Distribuidora digital abre caminho para e-books nacionais


Cinco das principais editoras brasileiras anunciaram esta semana a criação de uma distribuidora virtual que, espera-se, finalmente abrirá caminho para a expansão do número de livros nacionais à venda em formato digital, hoje ainda na casa de algumas centenas de títulos. A Distribuidora de Livros Digitais [DLD] é uma solução para a principal preocupação dos editores com a comercialização de e-books: o controle preciso do número de exemplares vendidos. No dia seguinte ao anúncio feito por Objetiva, Record, Sextante, Rocco e Intrínseca, a editora Planeta anunciou adesão à plataforma [já a Zahar lança em breve sua própria distribuidora digital, leia aqui]. Nesta entrevista, Roberto Feith, da Objetiva, e Marcos Pereira, da Sextante, falam sobre a ferramenta.

A partir de quando e onde serão vendidos os livros distribuídos pela DLD?

ROBERTO FEITH: A plataforma deve estar operando em dezembro. Nosso foco inicial serão as livrarias virtuais que operam em português e que se especializam em atender o consumidor brasileiro. As outras opções serão avaliadas a seguir. Como alguns dos nossos parceiros livreiros on-line gostariam de oferecer livros publicados pelos sócios e clientes da DLD antes de dezembro, estamos discutindo com eles a possibilidade de fecharmos um acordo transitório.

MARCOS PEREIRA: Estamos em negociação com as principais livrarias on-line brasileiras e acreditamos que, quando a DLD começar a operar, todas já estarão prontas para vender e-books.

Quantos livros serão postos à venda?

PEREIRA: Considerando os catálogos de todas as editoras já confirmadas no projeto [Bertrand, Bestseller, Intrínseca, José Olympio, Objetiva, Prumo, Record, Rocco, Sextante, Verus], devemos contabilizar quase dez mil títulos. Nossa meta é oferecer, até o final de 2010, pelo menos 500 títulos, e a partir de 2011 incluir mensalmente pelo menos 300 títulos ao acervo da DLD.

Nos EUA, a Amazon impôs grandes descontos nos preços dos livros digitais, criando conflitos com as editoras. Vocês temem que isso aconteça no Brasil? Por isso o Kindle não está entre as prioridades para os livros da DLD?

FEITH: A decisão de trabalhar primeiro com os parceiros brasileiros é porque eles conhecem nossos catálogos e consumidores. Esta é a lógica. Nada contra a Amazon. Aliás, o Kindle, como só pode ser comprado no Brasil via importação, com um preço relativamente alto, dificilmente terá uma grande base instalada aqui nos próximos 12 meses. Outros dispositivos de leitura, tal como o da Samsung, que vai ser lançado aqui dentro de um mês, e o iPad, vão ocupar um espaço muito maior no Brasil.

As editoras parceiras no projeto fecharam algum padrão de preços dos livros para a DLD? Qual será a diferença média para as versões impressas? Não existe risco de formação de cartel?

FEITH: Na operação da DLD, cada editora terá liberdade para determinar o preço de capa digital dos seus livros. Mas observando o que vem acontecendo em outros mercados, sobretudo na Europa, acho que é possível afirmar que os livros digitais devem ficar entre 20% e 30% mais baratos do que os impressos. A questão de um cartel não se aplica. A DLD é apenas uma distribuidora, como tantas que existem hoje trabalhando com livros impressos. Ele oferece serviços de hospedagem e logística virtual, garante a proteção contra a pirataria e a qualidade e integridade do processo para toda a cadeia, inclusive para o leitor. Cada editora que utiliza a DLD negocia diretamente com as livrarias on-line suas condições comerciais.

A porcentagem do autor nas vendas digitais será igual à das vendas impressas?

FEITH: Cada editora negocia em separado os aditivos para obras digitais com seus autores. O padrão internacional indica uma tendência a manter o valor absoluto do direito autoral digital num nível igual ao da obra impressa.

Publicado originalmente em O Globo | Por Miguel Conde no Prosa Online | 4/6/2010 | 8h00m