Jean-Claude Carrière: “O e-book vai desaparecer”


Escritor diz que o livro eletrônico será substituído a partir do momento em que outra engenhoca puder conectar os leitores com todas as bibliotecas do mundo

Dois escritores, amantes do livro e da leitura, encontram-se para registrar diálogos sobre o que será do objeto de seu afeto quando as novas tecnologias começarem a democratizar os livros eletrônicos. As conversas de Umberto Eco e Jean-Claude Carrière, organizadas por Jean-Philippe de Tonnac, transformam-se no livro _não contem com o fim do livro que está sendo lançado no Brasil pela Editora Record.

Além de escritor, Jean-Claude Carrière é dramaturgo e roteirista. Nasceu em 1931, trabalhou com Luis Buñuel, escreveu mais de 80 roteiros e é autor de mais de 30 livros. De Paris, Jean-Claude Carrière conversou com ÉPOCA sobre os diálogos com Umberto Eco, o livro, o futuro da leitura e a preservação da memória.

JEAN-CLAUDE Carrière, autor, com Umberto Eco, de _ não contem com o fim do livro.

ÉPOCA – De quem foi a ideia de fazer o livro e como ele foi realizado?
Jean-Claude Carrière
– Conheço Umberto há muito tempo. Temos mais ou menos a mesma idade. Já trabalhamos juntos em outro livro, há alguns anos. A idéia surgiu com o aparecimento do e-book, o livro eletrônico. Foi Jean-Philippe Tonnac, o jornalista que fala conosco no livro, quem teve a ideia. Ele falou com um editor, da Grasset, que imediatamente concordou em fazer o livro. Ele foi feito em vários tempos, quer dizer, primeiramente trabalhamos em Paris, na minha casa. Logo depois fui passar duas semanas na casa de campo de Umberto, na Itália. Nós trabalhamos muito, os dias inteiros, e em seguida revisamos as transcrições dos nossos textos orais. O material é apresentado como conversas, mas na verdade nós reescrevemos e retrabalhamos as falas. E Jean-Philippe de Tonnac organizou o material e dividiu-o em capítulos.

ÉPOCA – No texto, vocês se referem à permanência do livro considerando quase sempre o livro no papel. Em sua opinião, o que faz do livro um livro?
Carrière
– Essa é uma pergunta que ninguém nunca se faz. Pois um livro é um objeto que nós lemos. Então, por exemplo, nós chamamos de “livro” um manuscrito da Idade Média, escrito à mão, que não é impresso. Da mesma maneira, nós chamamos de “livro” também o livro eletrônico. Então, um livro não é necessariamente um objeto impresso, cujas páginas a gente vira com o auxílio da mão. É um objeto que é lido e que tomou várias formas ao longo dos tempos. Mas nem foram tantas formas assim, afinal, desde o século XV, quando foi inventado o livro impresso, essa forma se manteve a mesma em todos os lugares do mundo. Ele continua sendo sempre o mesmo tipo de objeto e tudo leva a crer que assim continuará por um bom tempo. Como diz Umberto, é uma forma que foi encontrada, como um martelo, como uma colher, e que atende perfeitamente a demanda que temos para essa forma.

ÉPOCA – Em várias passagens do seu livro, o senhor demonstra uma grande preocupação com a preservação da memória. Que riscos correm o livro e a leitura?
Carrière –
Confunde-se muito o livro e a leitura. Não é a mesma coisa. O livro é um objeto, a leitura é uma atividade. Será que a leitura está sendo ameaçada? Por ora, não. Absolutamente. Pois, para usar um computador e todos os objetos eletrônicos que nós utilizamos, é preciso saber ler. Além disso, utilizamos às vezes um certo vocabulário, ainda mais complicado, que é a linguagem do próprio computador. Há signos novos a serem aprendidos. Umberto e eu pensamos – e não somos os únicos – que cada vez que surgem novas técnicas, essas pretendem eliminar todas as outras. Por exemplo, quando o cinema apareceu, pensou-se que era o fim do teatro, da ópera e até mesmo o fim da literatura. De modo algum. O cinema ocupou um lugar entre as várias formas de expressão. Então, é provável que a leitura eletrônica seja extremamente útil para documentos, para cientistas, para juristas, e mesmo para mim às vezes será útil. E é muito provável que ela vá ocupar um espaço entre outras formas de leitura.

ÉPOCA – Se o senhor pudesse resumir, quais seriam as vantagens e as desvantagens dos livros digitais?
Carrière
– Quando eu trabalhava com Luis Buñuel, em um filme que se chamava Via Láctea, e que trata das heresias da religião cristã, eu era obrigado a carregar comigo 50 livros sobre a história das heresias. Hoje, eu poderia carregar todos num e-book. Tomaria tempo para fazê-lo, mas seria muito mais cômodo para transportar. E até mesmo para consultar, porque eu poderia ter um sistema de referências que me permitiria ir diretamente ao assunto que gostaria de consultar.

ÉPOCA – E as desvantagens?
Carrière
– O uso do livro digital não é igual ao uso do livro. O inconveniente é que lemos todos os livros no mesmo suporte, que não tem diferença de formato e que não tem diferença quanto à qualidade do papel, temos o mesmo objeto para ler coisas extremamente diferentes, ao passo que – pensamos Umberto e eu, como todos os admiradores do livro – há uma relação entre a forma de um livro, seu aspecto exterior, e seu conteúdo. Não é o caso do e-book, evidentemente, que é sempre o mesmo.

