse tipo?

GALENO AMORIM – Não tenho dúvida que está, tanto que o projeto do deputado Pallocci, o 3378/08, já se encontra em fase final de tramitação no Congresso. É verdade que colaborei com o autor do projeto. Tenho orgulho disso. Para além do sensacionalismo que o assunto da biografia do Roberto Carlos despertou, percebo que há muitos movimentos no Brasil que talvez ainda não tenham merecido o olhar da mídia, como o da abertura de certos arquivos e centros de documentação, que refletem a ânsia da inteligência brasileira em construir e preservar nossa memória. Um país sem memória repetirá no futuro os erros que cometemos no passado. Não podemos ser cúmplices disso. Eu, pelo menos, não quero ser.

CIÊNCIA & VIDA – Sete anos atrás o senhor comandou o Plano Nacional do Livro e da Literatura, que atacou de frente a deficiência brasileira na oferta de bibliotecas públicas. Esse trabalho deu resultado, ou seu esforço ficou pelo caminho?

GALENO – Podemos dizer que essa deficiência estrutural está em vias de ser sanada, felizmente. O Brasil tem hoje pouco mais de 5.560 municípios. Menos de 400 deles ainda não possuem uma biblioteca pública. Entre 200 e 300 estão, nesse momento, organizando as suas bibliotecas. Apenas uns 100 ainda não tomaram nenhuma providência nesse sentido…

CIÊNCIA & VIDA – Isso quer dizer que criamos uma consciência acerca da necessidade de oferecermos livros à população? Uma pesquisa recente indicou que apenas 9% dos brasileiros declararam já ter entrado, em algum momento, em um museu. Nosso esforço pela disseminação de práticas culturais ainda não está muito no começo?

GALENO – O seu dado sobre a visitação aos museus é impressionante, mas eu também tenho um nesse nível: 77 milhões de brasileiros informam jamais ter lido um livro. Isso é uma vergonha? Certamente. Mas não podemos ficar chorando. Considero esta última década como a mais importante para a difusão do hábito da leitura. Dez anos atrás o livro estava muito menos presente na sociedade, na imprensa não se falava da importância da leitura. Hoje a mídia já espelha esse processo transformador. Em 2003, quando fui para o governo federal, para ajudar na criação do Plano Nacional do Livro e da Leitura [PNLL], o Brasil tinha 1.300 cidades com bibliotecas, e tinha 5.000 bibliotecas em situação extremamente precária. Era preciso que houvesse um trabalho no sentido de universalizar esse acesso. O problema é que quase tudo no Brasil, em termos de instrumentos culturais, é muito recente. O Brasil ficou 500 anos sem políticas públicas amplas e um pouco mais profundas para desenvolver a leitura. Só em 1808, 300 anos depois de sua descoberta, é que o país inaugurou sua Biblioteca Nacional, que foi montada não como resultado da mobilização da população, ou da de seus dirigentes, mas como resultado de algumas conjugações de fatos políticos que fizeram com que ela surgisse. Na verdade, para não ser saqueada, colocou-se seu acervo num navio e ele foi trazido para cá.

CIÊNCIA & VIDA – É claro que abrir uma biblioteca em cada município não vai resolver o problema da leitura no país. Qual é, em sua opinião, o próximo passo?

GALENO – O passo seguinte deve ser melhorar a qualidade das bibliotecas existentes, pois muitas ainda não atraem; algumas até afastam os leitores. São acervos antigos, e parte expressiva delas ainda não tem sequer um computador. Além disso, o horário de funcionamento continua extremamente reduzido. Nossos dirigentes não podem esperar que a população tenha acesso aos livros através da compra. O Poder Público precisa disponibilizá-los, e isso só pode ser feito através das bibliotecas. Tenho uma experiência pessoal. Fui secretário de Cultura de uma cidade de 500 e poucos mil habitantes, Ribeirão Preto. Em três anos, conseguimos abrir 80 bibliotecas, uma para cada 5.000 habitantes. Bibliotecas em escolas de samba, em igrejas evangélicas e católicas, no candomblé, em centro espírita, nos museus, em associações de bairro, nos postos de saúde, no presídio. Em três anos, dando acesso a livros atualizados, com qualidade, e fazendo outras ações ao mesmo tempo, o índice de leitura cresceu de 2 livros por habitante/ano para 9,7. Isso mostra o seguinte: que é barato se investir em leitura; e que os resultados são muito rápidos.

CIÊNCIA & VIDA – O senhor não teme que a internet afaste os jovens dos livros em papel?

GALENO – Vou lhe contar uma história recente. Fui dar uma entrevista em um programa para jovens da TV Cultura de São Paulo. Nos bastidores fiquei conversando com uma adolescente, e perguntei se a web não a estava afastando dos livros. Ela respondeu: “quando vejo um livro na internet de que gosto, eu compro“. Eu poderia esperar que essa menina me dissesse que ela rejeita o livro digital, ou que reclamasse da luminosidade da tela de um monitor, mas não. Percebi que ela integra a legião de jovens que mantém sua admiração, seu respeito pelo livro em papel. A internet não matará o livro em papel, assim como a cinema não matou o teatro, e nem a tevê matou o rádio. Todos esses recursos podem conviver, até porque o homem já foi suficientemente inteligente para conceber a comunicação por multimídia.

CIÊNCIA & VIDA – E apesar de toda essa rede, o país ainda tem dezenas de milhões de analfabetos funcionais…

GALENO – Isso sim, deve nos preocupar. É claro que eliminar essa deficiência está além do que podem fazer os educadores, ou os jornalistas, ou mesmo os escritores, porque muitos dos analfabetos funcionais lidam com as conseqüências de má nutrição na infância, de seu mau desenvolvimento orgânico, etc. Mas temos que atacar esse problema. Até porque ele não é o único que contribui para a deficiência de absorção de conhecimentos por pessoas consideradas alfabetizadas…

CIÊNCIA & VIDA – Não?

GALENO – Não. Tome os resultados da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, de menos de dois anos atrás…

CIÊNCIA & VIDA – Explique, por favor.

GALENO – A pesquisa trouxe notícias boas – como a de que os índices de leitura entre os alunos das escolas brasileiras chegam a ser duas vezes maiores do que os registrados entre os que já estão fora da escola – mas também revelações bem ruins. Uma delas: as escolas ainda não estão conseguindo formar leitores que gostem, que continuem a ler mesmo depois, quando já estão fora das salas de aula. Isso mostra que, nas classes mais pobres, nas classes sociais mais baixas, em regiões como o Norte e Nordeste, faltam ações, principalmente para aqueles leitores que já estão fora das escolas.

Roberto Lopes | Revista Ciência & Vida – UOL | 07/06/2010