ÉPOCA – Há uma funcionalidade no Kindle que permite, ao sinalizar ou fazer anotações em um determinado trecho do livro, que outros leitores, que destacaram o mesmo trecho, possam ter acesso a esses comentários. Como o senhor vê essa possibilidade de compartilhamento, de socialização das observações, sendo a leitura um exercício tão íntimo, ao menos até hoje em dia?
Carrière
– Sim, conheço isso, é extremamente útil para todos os trabalhos de pesquisa, de erudição, trabalhos científicos e da área do direito. Pode ser muito útil, pode prestar grandes serviços. Mas é também preciso dizer que o e-book já está obsoleto. Já está ultrapassado. Pois teremos no ano que vem uma nova geração de telefones celulares que nos colocarão diretamente em contato com as bibliotecas, ou seja, não teremos mais necessidade de abastecer o nosso e-book. É esse o problema no momento: o mais cansativo é colocar no e-book o que queremos levar na viagem, ou o que queremos consultar a seguir. A partir do momento em que tivermos outra engenhoca que poderá nos conectar com todas as bibliotecas do mundo, o e-book vai desaparecer.

ÉPOCA – Desde que os diálogos do livro foram gravados, algumas mudanças ocorreram no mercado de livros digitais. Uma delas, o surgimento do iPad, da Apple. Diante disso, o que o senhor acrescentaria ao que está dito no livro? Cabe alguma atualização?
Carrière
– Isso não muda nada do que dissemos no livro, absolutamente nada. O verdadeiro problema da técnica contemporânea, que nós seguimos de perto – Umberto e eu somos espíritos totalmente abertos às novas técnicas -, é que elas ficam obsoletas muito rápido. É a rapidez extrema com que se sucedem as invenções. O número de vezes que mudamos nosso suporte para poder olhar filmes é impressionante. E nos custou muito dinheiro. A questão a se colocar é: será que esse desenvolvimento espetacular das novas tecnologias vai chegar a um ponto de parada? Será que em alguns anos se chegará a um objeto que será definitivo? É essa a verdadeira questão que todos ao nosso redor se colocam. Por ora, não se trata, de modo algum, de comprar um e-book, pois você sabe, com certeza, que o conteúdo que se coloca nos e-books não vai durar mais que cinco anos.

ÉPOCA – A propósito, o senhor acredita que com a conectividade e as outras tantas possibilidades dos livros eletrônicos, poderíamos ter uma espécie de livro vivo, um texto literário em constante atualização?
Carrière
– De todo modo um texto nunca permanece igual. Ele muda de acordo com o leitor. Se você e eu lermos o mesmo texto, leremos cada um à nossa maneira. Não será o mesmo texto.

Revista Época | 14/05/2010 | 22:15

Ken Auletta na New Yorker: publique eletronicamente ou pereça


Para variar, a discussão sobre o impacto do livro eletrônico – via Kindle, via iPadainda mal começou no Brasil, embora, nos Estados Unidos, já esteja pegando fogo. Ken Aulettaque dedicou um volume inteiro ao Google – resolveu se debruçar sobre o impacto do iPad, no universo do livro eletrônico, e escreveu a melhor reportagem sobre o assunto, na New Yorker. Auletta foge do óbvio e nisso está seu mérito. São, atualmente, duas visões de mundo, sobre o futuro do livro, que se chocam no palco dos novos leitores eletrônicos. De um lado, a Amazon, a maior livraria do planeta. Jeff Bezos, seu fundador, já declarou, por exemplo, que o livro físico está condenado, e, dentro da sua empresa, acredita-se que conseguir vender um e-book por US$ 9,99 – em plena era dos downloads – é um grande feito. [E é mesmo.] No outro corner, estão os publishers, as grandes editoras de livros de papel dos EUA, que consideram impossível sobreviver com edições eletrônicas a menos de dez dólares. Então surge Steve Jobs… – o mago do iPod, do iPhone… e do iPad! Jobs, que já viu a cara da morte duas vezes, estaria pensando, agora, em seu legado, conta a reportagem. E nada mais heróico, neste momento, do que salvar o velho mainstream editorial… Na queda-de-braço para tornar o negócio viável, as editoras queriam vender os e-books a dezessete dólares [16,99] e a Apple a quinze. Quem assistiu à demonstração da loja iBooks em janeiro, deve ter notado que o preço dos lançamentos estava em US$ 14,99. Um blogueiro mais atento, depois que todo mundo babava em cima do iPad, resolveu confrontar Jobs em plena descida do palco: “Por que você acha que alguém vai pagar esse preço quando pode comprar o mesmo livro na Kindle Store [que funciona no iPad] a US$ 9,99?”. “Porque o preço não vai ser US$ 9,99”, rebateu Jobs. E a Macmillan provou seu ponto, quando ameaçou sair da Amazon em fevereiro, caso não pudesse vender seus e-books acima de US$ 9,99. [Jobs ficou orgulhoso do feito.] Auletta sugere que esse maniqueísmo, contudo, é apenas uma parte da história. No meio do ano, o Google promete entrar na briga, com a sua “Google Editions”, e 12 milhões de títulos eletrônicos – para serem vendidos em toda e qualquer plataforma. Auletta ainda deixa sugerido que o mercado editorial vai ter de diminuir os longos almoços durante a semana e tentar se entender com os “engenheiros” que criaram [e hoje dominam] a internet. Para encerrar a matéria, sugestivamente [como sempre], com a parábola de um agente literário não identificado: “Você pode até criar asas e tentar desafiar a lei da gravidade mas vai acabar caindo no chão da realidade”.

Publicado originalmente em Digestivo nº 462 | com informações do The New Yorker

Ziraldo digital


Duas obras de Ziraldo, O livro do sim e O livro do não, serão vendidas pela editora Melhoramentos, a partir de hoje, em versão para leitura nos aparelhos eletrônicos iPad, iPhone e iPod Touch, informa Mônica Bergamo.

Folha de S. Paulo | 14/05/2010 | Mônica Bergamo